ÁREA DE EDUCAÇÃO ESPÍRITA

SERVIÇO DE EVANGELIZAÇÃO DA FAMÍLIA

SETOR DA FAMÍLIA

ENCONTRO ESTADUAL DA FAMÍLIA ESPÍRITA - ENEFE


CADERNO DE ESTUDOS

XXV ENEFE - 2019

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“Meu Pai trabalha até hoje e Eu trabalho também”.

João 5:17.

É hora de agir!

Ama e trabalha!

Caderno de estudos – ENEFE 2017

Tema central: “É hora de agir! Ama e trabalha”!

Objetivo geral: Incentivar os participantes à prática dos ensinamentos do evangelho de Jesus a fim de que a família se veja como protagonista do bem no mundo tendo a prática da caridade como parâmetro de amor e trabalho.

Justificativa 1: Resumo da doutrina de Sócrates e de Platão

II. A alma se transvia e perturba, quando se serve do corpo para considerar qualquer objeto; tem vertigem, como se estivesse ébria, porque se prende a coisas que estão, por sua natureza, sujeitas a mudanças; ao passo que, quando contempla a sua própria essência, dirige-se para o que é puro, eterno, imortal, e, sendo ela dessa natureza, permanece aí ligada, por tanto tempo quanto possa. Cessam então os seus transviamentos, pois que está unida ao que é imutável e a esse estado da alma é que se chama sabedoria.

Assim, ilude a si mesmo o homem que considera as coisas de modo terra-a-terra, do ponto de vista material. Para as apreciar com justeza, tem de as ver do alto, isto é, do ponto de vista espiritual. Aquele, pois, que está de posse da verdadeira sabedoria, tem de isolar do corpo a alma, para ver com os olhos do Espírito. É o que ensina o Espiritismo. (Cap. II, nº 5.)

Justificativa 2: A Lei do Amor

8 – O amor resume toda a doutrina de Jesus, porque é o sentimento por excelência, e os sentimentos são os instintos elevados à altura do progresso realizado. No seu ponto de partida, o homem só tem instintos; mais avançado e corrompido, só tem sensações; mais instruído e purificado, tem sentimentos; e o amor é o requinte do sentimento. Não o amor no sentido vulgar do termo, mas esse sol interior, que reúne e condensa em seu foco ardente todas as aspirações e todas as revelações sobre-humanas. A lei do amor substitui a personalidade pela fusão dos seres e extingue as misérias sociais. Feliz aquele que, sobrelevando-se à humanidade, ama com imenso amor os seus irmãos em sofrimento! Feliz aquele que ama, porque não conhece as angústias da alma, nem as do corpo! Seus pés são leves, e ele vive como transportado fora de si mesmo. Quando Jesus pronunciou essa palavra divina, — amor — fez estremecerem os povos, e os mártires, ébrios de esperança, desceram ao circo. LÁZARO - Paris, 1862

9. (...) Pois bem: para praticar a lei do amor, como Deus a quer, é necessário que chegueis a amar, pouco a pouco, e indistintamente, a todos os vossos irmãos. A tarefa é longa e difícil, mas será realizada. Deus o quer, e a lei do amor é o primeiro e o mais importante preceito da vossa nova doutrina, porque é ela que deve um dia matar o egoísmo, sob qualquer aspecto em que se apresente, pois além do egoísmo pessoal, há ainda o egoísmo de família, de casta, de nacionalidade. Jesus disse: “Amai ao vosso próximo como a vós mesmos”; ora, qual é o limite do próximo? Será a família, a seita, a nação? Não: é toda a humanidade! Nos mundos superiores, é o amor recíproco que harmoniza e dirige os Espíritos adiantados que os habitam. E o vosso planeta, destinado a um progresso que se aproxima, para a sua transformação social, verá seus habitantes praticarem essa lei sublime, reflexo da própria Divindade.

Os efeitos da lei do amor são o aperfeiçoamento moral da raça humana e a felicidade durante a vida terrena. Os mais rebeldes e os mais viciosos deverão reformar-se, quando presenciarem os benefícios produzidos pela prática deste princípio: “Não façais aos outros os que não quereis que os outros vos façam, mas fazei, pelo contrário, todo o bem que puderdes”.

Não acrediteis na esterilidade e no endurecimento do coração humano, que cederá, mesmo de malgrado, ao verdadeiro amor. Este é um imã a que ele não poderá resistir, e o seu contato vivifica e fecunda os germes dessa virtude, que estão latentes em vossos corações. A Terra, morada de exílio e de provas, será então purificada por esse fogo sagrado, e nela se praticarão a caridade, a humildade, a paciência, a abnegação, a resignação, o sacrifício, todas essas virtudes filhas do amor. Não vos canseis, pois, de escutar as palavras de João Evangelista. Sabeis que, quando a doença e a velhice interrompem o curso de suas pregações, ele repetia apenas estas doces palavras: “Meus filhinhos, amai-vos uns aos outros!”. FÉNELON - Bordeaux, 1861

Justificativa 3: Fora da caridade não há salvação

“Não poderia o Espiritismo provar melhor a sua origem, do que apresentando-a como regra, por isso que é um reflexo do mais puro Cristianismo. Levando-a por guia, nunca o homem se transviará. Dedicai--vos, assim, meus amigos, a perscrutar lhe o sentido profundo e as consequências, a descobrir-lhe, por vós mesmos, todas as aplicações. Submetei todas as vossas ações ao governo da caridade e a consciência vos responderá. Não só ela evitará que pratiqueis o mal, como também fará que pratiqueis o bem, porquanto uma virtude negativa não basta: é necessária uma virtude ativa. Para fazer-se o bem, mister sempre se torna a ação da vontade; para se não praticar o mal, basta as mais das vezes a inércia e a despreocupação”. Paulo, o Apóstolo. (ESE, cap. XV, item 10)

