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                                                             GRANDE LIÇÃO DE PERDÃO

Estávamos, Virgílio e eu, realizando mais um encontro, numa tarde de sexta-feira, com três senhores, internos, no Presídio Spargoli Rocha, em Niterói, cujo tema era: “Entrai pela Porta Estreita”, citando os muitos exemplos de esforços que devemos fazer para não mais cometermos os mesmos enganos, os mesmos desatinos que nos fazem sofrer; ressaltamos a importância do ato de perdoar, que é tão difícil em nossas vidas, mas que significa uma grandeza da alma que perdoa sem grandes sacrifícios; comentamos sobre os impulsos da raiva, os ímpetos de agressão física e verbal para com os outros, que precisam ser domados; citamos muitos exemplos, e os internos também acrescentavam outros tantos que representam a Porta Estreita, sacrifícios que nos proporcionam a paz e a fraternidade em nós e em torno de nós, etc. 

Em um certo momento, Virgílio, metaforicamente, compara o nosso subconsciente a um porão, que de vez em quando, precisa de faxina, retirando muitas coisas inúteis, amontoadas, que só juntam poeira e animais peçonhentos. Assim a nossa mente, os nossos pensamentos, os nossos sentimentos precisam ser renovados, arrumados e arejados.

 Foi quando um dos irmãos, de 63 anos, com olhar distante pelas suas recordações passadas, nos interrompe, desejoso de contar o que recordou naquele momento ao ouvir a palavra “porão”. Esse senhor, que muito contribui em todos os nossos encontros com seus comentários, assim narrou:

“Quando eu era um menino, recebi como primeiro trabalho, a incumbência de limpar um porão de uma casa. Realizei a arrumação e a limpeza do local e encontrei uma garrafa de vinho, à qual tomei para mim. À tardinha, me reuni numa praça com vários outros meninos, amigos meus, e começamos a beber o vinho, dando altas risadas.  

Já estava um pouco embriagado quando vi um jovem se sentar num banco de cimento. Enfurecido cheguei perto dele e o mandei sair porque eu queria sentar justamente ali. O rapaz me olhou tranquilo e disse que não iria sair. Então, eu o ameacei: ‘se não sair agora, vou lhe bater’. O rapaz que mostrava grande tranquilidade disse que eu podia bater nele, mas que ele não sairia do banco. Sem pensar muito, larguei um grande tapa, com toda a minha força no rosto do rapaz. No mesmo instante algo estranho aconteceu comigo: todo aquele álcool que estava no meu organismo, sumiu. Fiquei lúcido, como se não houvera bebido nenhuma gota. Na lucidez, diante do rapaz agredido pelo grande tapa que lhe dei, um grande arrependimento tomou conta do meu ser, uma dor imensa, que recordo até hoje, ainda dói em mim.  

O rapaz continuou sereno e eu lhe pedi mil desculpas, não sabia o que fazer para reverter aquele ato, grotesco, violento, que trouxe enorme arrependimento em mim. Pedia perdão sem parar, quando o rapaz me disse que nada tinha a me perdoar, que eu perdoasse a mim mesmo pelo meu ato. 

Aquele acontecimento marcou minha vida para sempre. Me tornei adulto, casei, mudei daquele local, mas as lembranças e a dor da culpa me acompanham até hoje.  

Perto de ser preso, em 2019, meu advogado me aconselhou a tirar uns dias de férias, pois sabíamos que haveria condenação. Montei na minha moto e viajei, retornando a este lugar da minha mocidade.  

Chegando à cidade, fui diretamente ao local onde tudo acontecera há décadas atrás. Sentei exatamente naquele banco de cimento, onde houvera agredido o rapaz, e, como num filme, recordei de tudo o que acontecera, e outras recordações também vieram, do meu tempo de menino. Chorei muito, copiosamente! Precisava chorar, e isso fez bem para mim.  

O arrependimento está presente até hoje; a cena ainda está muito viva em minha memória. Não levantei a mão para bater em mais ninguém em minha vida, embora, tenha batido algumas vezes em minhas filhas, na qual não compreendo porque fiz isto, e me arrependo também por elas.” 

Terminada a narração, Virgílio e eu o acolhemos, dizendo que esta experiência, na verdade, foi boa para ele; talvez lhe impedisse de ser violento com muitas pessoas no decorrer da sua vida, trazendo mais prejuízos para si, e que o verdadeiro exemplo de perdão, foi vivenciado nesse drama, pelo rapaz, servindo de exemplo e de lição para toda a sua vida. 

Conversamos sobre a necessidade de perdoarmos as pessoas e de se amar também, porque o sentimento de culpa de nada ajuda, só pesa na alma. Arrepender-se sim, culpar-se não. 

A narrativa da experiência do irmão, preso em suas recordações, rendeu boas reflexões ali, em torno do ato de perdoar, de amar as criaturas como irmãs nossas e amar a nós mesmos, nos cuidando, para que possamos alcançar o equilíbrio necessário, recomendado pelo Mestre Jesus, para que tenhamos paz em nossas consciências e mais amor em nossos corações.

“Entrai pela Porta Estreita, porque muitos procurarão transpô-la e não conseguirão.”, “Batei a porta e ela se abrirá.”  Jesus

Juçara Cordeiro de Araújo Pereira

Agente religiosa no Instituto Penal Coronel da PM Francisco Spargoli Rocha

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