Vou chamá-lo de O embevecido, porque era assim que ele sempre ficava nas nossas reuniões. Era um embevecido com a Doutrina Espírita. Adorava principalmente as mensagens de Emmanuel e outros tantos espíritos que apresentavam a beleza evangélica da Doutrina em suas páginas. Sentia seu coração bem confortado com as leituras intensas que fazia das obras espíritas e, nas nossas reuniões, sentia-se o embevecimento em que deixava-se ficar.
Ele fora de família espírita, adotado de um orfanato e, apesar da atenção e carinho que recebia — reconhecia ele — sempre cultivar uma rebeldia, responsável pelo abandono do lar e por cair na vida do crime.
Agora, depois de tantos anos, na prisão e mesmo depois de liberto, notávamos-lhe ainda muitas rebeldias em seu comportamento, perfeitamente compreensível, pois a natureza não dá saltos...
Quando saiu da prisão, alojou-se no Patronato Magarino Torres, um albergue do Estado, para onde podem ir aqueles que não têm referências familiares nem onde ficar.
Alguns companheiros desse trabalho, penalizados com a situação de abandono e de saúde precária em que se encontrava — pois já era um sexagenário com os pulmões bastante comprometidos — cotizaram-se para que ele pudesse ficar num abrigo mais humano e, ao mesmo tempo, mais próximo de nós.
Mas um fato que nos marcou muito foi que nos seus primeiros dias de liberdade — num de seus passeios pela região oceânica de Niterói — ele passou por um teste espiritual que, mais tarde, nos confidenciaria.
Estava ele andando por uma daquelas ruas bem desertas quando avistou uma bicicleta “dando sopa”, na sua expressão. Um impulso natural lhe veio à mente: “Puxa, seria tão fácil …”. Diga-se de passagem: ele tinha muita experiência nesse campo. Aconteceu, porém, imediatamente, o conflito maravilhoso que surge em todo processo de renovação espiritual: Veio-lhe o pensamento: “Não, eu não posso mais fazer isso, não dá!” E seguiu seu passeio …
Tocou-me muito este episódio. Na simplicidade deste acontecimento estava justificado o nosso trabalho. Havia sido feito semeadura. E sementes brotaram …
Lembramo-nos de Jesus quando disse “Eu não vim trazer paz, mas a luta”.
Nossas vidas não são diferentes da vida do Embevecido, só que não nos lembramos de muitos crimes que praticamos em outras existências ou não nos damos conta dos que fazemos nesta. Hoje vivemos a duras penas tentando vencer nossos conflitos.
Tomara que tenhamos persistência para não desistir nas primeiras derrotas, também naturais...
Samuel Kaplan
Coordenador do trabalho na Penitenciária Vieira Ferreira Neto