Justificativa 4: O Jugo Leve

1. Vinde a mim, todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, que eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei comigo que sou brando e humilde de coração e achareis repouso para vossas almas, pois é suave o meu jugo e leve o meu fardo. (S. MATEUS, 11:28 a 30.)</>

2. Todos os sofrimentos: misérias, decepções, dores físicas, perda de seres amados, encontram consolação em a fé no futuro, em a confiança na justiça de Deus, que o Cristo veio ensinar aos homens. Sobre aquele que, ao contrário, nada espera após esta vida, ou que simplesmente duvida, as aflições caem com todo o seu peso e nenhuma esperança lhe mitiga o amargor. Foi isso que levou Jesus a dizer:

“Vinde a mim todos vós que estais fatigados, que eu vos aliviarei.”

Entretanto, faz depender de uma condição a sua assistência e a felicidade que promete aos aflitos. Essa condição está na lei por ele ensinada. Seu jugo é a observância dessa lei; mas, esse jugo é leve e a lei é suave, pois que apenas impõe, como dever, o amor e a caridade. (ESE – cap. VI – O Cristo Consolador, item 1 e 2)

 

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Módulo I – Eu, agente de mudanças.

Objetivo específico : Valorizar as potencialidades do indivíduo para que se veja como agente de mudanças no bem a começar por ele mesmo.

Justificativa 1: Disse eu que em seus começos o homem só instintos possuía. Mais próximo, portanto, ainda se acha do ponto de partida, do que da meta, aquele em quem predominam os instintos. A fim de avançar para a meta, tem a criatura que vencer os instintos, em proveito dos sentimentos, isto é, que aperfeiçoar estes últimos, sufocando os germes latentes da matéria. Os instintos são a germinação e os embriões do sentimento; trazem consigo o progresso, como a glande encerra em si o carvalho, e os seres menos adiantados são os que, emergindo pouco a pouco de suas crisálidas, se conservam escravizados aos instintos. O Espírito precisa ser cultivado, como um campo. Toda a riqueza futura depende do labor atual, que vos granjeará muito mais do que bens terrenos: a elevação gloriosa. E então que, compreendendo a lei de amor que liga todos os seres, buscareis nela os gozos suavíssimos da alma, prelúdios das alegrias celestes. - Lázaro. (Paris, 1862.)

Justificativa 2: LE Pergunta 642 .

Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal?

“Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem.”

 

Justificativa 3: LE Pergunta 643 .

Haverá quem, pela sua posição, não tenha possibilidade de fazer o bem?

“Não há quem não possa fazer o bem. Somente o egoísta nunca encontra ensejo de o praticar. Basta que se esteja em relações com outros homens para que se tenha ocasião de fazer o bem, e não há dia da existência que não ofereça, a quem não se ache cego pelo egoísmo, oportunidade de praticá-lo. Porque, fazer o bem não consiste, para o homem, apenas em ser caridoso, mas em ser útil, na medida do possível, todas as vezes que o seu concurso venha a ser necessário.”

Textos de apoio

 

Formas de Caridade

Sérgio Biagi Gregório

SUMÁRIO : 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Considerações Iniciais. 4. Aspectos Gerais da Caridade: 4.1. A Família Universal; 4.2. Origens da Caridade; 4.3. A Caridade Complementa a Justiça. 5. A Caridade Material: 5.1. Esmola; 5.2. Doação de Roupas e Alimentos; 5.3. Doação de Recursos Financeiros. 6. Caridade Moral e Espiritual: 6.1. Doar Tempo com o Esquecimento do "Eu"; 6.2. Sacrifício Total da Liberdade Humana; 6.3. Caridade Desconhecida, um Exemplo. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.

1. INTRODUÇÃO

A caridade é muito falada e discutida não só no meio espírita como também em todas as religiões. Procuramos anotar algumas formas materiais e espirituais de caridade. É possível, contudo, distinguir uma forma da outra? Onde está posta a verdadeira caridade?

2. CONCEITO

Formas . Aspectos de uma coisa abstrata; modos de apresentar um objeto.

Caridade . Amor a Deus e ao próximo é uma virtude que, com a justiça, regula o procedimento moral do homem para com os outros seres e, especialmente, para com os outros homens.

3. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A palavra caridade é muito ventilada no meio religioso. O Espiritismo, no seu tríplice aspecto de ciência, filosofia e religião, não foge à regra. Convém, contudo, prestarmos atenção ao seu uso, para que não caia no lugar-comum como sói acontecer com o termo Evangelho que, de tanto ser usado, acabou perdendo o seu sentido original de boa nova trazida por Jesus Cristo. O Espiritismo, como libertador de consciências, traz-nos sempre novas interpretações de temas antigos e atuais. Isto é feito pela comunicação dos Espíritos superiores, que não medem esforços para descortinar novos horizontes aos habitantes deste planeta de provas e expiações. O incentivo à prática das virtudes evangélicas é para que os seres humanos se libertem do mal. Sem esses avisos salutares, a humanidade levaria muito mais tempo para conquistar novos postos de evolução moral e espiritual.

