Ao começar a ler o Livro “Memórias de um Suicida”, ditado pelo Espírito Camilo Cândido Botelho e escrito pela médium Yvonne A. Pereira, percebi que existem prisões corretivas em diversos setores do plano espiritual, o que me deixou um tanto perplexa, visto que também temos aqui na Terra penitenciárias abarrotadas de encarnados que infligiram as leis humanas que tentam manter a ordem e a paz nas sociedades. Podemos também, constatar essa realidade em uma das obras de André Luiz, em ”Ação e Reação” psicografada por Francisco Cândido Xavier que traz informações valiosas para ampliar o nosso conhecimento.Nossa pesquisa, portanto, girará em torno das duas obras citadas acima. Como seriam, então, essas prisões no plano espiritual? Quem estaria sujeito a elas? Quais as suas finalidades? Como elas se processam e quem as criou? São indagações importantes para a nossa compreensão das Leis Divinas levando em conta que tudo tem uma razão de existir e que as Leis de Deus jamais são punitivas e sim corretivas.Em nossa ingênua e imatura concepção sobre o Amor, Justiça e Misericórdia de Deus, poderíamos até achá-lO cruel frente à existência desses lugares de sofrimento e dor. Porém, examinando um pouco mais, compreenderemos melhor essas imprescindíveis detenções.Enquanto que na Terra a justiça humana está sujeita a cometimento de erros, injustiças e arbitrariedades, levando até inocentes à prisão ou à morte, as Leis Divinas funcionam com perfeita justiça, nunca cometendo erros, enganos ou alterações e, por se encontrarem insculpidas nas consciências de todos os indivíduos, os mesmos tratam de condenar a si próprios quando as derrogam. Além disso os seus estados vibracionais condizem perfeitamente com os locais onde se encontram no plano espiritual por afinidade e atração, como haveremos de verificar. Ao passo que na Terra as prisões ainda têm por objetivo maior conter os corpos dos indivíduos infratores imobilizados em celas para que os impeçam de cometer novos delitos, não se levando em conta as suas almas, os seus sentimentos, suas reais ressocializações e nem tampouco mostrando interesse em avaliá-los individualmente em seus progressos morais, psicológicos, sociais, etc., as detenções no plano espiritual, ao contrário, bem administradas pela Espiritualidade Maior, levam em conta a particularidade de cada espírito infrator das Leis divinas, retido por si mesmo em alguma zona purgatorial na crosta terrestre. Desta forma, registram os seus progressos individuais, acompanhando-os sempre, promovendo efetivas reabilitações para que todos possam reintegrarem-se como filhos de Deus e tomarem posse da herança divina.No livro “Memórias de um Suicida”, Camilo que foi um suicida na Terra e se viu no Vale dos Suicidas logo após sua morte, conta-nos sua experiência tão sofrida que o estimulou a fazer valiosas observações e a relatá-las mais tarde, através da mediunidade de Yvonne Pereira, que tanto nos elucidam quanto à justiça divina.Camilo relata sobre as prisões nas quais os Espíritos ficam submetidos quando se destoam das leis divinas de amor, justiça e caridade. Em suas observações, durante o tempo em que permaneceu em sofrimento no Vale dos Suicidas, do qual foi resgatado e reabilitado lenta e progressivamente na Colônia Maria de Nazareth, associou o Vale dos Suicidas com uma penitenciária, na qual almas infelizes são atraídas e prendem a si mesmas nesta zona de sofrimento, por conta de suas próprias consciências revoltadas ou culpadas por atitudes que resultaram em prejuízo a si próprios e aos seus semelhantes. Camilo assim descreve no livro:“O que há é o "ranger de dentes nas trevas exteriores" de um presídio criado pelo crime, votado ao martírio e consagrado à emenda! ... ...O Vale Sinistro apenas representa um estágio temporário, sendo ele para lá encaminhado por movimento de impulsão natural, com o qual se afina, até que se desfaçam as pesadas cadeias que o atrelam ao corpo físico-terreno, destruído antes da ocasião prevista pela lei natural...... Era eu, pois, presidiário dessa cova ominosa do horror! Não habitava, porém, ali sozinho. Acompanhava-me uma coletividade, falange extensa de delinquentes, como eu. ”
Colônia Maria de Nazareth
A Colônia leva este nome porque é chefiada pelo angélico espírito Maria de Nazareth, que na Terra teve como missão ser mãe de Jesus. Destina-se ao resgate e tratamento aos espíritos suicidas.Os departamentos da colônia descritos por Camilo são: o hospital, o isolamento, o manicômio e as torres de vigia.Camilo, assim que se encontrou em melhores condições, depois de ter passado longo tempo no hospital, foi convidado a visitar uma das Torres de Vigia, descrevendo seus pormenores. No alto da Torre as portas eram largas, envidraçadas, à prova de som, estendendo-se em toda a circunferência, deixando ver o que se passava no interior de cada aposento. No primeiro gabinete existiam estranhas baterias de aparelhos que pareciam ser telescópios possantes, maquinarias aperfeiçoadas para sondagem a grandes