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- Categoria: Testemunhos SAEP
VÍTIMA DA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA
Um irmão, mantinha-se nas reuniões de Estudos Espíritas no Instituto Penal Ismael Sirieiro, sem manifestar sua opinião, sem colocar alguma dúvida acerca do assunto explanado, embora apresentasse muito interesse. Quando falava, descrevia suspiroso o quanto era feliz com seus familiares, a saudade de todos, principalmente da filha que completara 15 anos. Eram momentos de intensa emoção marcada pelas lágrimas, fruto das lembranças guardadas no coração amoroso do pai ausente.
Durante mais de três meses, chegávamos para o trabalho junto aos internos penais, lá estava ele alegre, sorridente a nos esperar. Durante a reunião mantinha-se em silêncio a nos ouvir. Logo que recebia a oportunidade de comentar as lições recebidas, abria o leque de preocupações com os familiares, enfatizando a torturante saudade que o deixava abatido, e o quanto desejava libertar-se.
Um dia, de repente, quebrando o silêncio que mantivera até então, diz aflito:
— Estou aguardando há 17 meses a condicional, esquecida e abandonada pelas autoridades competentes.
Silencia por alguns instantes, fecha os olhos respirando fundo como a tirar coragem do fundo da alma e, muito irritado, indaga, em tom agressivo.
— Senhores me explica..., por favor, me respondam logo após ouvir minha história:
Precisou respirar fundo. A voz sufocada pela emoção o impedia de transmitir seus pensamentos que, em ebulição, o deixavam atordoado. Alguns segundos depois, falou angustiado, porém ríspido:
— Não sou ladrão, jamais tirei nada de ninguém, nem sequer fiz trapaças nas minhas transações comerciais. Muito menos sou assassino, nunca tirei a vida de ninguém, não tenho coragem nem mesmo de abater um animal. Não sei atirar, não tenho arma, nem nunca possuí. Apenas vendo maconha, nem mais, nem menos. Sendo assim sou um negociante honesto e não bandido, como sou tratado pela sociedade. Trabalharia segundo a lei, sem dela me afastar, se o governo legalizasse a transação comercial da maconha. Tenho certeza, é um comércio como outro qualquer. A meu ver, os prejuízos causados pelo cigarro são muito maiores. Vejam...
Destacando vários recortes com noticiários em jornais e revistas, de óbitos causados pelo tabagismo, falou firme:
— Até propaganda o governo permitiu: em televisões, em jornais, em revistas, em outdoors etc. Fuma quem quer, vocês não acham? Isso também é crime. Por ventura, não é aliciar com propaganda enganosa, demonstrando pessoas bem sucedidas, bonitas e bem produzidas, milionárias, usuárias desta ou daquela marca de cigarros? Depois o Governo proibiu a propaganda, não a comercialização, podia fazer o mesmo com a maconha.
Discursava com sofreguidão colocando enfático: Atualmente o mesmo sistema do cigarro é utilizado para o convite ao “trabalho e ao uso da maconha”, só que na ilegalidade. — repetia irritado. O convite é feito atendendo a expectativa de cada um: Para uns atende o sonho de se dar bem na vida, promover a manutenção dos entes queridos. Para outros, fuga, para os desesperados em aflição.
Tudo que argumentávamos, ouvia e prometia pensar. Na reunião seguinte lá estava ele, primeiro ouvindo calado, depois continuava a inquirir e defender sua tese. Certo dia, mais triste que irritado, demonstrando cansaço, perguntou:
— O que a Doutrina Espírita explica nestes casos iguais ao meu. Já fui preso três vezes, saí e voltei porque não vejo motivos para mudar. Quando sair daqui vou continuar a vender maconha..., tenho certeza de que serei preso pela quarta vez, mas que fazer? Tentando esclarecer continuou:
— Não sou eu quem deve a sociedade, é a sociedade quem me deve nove anos e cinco meses de reclusão, dos quais oito de quitação com a justiça, o restante, sofrimentos e torturas psicológicas impostos pela negligência das autoridades. Não sou bandido, a condenação não procede, é indébita. Mesmo depois de paga me vejo relegado ao abandono pelo descaso dos nossos juristas. Faça-me o favor, me esclareça, quero entender a Doutrina Espírita.
Toda reunião lá estava ele defendendo a tese de “Vítima da Legislação Brasileira”. Qualquer esclarecimento à luz do bom senso era amplamente contestado. Aceitava os desígnios da Providência Divina, dores, dificuldades, com origem nesta e noutras vidas. Com o tempo, além de ouvir, estudava as obras espíritas com a intenção de provar sua tese. Ocupava todo o tempo disponível em busca de comprovação segundo as próprias convicções. Quanto a Justiça Divina, dizia ele:
— Respeito muitíssimo as senhoras, por favor me perdoem, é impossível aceitar que Deus não veja tamanha injustiça, tanto absurdo. A não ser que sejam minhas dívidas de outras vidas cobradas nesta, mas vender maconha não é crime.
Continuava argumentando os abusos dos políticos, dos policiais, dos juristas. Repetindo tudo o que a mídia fornecia em todas as reportagens: corrupção, roubo, malandragem etc., ele trazia para que justificássemos os fatos à luz da Doutrina Espírita.
Indicávamos romances com a intenção que viesse a colaborar nesta empreitada que se transformara num grande desafio. Sem desânimo, mantínhamos-nos em oração permanente a buscar auxílio do Alto. Sempre fundamentados na Doutrina, interpretávamos as lições do dia envolvendo-o com o amor que o Mestre nos deixou para distribuir com os nossos irmãos, “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”. Descrevemos a forma celestial que Ele nos amou, sem cobrança, sem humilhações, sem forçar e sem omitir a verdade Valorizando-o como Filho de Deus, sem esquecer de frisar que o próximo é por isso mesmo seu irmão. Eis que de repente, como num estalo, nossa companheira energicamente pediu a palavra.