4. ASPECTOS GERAIS DA CARIDADE

4.1. A FAMÍLIA UNIVERSAL

De acordo com o cristianismo, Deus é o pai, o Criador do universo. Em seguida, temos Jesus como o filho predileto e irmão maior. Posteriormente, estão alinhados todos os outros seres humanos. Como cada um de nós faz parte desta família universal, amar a Deus não pode ser feito sem que amemos o nosso próximo. Observe que a definição de caridade diz exatamente isso, ou seja, "amar a Deus e ao próximo". Por essa razão, percebemos que somente fazendo bem ao próximo é que podemos dizer que amamos a Deus. Expressar simplesmente as palavras "eu amo a Deus" não necessariamente retrata o amor verdadeiro a Deus. É preciso ratificá-lo em pensamentos, palavras e atos.

4.2. ORIGENS DA CARIDADE

As origens da caridade estão assentadas nos costumes e nos atos de Jesus Cristo. Antes de sua vinda, as mães vendiam os seus filhos, os velhos eram abandonados em praça pública, a mulher tratada como escrava. Com a sua presença, um novo clarão apareceu, pois os seus exemplos de obediência ao Pai mudaram a mentalidade da humanidade e fizeram com que cada pessoa pensasse em auxiliar o seu próximo, porque também poderia estar nesta situação num futuro próximo. "O Mestre não se limita a ensinar o bem. Desce ao convívio da multidão e materializa-o com o próprio esforço. Cura os doentes na via pública, sem cerimônia, e ajuda a milhares de ouvintes, amparando-os na solução dos mais complicados problemas de natureza moral, sem valer-se das etiquetas de culto externo". (Xavier, 1980, p. 72)

4.3. A CARIDADE COMPLEMENTA A JUSTIÇA

A caridade, embora possa ser estudada isoladamente, ela aparece ligada à justiça. E há necessidade de estarem juntas, porque a caridade complementa a justiça. Como se explica? A justiça é racional e fria; na caridade, há o exercício do sentimento do coração. Allan Kardec diz que "o amor e a caridade são o complemento da lei de justiça, porque amar ao próximo é fazer-lhe todo o bem possível, que desejaríamos que nos fosse feito. Tal é o sentido das palavras de Jesus: "Amai-vos uns aos outros, como irmãos"". (Kardec, 1995, pergunta 886)

5. A CARIDADE MATERIAL

5.1. ESMOLA

A esmola faz parte da tradição cristã. Vendo uma pessoa estendendo a sua mão, tiramos uma moeda do bolso e damos ao nosso próximo. Este dinheiro é útil porque pode aliviar a sua fome. Francisco de Vitória diz que "Quando alguém está morrendo de fome, a esmola física é superior à esmola espiritual". É preciso verificar, entretanto, se a doação do dinheiro não está queimando a mão de quem o recebe. Jacques Delille, por outro lado, lembra-nos de que "A caridade que se faz apenas por meio da esmola é um meio de conservar a miséria".

5.2. DOAÇÃO DE ROUPAS E ALIMENTOS

Os Centros Espíritas, de uma maneira geral, oferecem uma oportunidade de praticarmos a caridade material, pois têm um departamento, denominado de Assistência Social, que fornece roupas e alimentos aos mais necessitados. Para suprirmos o estoque, pegamos algumas peças de roupas que não usamos mais, compramos alguns quilos de alimentos e levamos ao Centro Espírita que freqüentamos. Neste quesito, cabe a lembrança de que "a mão esquerda não deve saber o que a direita fez".

5.3. DOAÇÃO DE RECURSOS FINANCEIROS

Muitos chefes de família bancam a faculdade de um parente, de um vizinho. Esta bolsa de estudo tira o seu próximo da ociosidade e o prepara para uma profissão. É uma ação meritória. Contudo, para evitar a intromissão do orgulho e da presunção, reflitamos com Thomas A. Kempis: "Muitas vezes parece caridade o que não passa de amor-próprio, porque a inclinação da natureza, a vontade própria, a esperança da recompensa, o gosto da comodidade, rara vez nos abandonam. Quem possui caridade verdadeira e perfeita, em nada busca a si próprio, pelo contrário, o que deseja apenas é que Deus seja glorificado em todas as coisas".

6. CARIDADE ESPIRITUAL

6.1. DOAR TEMPO COM O ESQUECIMENTO DO EU

Doar dinheiro, roupas e alimentos não é tarefa complicada; basta que tenhamos de sobra. Geralmente, não representa sacrifício algum. Doar tempo em beneficio do próximo, com o esquecimento do eu já exige abnegação. Quantas não são as vezes que nos requisitam para uma atividade caritativa e alegamos que temos outra coisa para fazer? Quantas não são as vezes que nos escondemos com medo que descubram o nosso eu? "Amemo-nos uns aos outros e façamos a outrem o que quereríamos que nos fosse feito", eis o fundamento de toda a religião, de toda a moral.

6.2. SACRIFÍCIO TOTAL DA LIBERDADE HUMANA

A verdadeira caridade implica o sacrifício total da liberdade humana. Tal qual Jesus se sacrificou na cruz, o mesmo deveríamos fazer em nossos dias. É o sacrifício de uma indolência, de uma má recepção, de uma reprimenda. Há um grande mérito em saber calar para deixar falar um mais tolo; saber ser surdo quando uma palavra de zombaria escapa da boca escarnecedora; saber obedecer aos imperativos da vontade de Deus, quando nos obrigam a fazer algo despropositado.