distâncias, espécie de "Raios X", capazes de devassar os abismos do Espaço infinito. Havia um outro gabinete com telas luminosas capazes de retratar acontecimentos e cenas de longas distâncias cujos técnicos credenciados estudavam e examinavam. Os trabalhadores eram muitos, de ambos os sexos, trabalhando com seriedade e fraternidade.Camilo cita a presença de celas na Torre de Vigia para abrigar obsessores suicidas perigosos, indesejáveis e prejudiciais, separados de outras dependências da Colônia para não perturbar e prejudicar outros já predispostos ao bem. Eram mantidos sob severa custódia e disciplina para se reeducarem e se reabilitarem e dali não se elevariam a planos mais rarefeitos sem que antes voltassem a renascer na Terra, a fim de se despojarem do peso dos crimes revoltantes que cometeram.Surpreso com as detenções no plano espiritual, indaga e recebe as seguintes explicações do instrutor Roberto de Canalejas:“Convinde, todos vós, que não deveria constituir surpresa a existência de prisões aqui, no além túmulo. (...) o que seria a Humanidade terrestre se não existissem repressões nas sociedades espirituais, uma vez que, mesmo havendo-as, hordas sinistras de malfeitores do plano invisível atacam a todas as horas os homens incautos que lhes favorecem o acesso, contribuindo para suas quedas e para a desordem entre as nações! (...) por sua vez, a Terceira Revelação, que, na Terra, há já alguns anos vem apresentando extensas reportagens do Mundo Invisível, põe a descoberto, para o entendimento de qualquer inteligência, impressionantes pormenores a respeito da palpitante realidade que até mesmo os povos mais antigos aceitavam e compreendiam na sua justa expressão, como verdades dignas de respeito! “(...) ao demais, por que não existiria deste lado da vida prisões e rigores se há cá maior percentagem de delinquentes que do lado de lá?! Pois grandes erros existem, cometidos pelos homens, contra os quais não há penalidade estatuída na jurisdição humana, mas os quais sobremodo pesam nos incorruptíveis estatutos da Justiça de AlémTúmulo! Outrossim, quantos crimes deixam de receber corretivos na Terra, não obstante haver para eles penalidades na mesma jurisdição terrena?! Ou pensais poderia o homem viver à revelia da Justiça, ao sabor das próprias inconveniências?!... Porventura julgais que a morte transforme em bem aventurados a quantos se excederam na prática de desatinos no mundo material?... Enganais-vos! O homem que viveu como ímpio, desafiando diariamente as leis divinas com atos desarmoniosos em desfavor de si mesmo, do próximo e da sociedade, em chocante desrespeito ao futuro espiritual que o aguarda, entrará como ímpio, como réu que é, no mundo das realidades, onde será punido pelas consequências lógicas e irremediáveis das causas que criou! Daí o que vedes aqui.”As celas na Torre de Vigia, ao contrário das penitenciárias da Terra, mais pareciam um educandário com apartamentos individuais amplos, arejados e sem grades, contendo cama, bons móveis, mesa para estudo, livros e local para refeições, sem a presença de carcereiros a se imporem pela violência e sim assistidos por missionários educadores. Tudo isso para não os humilhar ou levá-los à revolta.O método de reeducação a esses presos não era o de punição como acontece comumente nos presídios terrenos. Padre Anselmo, diretor das Torres de Vigia, assim esclarece: “Pois que a punição, o castigo, o próprio delinquente os traz dentro de si, com o inferno em que se converteu sua consciência ininterruptamente conflagrada por mil diferentes aflições... o que dispensa atormentá-lo com mais castigos e represálias! ”“A instrução deles limitar-se-á a pequeno aprendizado em torno de si mesmos, noções das leis fraternas expostas no Evangelho do Senhor e a labores regeneradores exercidos nos palcos da Terra, sob a direção de assistentes rigorosos, ou em nosso regimento de milicianos, onde mentores especializados no gênero guiá-los-ão à prática de serviços nobilitantes, em oposição ao muito mal que praticaram no passado”. O método de reeducação consistia em: teses sobre os direitos de cada indivíduo, tanto na sociedade terrena como no astral à luz da Lei do Criador; direitos de mútuo respeito, solidariedade e fraternidade em torno de si mesmos e dos seus semelhantes; análise das próprias ações cometidas durante a última existência na Terra e também no Invisível até aquela data, confrontando-as com as normas expressas nas leis que regem o mundo astral e com os códigos da moral cristã, indispensáveis ao progresso e bem-estar de todas as criaturas . Os alunos tinham o direito de contestar e de receber preciosos esclarecimentos fornecidos pelo mestre a cada contestação do discípulo! Retendo-os e cassando suas liberdades de que muito abusaram, eram assistidos por dedicados zeladores que lhes forneciam proteção e amparo, misericórdia, ensino e esclarecimentos, elementos necessários para que combatessem as trevas em si mesmos e se reabilitassem para novos reingressos na Terra.Dava-se