“Há poucos dias, quando me falaram pela primeira vez do Espiritismo e da revelação de Além Túmulo, ri e disse que isto não seria possível.”
Quem escreveu estas palavras acima (muitos outros já disseram a mesma coisa) foi um condenado, que recebera, na prisão, um exemplar de O Livro dos Espíritos. No começo, encarou a obra com o maior desinteresse, mas pouco depois escrevia uma carta a Allan Kardec, carta um tanto longa, relatando a sua experiência e dizendo, afinal, do bem que lhe causara a leitura daquele grande livro. Allan Kardec publicou a carta na Revista Espírita de Fevereiro de 1864, exatamente sob o título O Espiritismo nas prisões.
Era um cético, um revoltado, já sem esperança de recuperação. “A princípio – dizia ele – lia com incredulidade. Mas depois, levei a coisa a sério.” Leu a obra com seriedade, sem preconceito, e passou a sentir a transformação que se operava em si mesmo, dia-a-dia. Comentário da Revista: “Se tais resultados são produzidos por uma simples leitura, feita por assim dizer, às ocultas, o que seria se a ela se pudesse juntar a influência das exortações verbais!”
Realmente, se além da leitura houvesse explanação da Doutrina Espírita na prisão daqueles tempos, outros presidiários também seriam muito beneficiados! Aliás, a propósito da difusão dos ensinos espíritas nas prisões, como ocorre no Brasil já há muito tempo, existem experiências bem valiosas, senão edificantes. Pelo que sei, creio que desde o século passado (XIX), pelo menos no Rio de Janeiro, a palavra espírita se faz sentir nas prisões. E com apreciáveis resultados!
Lembro-me, por exemplo, de já ter visto uma fotografia em que aparece um grupo de espíritas saindo da Penitenciária, após uma palestra domingueira, há meio século, mais ou menos. Entre eles estava Manoel Quintão, vestido de fraque, segundo a moda de outros tempos. Veja-se bem: ainda no tempo do fraque, que era uma peça de alta categoria na elegância masculina, do passado. E o trabalho junto aos nossos irmãos encarcerados nunca parou. Podemos dizer que no Brasil inteiro. Não é fácil, mas se alguém, ou alguma instituição espírita, quisesse tomar a si a trabalhosa tarefa de fazer o levantamento geral, através de pesquisas, depoimentos e relatórios do que já se realizou nesse campo, seria um dos maiores documentários da influência salutar do Espiritismo como doutrina regeneradora. Já vi, com os meus próprios olhos, algumas cenas que me comoveram em contato com os presidiários. E os casos que a dona Ilva Tavares nos contava, casos que tocava o coração!...Ela sentia o problema de todos, pois levou anos a fio indo na penitenciária e conseguiu reerguer elementos que já eram considerados perdidos... Outro exemplo: dona Idalina de Aguiar Mattos continua, há anos, no Rio, dando assistência e tem hoje, uma das maiores experiências, ricas de lições. Os livros que dona Idalina já escreveu sobre o trabalho espírita entre os presidiários e os relatos que ela faz verbalmente encorajam e edificam, sem a menor dúvida.
Lembro-me de que certa vez levamos à penitenciária um confrade nosso, bastante experimentado nas lides espíritas, e que era Juiz de Direito aposentado. Pedimos-lhe que fizesse a palestra e ele escolheu um tema evangélico, elucidado à luz da Doutrina Espírita. Como penetrou na alma dos presentes, tal o sentimento com que desenvolveu a dissertação, fazendo aplicações doutrinárias às circunstâncias da vida humana. O homem dominou o auditório. Ao terminar a palestra, um dos muitos detentos foi abraçá-lo e exclamou:
- Doutor, se eu tivesse recebido lições como esta, no tempo em que vivia sem rumo, não teria vindo parar aqui!...
Muitos e muitos outros casos do mesmo tipo poderiam ser apontados como prova da ação reeducadora da Doutrina Espírita.
É verdade que há muita exploração. Quem vai a uma penitenciária encontra gente que quer sinceramente regenerar-se, gente que sente sede de justiça, gente que é vítima da injustiça. Mas também encontra gente que conta história das mais engenhosas, gente que sabe disfarçar com astúcia. Mas, afinal, tudo isto está no quadro cotidiano da sociedade humana. Dentro de uma sociedade de reclusos, é natural que muitos façam apelo a certos expedientes para obter favores. Seja, porém, como for, o trabalho no ambiente penitenciário oferece muita surpresa, provoca emoções fortes muito fundas, mas também é um dos maiores testes da influência das ideias espíritas.
Há um problema para cuja solução naturalmente o meio espírita que já fez muito até agora, terá de fazer ainda mais. É exatamente o problema da rejeição ao ex-presidiário, ainda que regenerado, Diversos casos já foram apontados.
O fato de ter saído da prisão, como que marca para sempre a criatura humana, tornando-a inútil socialmente. É preciso levar em conta, no entanto, que aqui fora, sem nunca terem sido presos, muitos homens já foram viciados, turbulentos, desastrados, mas conseguiram reerguerem-se depois de muitas decepções, quedas e dores. Caíram em si e sempre há tempo para uma tomada de posição perante a vida. E voltaram ao bom caminho. Nunca faltam oportunidades. Quando a educação trabalha o espírito, despertando o sentimento de responsabilidade e demonstrando que ninguém está definitivamente perdido, evidentemente põe à disposição do ser humano o principal instrumento de sua reforma interior.
O ex-presidiário, no entanto, fica desajustado socialmente, dominado pelo complexo de imprestabilidade, porque muitas vezes ficou marginalizado pelo preconceito, pela desconfiança... Eis aí, finalmente, outra frente de trabalho que se abre ao movimento espírita.
Deolindo Amorim
Livro: Ponderações Doutrinárias; Organizado por Celso Martins
(Jornal Correio Fraterno do ABC – São Bernardo do Campo – Maio de 1980).