6.3. CARIDADE DESCONHECIDA, UM EXEMPLO

O Espírito Néio Lúcio, no capitulo 20, de Jesus no Lar, dá-nos um exemplo vivo de como se pode fazer caridade sem ter dinheiro. Conta a história de um indivíduo, pai de família, que tencionava praticar caridade, mas não tinha dinheiro. Dava, contudo de si mesmo, quanto possível em boas palavras, gestos pessoais e estímulo a quantos se achavam em sofrimento e dificuldade. Extinguia pensamentos inferiores, refreava a cólera, fazia silêncio diante de uma ofensa; chegava, inclusive, a retirar detritos e pedras das ruas que porventura oferecem perigo para os transeuntes. Temia o julgamento das autoridades celestes, mas quando desencarna é aureolado por brilhante diadema, que representava a guerra contra o mal em que se fizera valoroso empreiteiro.

7. CONCLUSÃO

Recordando os avisos espirituais, podemos dizer que a caridade se faz de diversas maneiras, ou seja, por pensamentos, palavras e atos. Saibamos, assim, pensar bem para que as nossas palavras sejam sãs, a fim de que possam ser transformadas em atos puros de bondade na sociedade.

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed. São Paulo: IDE, 1984.

KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. 8. ed. São Paulo: Feesp, 1995.

XAVIER, F. C. Jesus no Lar, pelo Espírito Néio Lúcio. 5. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1966.

XAVIER, F. C. Roteiro, pelo Espírito Emmanuel. 5. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1980.

São Paulo, setembro de 2009

O ponto de vista

5. A ideia clara e precisa que se faça da vida futura proporciona inabalável fé no porvir, fé que acarreta enormes consequências sobre a moralização dos homens, porque muda completamente o ponto de vista sob o qual encaram eles a vida terrena. Para quem se coloca, pelo pensamento, na vida espiritual, que é indefinida, a vida corpórea se torna simples passagem, breve estada num país ingrato. As vicissitudes e tribulações dessa vida não passam de incidentes que ele suporta com paciência, por sabê-las de curta duração, devendo seguir-se lhes um estado mais ditoso. À morte nada mais restará de aterrador; deixa de ser a porta que se abre para o nada e torna-se a que dá para a libertação, pela qual entra o exilado numa mansão de bem-aventurança e de paz. Sabendo temporária e não definitiva a sua estada no lugar onde se encontra, menos atenção presta às preocupações da vida, resultando-lhe daí uma calma de espírito que tira àquela muito do seu amargor.

Pelo simples fato de duvidar da vida futura, o homem dirige todos os seus pensamentos para a vida terrestre. Sem nenhuma certeza quanto ao porvir, dá tudo ao presente. Nenhum bem divisando mais precioso do que os da Terra, torna-se qual a criança que nada mais vê além de seus brinquedos. E não há o que não faça para conseguir os únicos bens que se lhe afiguram reais. A perda do menor deles lhe ocasiona causticante pesar; um engano, uma decepção, uma ambição insatisfeita, uma injustiça de que seja vítima, o orgulho ou a vaidade feridos são outros tantos tormentos, que lhe transformam a existência numa perene angústia, infligindo-se ele, desse modo, a si próprio, verdadeira tortura de todos os instantes. Colocando o ponto de vista, de onde considera a vida corpórea, no lugar mesmo em que ele aí se encontra, vastas proporções assume tudo o que o rodeia. O mal que o atinja, como o bem que toque aos outros, grande importância adquire aos seus olhos. Àquele que se acha no interior de uma cidade, tudo lhe parece grande: assim os homens que ocupem as altas posições, como os monumentos. Suba ele, porém, a uma montanha, e logo bem pequenos lhe parecerão homens e coisas.

É o que sucede ao que encara a vida terrestre do ponto de vista da vida futura; a Humanidade, tanto quanto as estrelas do firmamento, perde-se na imensidade. Percebe então que grandes e pequenos estão confundidos, como formigas sobre um montículo de terra; que proletários e potentados são da mesma estatura, e lamenta que essas criaturas efêmeras a tantas canseiras se entreguem para conquistar um lugar que tão pouco as elevará e que por tão pouco tempo conservarão. Daí se segue que a importância dada aos bens terrenos está sempre em razão inversa da fé na vida futura.

Candeia sob o alqueire. Por que fala Jesus por parábolas

1. Ninguém acende uma candeia para pô-la debaixo do alqueire; põe-na, ao contrário, sobre o candeeiro, a fim de que ilumine a todos os que estão na casa. (S. MATEUS, 5:15.)

2. Ninguém há que, depois de ter acendido uma candeia, a cubra com um vaso, ou a ponha debaixo da cama; põe-na sobre o candeeiro, a fim de que os que entrem vejam a luz; – pois nada há secreto que não haja de ser descoberto, nem nada oculto que não haja de ser conhecido e de aparecer publicamente. (S. LUCAS, 8:16 e 17.)

3. Aproximando-se, disseram-lhe os discípulos: Por que lhes falas por parábolas? – Respondendo-lhes, disse ele: É porque, a vós outros, foi dado conhecer os mistérios do reino dos céus; mas, a eles, isso não lhes foi dado1. Porque, àquele que já tem, mais se lhe dará e ele ficará na abundância; àquele, entretanto, que não tem, mesmo o que tem se lhe tirará. – Falo-lhes por parábolas, porque, vendo, não vêem e, ouvindo, não escutam e não compreendem. – E neles se cumprirá a profecia de Isaías, que diz: Ouvireis com os vossos ouvidos e não escutareis; olhareis com os vossos olhos e não vereis. Porque, o coração deste povo se tornou pesado, e seus ouvidos se tornaram surdos e fecharam os olhos para que seus olhos não vejam e seus ouvidos não ouçam, para que seu coração não compreenda e para que, tendo-se convertido, eu não os cure. (S. MATEUS, 13:10 a 15.)

