Diferente de outras religiões, na Doutrina Espírita não existe algum tipo de ritual externo em que o adepto pode dizer que, à partir daquele dia ele é espírita. A convicção ultrapassa um momento deste naipe. Allan Kardec vem em nosso socorro quando nos ensina que “reconhece-se o verdadeiro espírita por sua transformação moral e pelos esforços que ele faz para domar suas tendências” (ESE., XVII, 4). Mas esta definição nos fala das consequências de tornar-se espírita, mas como saber se sou ou não espírita? Esse momento se chega quando se acredita nos cinco pontos básicos da fé espírita: existência de Deus, imortalidade da alma, comunicabilidade de encarnados com desencarnados, reencarnação e pluralidade dos mundos habitados. Somando o ensinamento de Kardec a crença nesses postulados, temos aí o espírita. Mas não basta acreditar nos postulados. Temos que interiorizá-los. Acreditar e vivenciar os mesmos. A crença por exemplo na reencarnação trás desdobramentos incríveis, nunca dantes imaginados pelo homem comum. Ao crer nesta lei natural, aceitamos a lei de causa e efeito, consideramos natural as provas e expiações por nós escolhidas ou a nós impostas, durante o planejamento reencarnatório. Só em crer que a nossa vinda à Terra é adredemente preparada e que a reencarnação nos é tremendamente cara, como nos ensinam os Espíritos Superiores na questão 132 do magistral “O Livro dos Espíritos”. Vejamos: “Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos? R: Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal(...)” , só desta forma é que faremos de um tudo para manter a vida. Daí o Movimento Espírita organizado e unido em torno do Conselho Federativo Nacional da FEB., lançou ainda no século passado, as Campanhas em Defesa da Vida. Esse foi também o objetivo da editora da FEB., ao organizar o genial livro “O Que os Espíritos Dizem sobre o Aborto”. Ainda no livro base do conhecimento espírita, lemos na questão 344 que o espírito reencarnante se liga ao corpo no momento da fecundação. Ali inicia-se, com todo o cuidado, o processo reencarnatório.  Neste particular, pedimos licença do leitor amigo para aprofundar um pouco mais, já que faz-se necessário entender um pouco de Direito para se chegar, de forma muito tranquila e natural, que o aborto é crime e que deve continuar a sê-lo na legislação pátria. Mas antes vamos voltar ao LE e na questão 880, Kardec pergunta aos Espíritos Reveladores qual é o primeiro de todos os direitos do homem. A Resposta é clara, direta e cristalina de tal forma que não nos permite tergiversar:“O de viver. Ninguém tem o direito de atentar contra a vida de seu semelhante nem fazer o que possa comprometer sua existência física.” Bem, então não posso afirmar, nem brincando que a grávida tem o direito de escolha entre abortar ou não, pois que a vida que é gerada dentro de si, não lhe pertence. É uma outra  vida. Ela trás consigo um hóspede ilustre, não importando a condição das provas e expiações que ele traga em sua bagagem reencarnatória. Já estão ligados e já o são de outras vidas. Sim, porque ninguém é filho de ninguém por acaso. Então, ao apoiar a descriminalização do aborto, eu estarei dando a grávida o direito de abortar. Pergunto: Esse direito está disponível? Se abortar é o mesmo que matar, apoiando tirar o aborto da galeria de crimes passíveis de punição, estou autorizando a grávida ou quem quer que seja, a matar. Teria eu este direito? Segundo nos ensina a Doutrina Espírita, não. A questão então, é mais de fundo do que de base. É inegociável este entendimento. Descabe qualquer argumento sócio-cultural-filosófico, pois ou se acredita nos postulados e se é espírita e se aplica o que se acredita em todos os pontos de vistas, ou se é simpático a causa espírita. Neste caso, sem nenhum compromisso com os postulados. Vou ilustrar: Antonino é casado há dez anos. Tem 40 anos. Sonha em ser pai. Ele e sua esposa fizeram todos os exames e são absolutamente normais. Mas nada de engravidarem. Resolveram ir em busca de ajuda na Casa Espírita. São recebidos no atendimento fraterno. Resolveram conversar isoladamente com os atendentes. Depois de um bom papo, nada de se abrir. O atendente olha nos fundos dos olhos de Antonino e pergunta: “O que lhe atormenta a alma? “. Ele cai em pranto convulsivo. Um aborto praticado aos 20 anos viera à tona naquele momento. Eis a explicação da dificuldade para engravidar....os casos se multiplicam aos borbotões....A questão é, pois, de confessar nos atos e palavras a fé que lhe embala a alma. Em sendo espírita, defende-se a Vida. De todos os meios e modos. Seja qual seja o floreio colocado no assunto, como agora o é no caso de zica vírus, o espírita verdadeiro, como nos ensina Kardec, é contra o aborto. Por fim, lembremos do ensinamento evangélico: “Seja o teu falar sim, sim, não, não, pois o morno o Senhor vomita”. Se nos declaramos espíritas, somos contra o aborto. Lutemos pela Vida, sempre !

Hélio Ribeiro Loureiro é vice-presidente doutrinário da Associação Jurídico Espírita do Brasil
PORQUE O ESPÍRITA É CONTRA A DESCRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO