Tenho narrado episódios antigos que ficaram gravados em nossa memória, devido ao seu conteúdo emotivo e carregado de lições para nós, que já militamos nesta seara e para os que pretendam ingressar.
Muitos anos atrás, no I. P. Vieira F. Neto, um rapaz que começou a nos frequentar tinha por habito ficar calado e sério, apenas prestando atenção no que se falava durante a reunião. Mesmo instado a dizer alguma coisa à guisa de participação, preferia se manter na reserva. Somente pouco a pouco foi se soltando mais. Mesmo assim continuava quase sem falar, mantendo sempre uma expressão circunspecta.
Era bastante assíduo, dos primeiros a chegar à sala de reunião e, invariavelmente, nos acompanhava a saída.
Passados vários meses, um dia nos abordou e disse que sua mãe — que sempre o visitava — queria nos falar. Respondemos que estávamos à sua disposição. Ficamos algo expectantes para saber do que poderia se tratar.
Quando ele a trouxe até nós, começou logo dizendo que queria agradecer muito a todos do grupo que ali promoviam a reunião, pois seu filho mudara muito, para melhor. “Agora andava mais calmo, já não ficava sempre revoltado, e conversava com ela sobre as coisas que vinha aprendendo ali. E isso, deixava muito feliz o seu coração de mãe.”
Dissemos a ela que esse mérito era todo dele. Ele estava sabendo aproveitar, e que ela não tinha pelo que agradecer-nos, mas, que compartilhávamos da sua alegria e que isso também era muito gratificante para nós, saber desses frutos que o trabalho vinha produzindo.
Refletindo sobre tudo isso, recordo-me também de que um dia ouvi de um companheiro espírita: “não acredito nesse trabalho”. Na hora fiquei meio chocado, meio magoado. Depois entendi que, como ele, muitas pessoas pensam naquela maioria de presos que não tem interesse em se modificar, e sem receber apoio concreto do governo para isso, acabam por engrossar a enorme parcela de reincidentes. Pensam também, que mesmo os que frequentam trabalhos religiosos, efetivamente não se modificam. Bem, esse ponto merece mais reflexão.
Concordamos que existem presos que não despertam o suficiente para intentar sua modificação. Mas há quem queira mudar de vida. Escutam na acústica de sua alma um “som” de cansaço daquela vida que levavam.
Mas é importante lembrar que “a natureza não dá saltos” e ninguém — nem mesmo os que criticam — consegue se modificar como desejaria. Nem Paulo de Tarso o conseguiu. Então, esperar que os presos e egressos modifiquem plenamente seus sentimentos e hábitos de um momento para o outro é, no mínimo, uma atitude ingênua.
Samuel Kaplan
Coordenador do Departamento de Assistência ao Interno Penal do GELA