4. É de causar admiração diga Jesus que a luz não deve ser colocada debaixo do alqueire, quando ele próprio constantemente oculta o sentido de suas palavras sob o véu da alegoria, que nem todos podem compreender. Ele se explica, dizendo a seus apóstolos: “Falo-lhes por parábolas, porque não estão em condições de compreender certas coisas. Eles vêem, olham, ouvem, mas não entendem. Fora, pois, inútil tudo dizer-lhes, por enquanto. Digo-o, porém, a vós, porque dado vos foi compreender estes mistérios.” Procedia, portanto, com o povo, como se faz com crianças cujas idéias ainda se não desenvolveram. Desse modo, indica o verdadeiro sentido da sentença: “Não se deve pôr a candeia debaixo do alqueire, mas sobre o candeeiro, a fim de que todos os que entrem a possam ver.” Tal sentença não significa que se deva revelar inconsideradamente todas as coisas. Todo ensinamento deve ser proporcionado à inteligência daquele a quem se queira instruir, porquanto há pessoas a quem uma luz por demais viva deslumbraria, sem as esclarecer.

Dá-se com os homens, em geral, o que se dá em particular com os indivíduos. As gerações têm sua infância, sua juventude e sua maturidade. Cada coisa tem de vir na época própria; a semente lançada à terra, fora da estação, não germina. Mas, o que a prudência manda calar, momentaneamente, cedo ou tarde será descoberto, porque, chegados a certo grau de desenvolvimento, os homens procuram por si mesmos a luz viva; pesa-lhes a obscuridade. Tendo-lhes Deus outorgado a inteligência para compreenderem e se guiarem por entre as coisas da Terra e do céu, eles tratam de raciocinar sobre sua fé. É então que não se deve pôr a candeia debaixo do alqueire, visto que, sem a luz da razão, desfalece a fé. (ESE - Cap. XIX, nº 7.)

Missão do homem inteligente na terra

13. Não vos ensoberbais do que sabeis, porquanto esse saber tem limites muito estreitos no mundo em que habitais. Suponhamos sejais sumidades em inteligência neste planeta: nenhum direito tendes de envaidecer-vos. Se Deus, em seus desígnios, vos fez nascer num meio onde pudestes desenvolver a vossa inteligência, é que quer a utilizeis para o bem de todos; é uma missão que vos dá, pondo-vos nas mãos o instrumento com que podeis desenvolver, por vossa vez, as inteligências retardatárias e conduzi-las a ele. A

natureza do instrumento não está a indicar a que utilização deve prestar-se? A enxada que o jardineiro entrega a seu ajudante não mostra a este último que lhe cumpre cavar a terra? Que diríeis, se esse ajudante, em vez de trabalhar, erguesse a enxada para ferir o seu patrão? Diríeis que é horrível e que ele merece expulso. Pois bem: não se dá o mesmo com aquele que se serve da sua inteligência para destruir a idéia de Deus e da Providência entre seus irmãos? Não levanta ele contra o seu senhor a enxada que lhe foi confiada para arrotear o terreno? Tem ele direito ao salário prometido? Não merece, ao contrário, ser expulso do jardim? Sê-lo-á, não duvideis, e atravessará existências miseráveis e cheias de humilhações, até que se curve diante dAquele a quem tudo deve.

A inteligência é rica de méritos para o futuro, mas, sob a condição de ser bem empregada. Se todos os homens que a possuem dela se servissem de conformidade com a vontade de Deus, fácil seria, para os Espíritos, a tarefa de fazer que a Humanidade avance. Infelizmente, muitos a tornam instrumento de orgulho e de perdição contra si mesmos. O homem abusa da inteligência como de todas as suas outras faculdades e, no entanto, não lhe faltam ensinamentos que o advirtam de que uma poderosa mão pode retirar o que lhe concedeu. – Ferdinando, Espírito protetor. (Bordéus, 1862.) (ESE – Cap.XII - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito)

Esclarece Emmanuel Reparamos, assim, a necessidade imprescritível da educação para todos os seres. Lembremo-nos de que o Eterno Benfeitor, em sua lição verbal, fixou na forma imperativa a advertência a que nos referimos: “Brilhe vossa luz.” Isso quer dizer que o potencial de luz do nosso espírito deve fulgir em sua grandeza plena. E semelhante feito somente poderá ser atingido pela educação que nos propicie o justo burilamento. Mas a educação, com o cultivo da inteligência e com o aperfeiçoamento do campo íntimo, em exaltação de conhecimento e bondade, saber e virtude, não será conseguida tão só à força de instrução, que se imponha de fora para dentro, mas sim com a consciente adesão da vontade que, em se consagrando ao bem por si própria, sem constrangimento de qualquer natureza, pode libertar e polir o coração, nele plasmando a face cristalina da alma, capaz de refletir a Vida Gloriosa e transformar, consequentemente, o cérebro em preciosa usina de energia superior, projetando reflexos de beleza e sublimação.

XAVIER, F.C. Pensamento e vida. Pelo espírito Emmanuel.

Mudança

O que implicam as mudanças? Quando elas são necessárias? Por que resistimos a elas? Estamos voltados ao cultivo da mudança interior ou buscamos mais a exterior?

Criaturas existem que não gastam um só minuto de seu dia para se questionarem. Não se perguntam: o que tenho a meu dispor é realmente bom para mim? É autêntico ou estou preferindo me enganar? O que quero da vida? O que estou buscando? Desejo mesmo viver o que vivo, fazer o que faço? Pretendo continuar assim como estou?