grande valor aos internados, lembrando-nos Jesus, o grande Pastor, que cuida até hoje do seu rebanho, para que nenhuma de suas ovelhas se perca. E Padre Anselmo confirma essas atenções e cuidados da Espiritualidade Maior: “Sobre (...) os obsessores, existem mesmo recomendações especiais provindas de Mais Alto, visto que a Insigne Guardiã da Legião (Maria) deseja vê-los o mais cedo possível integrados nas hostes dos verdadeiros conversos da Doutrina do Amado Filho, na Legião dos trabalhadores devotados da Causa Magnânima do Mestre dos mestres!Assim sendo, além dos trabalhos que desempenham e que também fazem parte da instrução que lhes é devida, todos estudam, aprendem com seus instrutores noções indispensáveis do Amor, da Justiça, do Dever, do Bem legítimo, habilitam-se na Moral do Cristo de Deus, no respeito devido ao Todo Poderoso, até que tornem à reencarnação para os testemunhos decisivos. “Dia virá em que todos nós, espíritos ainda imperfeitos na Terra, teremos verdadeira compaixão e benevolência para com as imperfeições alheias, combatendo o mal, que ainda persista, com energia e educação, porém sem ódio, preconceitos ou com a finalidade de punir e nem tampouco de exterminar irmãos em crescimento moral na Terra, acreditando e investindo em reais reabilitações.Quem seriam os que faziam a sentinela de defesa da colônia, dentro e fora dela? Seria necessário a energia firme para aquela especialidade de trabalho. O Espírito Camilo nos explica que o regimento era composto de milicianos e lanceiros especializados. Muitos dos integrantes desse regimento ensaiavam os primeiros passos na senda de trabalhos edificantes. Alguns foram também suicidas que experimentavam a reparação de antigos deslizes. Outros saíram da mais negra impiedade, pois foram, além de suicidas, temíveis obsessores. Todos eles, porém, eram tratados pela direção da Colônia com desvelado amor e caridade cristã, com a qual estimavam cooperar. Padre Anselmo explica:“Não poderei deixar de fazer referências aos batalhões de lanceiros hindus aqui também aquartelados, os quais, voluntária e abnegadamente, se dedicam a servir de modelo para os recém arrependidos, fiscalizando-os e cooperando conosco para sua reabilitação, enquanto prestam outros inestimáveis concursos à direção de nosso Instituto. Esses hindus, antigos discípulos particulares dos iniciados aqui domiciliados, alguns já bastante encaminhados para a luz da Verdade, são, como facilmente percebemos, o verdadeiro sustentáculo da ordem e da disciplina que mantêm a paz entre os demais. ”Podemos, portanto, constatar,alguns resultados de reabilitação de Espíritos anteriormente arraigados ao mal, a integrarem-se em serviços do bem nesta importante colônia. E como seria as demais regiões inferiores da Terra? Haveriam núcleos de reabilitações como o da Colônia Maria de Nazareth?Em o livro “Ação e Reação”, André Luiz descreve tristes panoramas de almas em sofrimento, presas em regiões umbralinas, das quais não conseguem se afastar, ou encarceradas em celas especiais, em torno das muitas colônias espirituais espalhadas em todo o planeta, que representam verdadeiros núcleos de reabilitação de irmãos infelizes.No livro referido, Hilário e André Luiz, orientados pelo instrutor Druso, visitam a “Mansão da Paz”, uma importante escola de reajuste, situada nas regiões inferiores e sob a jurisdição da Colônia Nosso Lar.Fundada há mais de três séculos, se dedica a resgatar espíritos presos às vibrações de ódio, vingança e rebeldia em regiões inferiores, desde que se proponham a trabalhar pela própria regeneração. Interessante lembrar que essas regiões inferiores no plano espiritual existem pelas criações mentais inferiores das almas quando se firmam no mal ou na culpa. Assim esclarece o instrutor Drúsio:“Fiquem, pois, sabendo que nossas criações mentais preponderam fatalmente em nossa vida. Libertam-nos quando se enraízam no bem que sintetiza as Leis Divinas, e encarceram-nos quando se firmam no mal, que nos expressa a delinquência responsável, enleando-nos por essa razão ao vinco sutil da culpa. Afirma velho aforismo popular na Terra que “o criminoso volta ao local do crime”. Daqui podemos asseverar que, mesmo desfrutando a possibilidade de ausentar-se da paisagem do crime, o pensamento do criminoso está preso ao ambiente e à própria substância da falta cometida. ”E acrescenta essa notável explicação:“ (...) Ora, sabendo que o bem é expansão da luz e que o mal é condensação da sombra, quando nos transviamos na crueldade para com os outros, nossos pensamentos, ondas de energia sutil, de passagem pelos lugares e criaturas, situações e coisas que nos afetam a memória, agem e reagem sobre si mesmos, em circuito fechado, e trazem-nos, assim, de volta, as sensações desagradáveis, hauridas ao contato de nossas obras infelizes.”Desta forma, compreendemos que somos herdeiros de nossas próprias obras. O tribunal de nossas consciências não falha, absolvendo-nos ou aprisionando-nos perante as nossas próprias ações.
