O trabalho no I. P. Edgard Costa, quando era uma unidade de regime fechado, contava com um público mais expressivo e constante, já que no semi-aberto, por sua própria natureza, o fluxo de entrada e saída de presos da unidade é mais intenso.
Esta foi apenas uma das razões da modificação desse quadro.
A limitação de agentes religiosos a três pessoas por unidade penal ( posteriormente ampliada para seis ); a mudança de local das reuniões, que antes aconteciam numa sala de aula bem adequada para o nosso trabalho - pois favorecia a concentração, já que o ruído externo era consideravelmente menor. Tudo isso contribuiu para a redução de participantes.
Esse preâmbulo foi para dizer que houve uma época em que contávamos com apenas um participante.
Este participante, no entanto, dava-nos uma satisfação muito grande na realização do trabalho. Daí, sempre dizermos aos companheiros que o número de assistentes não importa efetivamente.
Ele se deslocava numa cadeira de rodas.
Como é de nossa orientação, nunca perguntamos o motivo que levou uma pessoa para trás das grades. Quando ela se sente à vontade, com confiança no grupo, é comum ela revelar espontaneamente.
Se ele contou sua história, eu não me lembro. Só posso afiançar que foram reuniões das mais gratas ao meu coração. Nessa época, havíamos ficado sem agentes religiosos para o Edgard Costa, de modo que eu estava indo sozinho.
Nossos diálogos eram riquíssimos.
Fazendo uma analogia com o filme Sociedade dos Poetas Mortos, em que aquele grupo de estudantes “sorvia literatura”, nós sorvíamos Doutrina Espírita. Era de se ver o interesse com que ele produzia reflexões sobre a Vida à luz do Espiritismo. E saíamos dali, meio que extáticos. Foram várias reuniões assim. Acho que ele era uma terra em que as sementes de que Jesus falava deram o máximo. Ele não conhecia D.Espírita mas, penetrou seus arcanos como poucos.
Algum tempo depois, vieram mais agentes religiosos e minhas visitas foram se tornando mais espaçadas, de modo a poder atender a outras unidades penais. Até que perdemos contato. Não sei que fim levou ele.
Já aconteceu no trabalho ocasião em que não havia procura por parte dos presos. Nem por isso deveremos interromper sequer temporariamente a tarefa, pois, na prática, isso significaria por um ponto final no trabalho.
Essa tarefa precisa ser vista também como um plantão de atendimento fraterno. Imagine se ocorresse nesses plantões de um centro espírita duas ou três semanas seguidas sem procura, e por causa disso, se interrompesse os plantões. Aí é que nunca mais haveria auxílio. É importante estar atento a isso.
O atendimento a esse cadeirante foi seguido de um período em que não houve procura por outros presos.
A orientação dada aos agentes religiosos era para prosseguirem. Nem que fosse apenas com a leitura de uma mensagem e prece. Isso manteria a “luz acesa”.
Posteriormente, apareceram outros interessados.
E o trabalho no I. P. Edgard Costa permanece, com todos os percalços, até os dias atuais.
Samuel Kaplan
Coordenador do Departamento de Assistência ao Interno Penal do GELA