Pode parecer que as pessoas pensam sobre essas coisas. Porém, na prática, são poucas as que conseguem, realmente, compreender a essência de seus pensamentos, sentimentos e comportamentos.

Vivemos em uma época em que prevalece o mais rápido, fácil e divertido, ou seja, a superficialidade, as aparências. Assim, e por falta deste tipo de reflexão, muitos agem impensadamente, não medindo o alcance de suas atitudes e nem se dando conta das coisas ao seu redor.

Mas, se não sabemos o que é bom e verdadeiro ou o que queremos realmente, o que estamos fazendo de nossa existência? Para aonde estamos nos conduzindo?

Necessitamos, portanto, adotar uma constante observação interna e externa para captarmos o real sentido das coisas. Nada existe sem uma razão de ser. Tudo o que nos envolve carrega um significado de extrema importância; no entanto, nós temos o hábito de acreditar que somos acima da média. E, por isso, não refletimos sobre os problemas e dificuldades, de modo a enfrentá-los verdadeiramente.

É muito difícil alterar o padrão de pensamento, sentimento e comportamento de uma vida inteira, se não sabemos exatamente quem somos e quais as nossas reais necessidades. E uma das razões para não efetuarmos as mudanças necessárias é que nos conhecemos apenas parcialmente, não compreendendo o suficiente para perceber quando tais mudanças efetivamente precisam acontecer.

Mohandas Gandhi, mais conhecido como Mahatma Ghandi (1869-1948), indiano defensor do princípio da não-violência como um meio de protesto, certa feita disse: “Nós temos que ser a mudança.” [1]

E o que significa a palavra mudar? Nada mais do que, simplesmente, “dar outra direção, arrumar de outro modo, deixar uma coisa por outra, transformar.” [2]

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Jesus, diante de um homem paralítico há 38 anos, pergunta-lhe: “Queres ser curado?” (João 5:6). [3] E o homem disse que sim, que queria ser curado daquele mal.

O Cristo sabia que a busca por alternativas e um consciente desejo de melhoria são fatores fundamentais para uma efetiva reabilitação. Tanto que, em diversas outras situações, quando alguém se recuperava, ele dizia: “Tua fé te curou”.

Sendo assim, sua pergunta teve por objetivo levar o paralítico a refletir sobre a importância da própria força de vontade e confiança.

O Evangelho segundo o Espiritismo, ao se referir sobre a diferença entre os espíritas imperfeitos e os verdadeiros, traz:

Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar as suas más inclinações; enquanto que um se compraz em seu horizonte limitado, o outro, que compreende alguma coisa de melhor, se esforça para dele de libertar e sempre o consegue quando tem vontade firme. [4]

Entregar-se à doença, aos problemas e conflitos, às dificuldades é a mais perfeita contribuição para que todos eles continuem com seu ciclo de sofrimento, de paralisação e até de destruição, dependendo do caso. Por outro lado, buscar tenazmente o equilíbrio e bem-estar significa, principalmente, não atribuir à outra pessoa a responsabilidade pelo nosso processo de reabilitação, de cura.

O meu salvador sou eu mesmo. Tanto que Jesus mostrou que o remédio estava no próprio paralítico e não fora dele. Assim, o necessário medicamento era mais interno que externo. Ele poderia simplesmente ter-lhe dito: “levanta-te e anda”. Mas preferiu falar: “Levanta-te, toma o teu leito e anda.” (João 5:8) Isto é, toma a tua estrada, tua própria pessoa e segue a tua vida.

Com esta passagem, podemos afirmar que o Cristo fez com que o doente superasse as próprias resistências internas, estimulando-lhe a força de vontade e confiança.

E quanto ainda nos custa perceber que o que impede ou protela a solução dos problemas, sejam eles físicos ou psicológicos, é a nossa resistência às mudanças!

Somos ainda fortemente apegados à própria maneira de pensar e agir e, com grande frequência, recusamos tudo o que nos questione ou que aponte nossas falhas. Ainda acreditamos ser humilhante ter de admitir nossos equívocos e alterar posturas e decisões.

É a mudança interior que deve ser buscada, muito mais que a exterior. Porém, existem indivíduos que, diante de uma situação aflitiva, resolvem viajar ou mudar de lugar, de trabalho, de casa, como se a crise dependesse única e exclusivamente do mundo externo e do local onde estão. Outros procuram mudar as pessoas com as quais convivem, arrumar a vida delas, por crerem ser seu dever rearranjar o mundo, e não a si mesmos. Há, ainda, aqueles que se escondem nos vícios, desenvolvendo manias e doenças. No entanto, agindo assim, essas pessoas jamais encontrarão o que, de fato, as preencherá íntima e plenamente.

Para ilustrar as consequências de nossa resistência, o Espírito Hammed faz uma analogia entre a água corrente e a estagnada: a água renovada é corrente, oriunda das chuvas, do orvalho, das nascentes, enquanto que a água estagnada é aquela que, em breve, por inércia, se deteriorará, tornando-se um foco de larvas e de putrefação. [5]

Quando não permitimos a mudança em nosso mundo interior, exigimos a mudança na realidade exterior. E, com isso, facilmente a culpamos por não corresponder às nossas expectativas. É óbvio, também, que a necessidade de diferentes arrumações (mudanças) em nossa existência afetará nosso comodismo e conforto, solicitando de nós uma reciclagem de conceitos, crenças e valores, um repensar de posturas, modificações nos costumes e hábitos e um diferente direcionamento aos pensamentos e sentimentos, o que, admitamos, não é fácil tarefa, mas dependerá apenas de nós realizá-la.