Colônia Mansão da Paz
Nesse grande casario foram observados: recursos de segurança e defesa contra os ataques exteriores numa região tão inóspita; setores de cursos para instrução de sacerdotes, médicos, enfermeiros e professores que encontram novos aprendizados depois de desencarnados no plano espiritual e setores de assistência aos internados.Situada em região inferior, também tem em seus arredores espíritos que foram criminosos, oriundos das sociedades terrenas; orgulhosos e prepotentes que querem continuar a agir em prejuízo de si mesmo e do próximo; também seres incautos e inexperientes que se deixaram seduzir ao erro e os sensuais que usaram de leviandade com seus corpos carnais, entregando-se à dissolução dos costumes, saciando os sentidos com gozos nefastos.Jamais estarão desamparados e o auxílio sempre chegará quando deixarem de se aprazerem no mal e se mostrarem receptivos à renovação interior.Numa dessas incursões nos arredores da colônia, André Luiz relata a presença de locais servindo de reclusões temporárias a alguns espíritos, descrevendo um deles como de uma pequena casa simples, em meio ao nevoeiro, cujo interior emanava reconfortante luz de um candeeiro. Um homem com aspecto rude, agigantado, acompanhado de seis cães enormes tomava conta desta choupana, cujo interior havia algumas celas ocupadas por entidades em tratamento, prestes a serem ingressas na colônia. Seu nome era Orzil, um dos guardas da Mansão em serviço nas sombras. Já fora um penitenciário, mas depois de longo estágio na Mansão vinha prestando valioso trabalho naquela região, estando a caminho da sua própria regeneração.Convidados a entrar e inspecionar as celas próximas verificaram que eram rústicas, porém confortáveis e naturalmente construídas com o objetivo de contenção. Três entidades jaziam em situação de inconsciência. Através das portas gradeadas puderam ser contempladas. Todas traziam a mente atordoada por constrangedores quadros que os encerravam em punitivas recordações. Era notável a angústia entre remorsos e arrependimentos de ações que praticaram quando ainda estavam na carne. Podemos concluir, através destas duas obras mediúnicas, como é importante a contribuição do Espiritismo que nos proporciona uma ampla concepção de justiça para o espírito humano, compelindo-nos a conhecer a nós mesmos, a nos reajustar ao caminho traçado por Jesus e ao mesmo tempo sermos auxiliares no soerguimento de nossos irmãos mais necessitados moralmente que nós. Quanto mais esclarecimentos a criatura recebe, mais responsável ela se torna, amadurecendo e ampliando sua consciência cada vez mais.E encerramos com uma contribuição de Emmanuel: “o objetivo é de salientar que os princípios codificados por Allan Kardec abrem uma nova era para o espírito humano, compelindo-o à auscultação de si mesmo, no reajuste dos caminhos traçados por Jesus ao verdadeiro progresso da alma, e explicam que o Espiritismo, por isso mesmo, é o disciplinador de nossa liberdade, não apenas para que tenhamos na Terra uma vida social dignificante, mas também para que mantenhamos, no campo do espírito, uma vida individual harmoniosa, devidamente ajustada aos impositivos da Vida Universal Perfeita, consoante as normas de eterna Justiça, elaboradas pelo supremo equilíbrio das Leis de Deus.” (Trecho extraído do prefácio do livro Ação e Reação).
Juçara Cordeiro de A. Pereira (agente religiosa nas unidades prisionais de Guaxindiba,SG)
Prisões no plano espiritual
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