— Agora você vai me ouvir — preste bem atenção: é para refletir durante a semana, hoje não teremos tempo para alongarmos-nos em explicações; na próxima reunião, comentaremos. Agora acompanhe meu raciocínio, melhor até de olhos fechados para que possa com mais precisão captar a mensagem que vamos proferir. Imagine que um comerciante de maconha, assim como você, passe a fornecer a droga para sua filha de 15 anos, após aliciá-la; com o uso constante, despertasse nela a dependência química, levando-a ao uso de outros tipos de entorpecentes. Você ao receber uma carta já estremece, o que virá agora meu Deus? Estava certo, não descreviam mais as conquistas belas e promissoras, nem os resultados escolares brilhantes da filha amada, que tantas vezes encheu de orgulho seu coração amoroso. Ao contrário, os familiares relatam que durante as madrugadas procuram por sua filha, e a encontram na sarjeta completamente drogada. Já foi vítima de estupro, por não ter consciência do que se passa consigo, nem a sua volta. Já não é mais o anjo doce e angelical que tantas vezes o fez voar até ela saboreando a doçura das palavras amorosas que lhe enviava, tornara-se agressiva, demonstrando um comportamento semelhante ao de um irracional, um trapo humano. Você entende o que estou falando, sabe o que é a “Dependência Química”, mas vou repetir. É uma doença que só se manifesta quando o indivíduo experimenta algum tipo de droga; é o que acontece em quase todos os casos. Geralmente começam com a maconha, depois não satisfeitos, buscam emoções mais fortes oferecidos por outros tipos de drogas. Para o sustento do vício os usuários se prostituem, roubam, cometem assassinatos. Podemos afirmar que as drogas funcionam para o dependente químico como um rolo compressor, por onde passa, tritura, destrói tudo. Com ela não foi diferente. Em alucinação, tentou matar a própria mãe. As notícias nos jornais, na televisão deram a você a dimensão do estrago que a maconha fez na vida dela, tornou-se irreconhecível na reportagem, enchendo de tristeza e dor seu coração de pai. Estas observações serão para refletir durante a próxima semana. Só voltaremos a falar neste assunto quando você estiver disposto a retomá-lo.
Oramos, pedindo a Deus que esclarecesse o nosso irmão a quem tanto amamos, também por termos utilizado a jovenzinha como exemplo, a ela que igualmente aprendemos a amar pela descrição paternal. Ao mesmo tempo aplicamos passes no grupinho que acompanhava o caso com muito interesse.
Na reunião da semana seguinte ele compareceu cabisbaixo, alegando mal estar, comentou pouco sobre o assunto. Confessou mais tarde a gratidão pelo respeito que dispensamos a ele, pois ninguém tocou no assunto, nem argumentou nada que pudesse constrangê-lo. Declarou satisfeito, dizendo que “o Espiritismo é a Doutrina Consoladora, esclarece os ensinamentos do Cristo sem interferir na vida da pessoa, sem pressionar, respeita as limitações de cada um, ou seja, o livre arbítrio do próximo”.
Daquele dia em diante lá estava ele a nossa espera, com os livros debaixo do braço, sorriso largo e ávido para saber mais e mais sobre a Doutrina. Quando orava, agradecia a misericórdia Divina por não deixá-lo sair da prisão antes de conhecer a Doutrina Espírita. Em todas as reuniões subsequentes estava ele não só comentando, mas pregando o perigo das drogas, a responsabilidade dos nossos atos. O dever de não julgarmos ninguém.
Um dia recebemos um comunicado dos Diretores do presídio; queriam falar conosco. Confesso: fomos apreensivas. O que teríamos feito? Mas fomos saber do que se tratava. Qual foi nossa surpresa? Queriam saber:
- Como lidamos com os presos?
- O que é a Doutrina Espírita?
- Quais os fundamentos da Doutrina?
- Como conseguimos operar aquele milagre?
A Diretora não só se interessou pela Doutrina Espírita, como também quer conhecer o mistério que a envolve, capaz de modificar o comportamento dos elementos perigosos, referindo-se ao irmão que estamos a relatar.
”Eles servem de multiplicadores dos ensinos recebidos, colaborando para que outros elementos igualmente se modifiquem. É impressionante , é impressionante”, repetia ela.
Enquanto o irmão esteve no presídio mostrou-se multiplicador dos ensinos da Doutrina Espírita com a convicção de quem a vivenciou e dela tirou a lição regeneradora.
Há alguns meses saiu em regime semi-aberto; atualmente, na condicional. Tão logo saiu foi ao GELA, Grupo Espírita Leôncio de Albuquerque, deixou um retrato dele numa chalana, seu sonho é trabalhar nela, mas ainda não pode ir para o Sul realiza-lo, está em Niterói, trabalhando muito contente, feliz, repetindo preferir morrer se necessário mas jamais voltará a traficar maconha, ou qualquer outro tipo de droga. Admitiu enfim, que a venda de maconha não se trata de um comércio comum, natural, e sim de um crime que ele cometera e agora teria que trabalhar no combate às drogas. Adotou o lema “Nós os espíritas, não podemos deixar que as drogas destruam nossos jovens. Eles não sabem o que fazem.”, diz ele convicto.
Cirlei Xavier
Coordenadora do trabalho no Instituto Penal Ismael Pereira Sirieiro