Ainda do Espírito Hammed:

Na realidade, quem se permite mudar pode ficar, inicialmente, numa situação desconfortável, visto que poderá ficar exposto a algo que não contava ou que não havia percebido. O que acontece é que, quando alteramos o nosso "status quo" – (...) modificamos nossa antiga maneira de interpretar, entender, expressar e dar sentido e importância às coisas. A partir disso, nossas zonas de estabilidade ficam temporariamente ameaçadas; nosso jeito anterior de ser e ver não funciona mais. Tudo isso acarreta uma batalha interna que gera desconfiança, medo e insegurança, até que nos reestruturemos novamente. [6]

Em virtude desse desconforto, que é apenas inicial, no entanto, muitos permanecem paralisados em seus ‘leitos’. Não conseguem se levantar, tomar posse de sua vida e avançar.

Jesus também disse: “Se alguém quer vier após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Marcos 8:34)

As mudanças necessárias não deixam de representar um processo trabalhoso, uma “cruz” que precisamos abraçar todos os dias. Todavia, Jesus deu a entender que, se o adotássemos por modelo, certamente não fracassaríamos em nossa empreitada. E segui-lo não significa que necessariamente tenhamos de mudar o caminho, mas, na grande maioria das vezes, apenas o jeito de caminhar!

O Espírito Joanna de Ângelis assim nos estimula:

Quando alguém aspira por mudanças para melhor, irradia energias saudáveis, do campo mental, que contribuem para a realização da meta. Através de contínuos esforços, direcionados para o objetivo, cria novos condicionamentos que levam ao êxito, como decorrência normal do querer. Nenhum milagre ou inusitado ocorre, nessa atitude que resulta do empenho individual. [7]

No caso do paralítico, não foi Jesus quem o curou, mas o doente que se reabilitou em contato com o Cristo. Como afirma de Ângelis, nenhum milagre acontece, porque a cura é a consequência das próprias buscas. Nas palavras dos Espíritos Superiores, ela é, simplesmente, o resultado de uma firme vontade.

Silvia Helena Visnadi Pessenda - Palestrante na cidade de Rio Claro (SP)

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REFERÊNCIA

[1] CARLSON, Richard; SHIELD, Benjamin (Org.). Os caminhos do coração: ensaios originais sobre o amor. Rio de Janeiro: Sextante, 2000:173 (Literatura não espírita)

[2] Michaelis: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998.

[3] BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo Almeida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

[4] KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 195. ed. Araras, SP: IDE, 1996. cap. XVII, item 4.

[5] HAMMED (espírito); SANTO NETO, Francisco do Espírito (psicografado por). Um modo de entender: uma nova forma de viver. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 2004. cap. 8.

[6] HAMMED (espírito); SANTO NETO, Francisco do Espírito (psicografado por). A imensidão dos sentidos. 3. ed. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 2000: 92.

[7] ÂNGELIS, Joanna de (espírito); FRANCO, Divaldo Pereira (psicografado por). O ser consciente. Salvador, BA: Livr. Espírita Alvorada. cap. 8.

NOVAES, Adenáuer Marcos Ferraz de. Psicologia do Evangelho. 2. ed. Salvador, BA: Fundação Lar Harmonia, 2001.

JOSÉ ANTONIO (espírito); VARGAS, Ana Cristina (psicografado por). O quarto crescente. Catanduva, SP: Boa Nova Editora. 2007.

VITOR, Francisco de Paula (espírito); TEIXEIRA, José Raul (psicografado por). Quem é o Cristo? Niterói: Fráter, 1998.

Literatura não espírita

HUNTER, James C. O monge e o executivo. 13. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2004.

BAKER, Mark W. Jesus, o maior Psicólogo que já existiu. 3. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2005.

