O trabalho no I. P. Ferreira Neto foi o primeiro que surgiu em Niterói, e se mantém bem estruturado até os dias de hoje, em que pese uma que outra oscilação em termos de internos participantes.
Há vários anos atrás, muitos presos latino-americanos envolvidos em tráfico de drogas foram transferidos para esta unidade penal. E alguns deles, passaram a participar de nossas reuniões. Possivelmente atraídos pelo discurso espírita já que inegavelmente há um forte apelo intelectual no mesmo e instrução era algo que não lhes faltava. Tivemos até certa dificuldade para equalizar as discussões, pois os presos brasileiros não tinham o mesmo cabedal que aqueles possuíam. Mas, de toda forma, íamos tentando fazê-lo, procurando atender às aspirações de todo o nosso público.
Lembro-me até que um desses presos fez uma excelente pesquisa sobre perispírito, por iniciativa própria, e reuniu tanto material que chegou a elaborar uma apostila. Nesse período chegamos a adotar uma prática diferente: programávamos alguns desses internos para apresentarem alguns dos temas da nossa programação trimestral.
Mas o preso de quem quero falar é outro. Podia-lhe perceber sua postura íntima, pela qualidade de suas reflexões e de suas emoções.
Depois de um bom tempo participando das nossas reuniões, ele foi transferido para a carceragem da Polícia Federal, onde deveria aguardar seu processo de expulsão ser finalizado.
Naquela época — agora não saberia informar — era possível fazer visitas aos presos. Cheguei a visitá-lo algumas vezes e depois as visitas a presos foram proibidas.
Numa dessas visitas — não posso esquecer-me — ele me dizia, sentados no meio-fio da calçada do pátio, que ele já havia conhecido a D. Espírita antes de entrar no crime. Que ele era chefe de família, trabalhava como mecânico, autonomamente, e que possuía grande habilidade profissional, podendo viver em condição financeira tranquila daquele ofício.
Você vê como é a Vida, dizia ele, eu me deixei atrair por muito dinheiro. Por outro lado, eu precisei ser preso para conhecer a D. Espírita que eu “não conhecia” antes. Ficamos os dois espontaneamente em silêncio, meditando sobre os caminhos da Vida...
Quantas vezes precisamos dar “murro em ponta de faca” para aprendermos a dar valor à mão.
Essa história poderia ser de qualquer um de nós. É por essa razão que Aura Celeste, na sua mensagem Presidiários, através do médium Waldo Vieira, se expressa assim: “Quantas jóias espirituais de rara beleza, atoladas em escrínios de lama?!”
Samuel Kaplan
Coordenador do Departamento de Assistência ao Interno Penal do GELA