Aquisição da Consciência

No momento da conscientização, isto é, no instante a partir do qual consegues discernir com acerto, usando como parâmetro o equilíbrio, alcanças o ponto elevado na condição de ser humano. Efeito natural do processo evolutivo, essa conquista te permitirá avaliar fatores profundos como bem e o mal, o certo e o errado, o dever e a irresponsabilidade, a honra e o desar, o nobre e o vulgar, o lícito e o irregular, a liberdade e a libertinagem. Trabalhando dados não palpáveis, saberás selecionar os fenômenos existenciais e as ocorrências, tornando tuas diretrizes de segurança aquelas que proporcionam bem-estar, harmonia, progresso moral, tranquilidade. Essa consciência não é de natureza intelectual, atividade dos mecanismos cerebrais. É a força que os propele, porque nascidas nas experiências evolutivas, a exteriorizar-se em forma de ações. Encontramo-la em pessoas incultas intelectualmente, e ausente em outras, portadoras de conhecimentos acadêmicos. Se analisarmos a conduta de um especialista em problemas respiratórios, que conhece intelectualmente os danos provocados pelo tabagismo, pelo alcoolismo e por outras drogas adictivas, e que, apesar disso, usa, ele próprio, qualquer um desses flagelos, eis que ainda não logrou a conquista da consciência. Os seus dados culturais são frágeis de tal forma, que não dispõem de valor para fomentar uma conduta saudável. Por extensão, a pessoa que se permite o crime do aborto, sob falsos argumentos legais ou de direitos que se faculta, assim como todos aqueles que o estimulam ou o executam, incidem na mesma ausência de consciência, comportando-se sob a ação do instinto e, às vezes, da astúcia, da acomodação, mascaradas de inteligência. Outros indivíduos, não obstante sem conhecimento intelectual, possuem lucidez para agir diante dos desafios da existência, elegendo o comportamento não agressivo e digno, mesmo que a contributo de sacrifício. A consciência pode ser treinada mediante o exercício dos valores morais elevados, que objetivam o bem do próximo, por consequência, o próprio bem. O esforço para adquirir hábitos saudáveis conduz à conscientização dos deveres e às responsabilidades pertinentes à vida. Herdeiro de si mesmo, das experiências transatas, o ser evolui por etapas, adquirindo novos recursos, corrigindo erros anteriores, somando conquistas. Jamais retrocede nesse processo, mesmo quando, aparentemente, reencarna dentro das paredes de enfermidades limitadoras, que bloqueiam o corpo, a mente ou a emoção, gerando tormentos. Os logros evolutivos permanecem adormecidos para futuros cometimentos, quando assomarão, lúcidos. A aquisição da consciência é desafio da vida, que merece exame, consideração e trabalho. A tua existência terrena pode ser considerada uma empresa que deves dirigir de forma segura, a mais cuidadosa possível. Terás que trabalhar dados concretos e outros mais abstratos, na área da programação das atividades, a fim de conseguires êxito. Todo empenho e devotamento se transformarão em mecanismos de lucro, a que sempre poderás recorrer durante as situações difíceis. Algumas breves regras ajudar-te-ão no desempenho do empreendimento, tais: - administra os teus conflitos. O conflito psicológico é inerente à natureza humana e todos o sofrem; - evita eleger homens-modelos para seguires. Eles também são vulneráveis às injunções que experimentas e, às vezes, comprometem-se, o que, de maneira alguma deve constituir desestímulo; - concede-te maior dose de confiança nos teus valores, honrando-te com o esforço para melhorar sempre e sem desânimo. Se erras, repete a ação, e se acertas, segue adiante; - não te evadas ao enfrentamento de problemas usando expedientes falsos, comprometedores, que te surpreenderão mais tarde com dependências infelizes; - reage à depressão, trabalhando sem autopiedade nem acomodação preguiçosa; - tem em mente que os teus não são os piores problemas, eles pesam o volume que lhes emprestas; - libera-te da queixa pessimista e medita mais nas fórmulas para perseverar e produzir; - nunca cedas espaço à hora vazia, que se preenche de tédio, mal-estar ou perturbação; - o que faças, faze-o bem, com dedicação; lembra-te que és humano e o processo de conscientização é lento, que adquirirás segurança e lucidez através da ação contínua. Interessado em decifrar os enigmas do comportamento humano, Allan Kardec indagou aos benfeitores e guias da Humanidade, conforme se lê em “O Livro dos Espíritos”, na questão número 621: – Onde está escrita a lei de Deus ? – Na consciência. - Responderam com sabedoria. A consciência é o estágio elevado que deves adquirir, a fim de seguires no rumo da angelitude.

Divaldo P. Franco - Momentos de Consciência - Pelo Espírito Joanna de Ângelis.

Transformado, mas nem sempre convertido.

Durante a existência, todos nós passamos por várias transformações.

Além das transformações que a idade nos traz, há aquelas causadas por doenças, e mais aquelas intelectuais e morais.

No geral, as transformações podem ser rápidas e passageiras, ou podem vir para ficar, dependendo do que as gerou.

Um acidente, por exemplo, pode causar transformações passageiras ou duradouras, dependendo das circunstâncias e das consequências que acarrete.

Se do acidente resultou uma limitação física, uma paralisia qualquer, nosso comportamento pode mudar radicalmente, tanto em nível físico quanto psicológico.

Um fato ou uma circunstância também pode ser agente de transformação em nosso comportamento.

Quando vemos, nos tempos de inverno, uma pessoa tremendo de frio, o fato nos leva ao sentimento de compaixão e há uma transformação moral, uma vez que sentimos vontade de atender ao próximo.

No entanto, essa transformação necessariamente não será duradoura. Nem sempre fica em nosso comportamento.

As transformações intelectuais se dão no campo das ideias. Lemos um livro e nos deixamos influenciar pelas ideias do autor.

Assistimos um filme e transformamos nossa maneira de pensar e agir. Folheamos uma revista de moda e nos deixamos levar pela proposta dos modistas.

Ou ainda, assistimos a determinados programas ou novelas e transformamos nossa maneira de vestir e falar, segundo os personagens.

Essas transformações surgem do exterior e são temporais, passageiras, acabam juntamente com as causas que as provocaram. Logo vem outra ideia, outra moda.

Contudo, distinta das transformações ditas psicológicas, há a chamada conversão cristã, que é efetiva e duradoura.

Essa conversão pode acontecer aos poucos ou de uma única vez, instantaneamente.

Um exemplo de conversão instantânea é a que se passou com Saulo de Tarso. Ele não hesitou ante a visão que teve do Cristo, às portas de Damasco.

Jamais voltou atrás, sua conversão foi efetiva. Mudou até mesmo seu nome para Paulo de Tarso, por ter esse um significado condizente com sua nova postura, pois que Paulo significa o pequeno.

O mesmo não se deu com Pedro, o Apóstolo. Sua conversão se deu paulatinamente. Seu temperamento era distinto do de Paulo.

Ele não aceitava as ideias novas sem antes questioná-las até entendê-las.

Eram Espíritos em estágios evolutivos diferentes. Paulo, antes de conhecer o Mestre de Nazaré, já era um homem austero e fiel à sua crença.

Lutava com decisão e coragem por suas ideias.

Quando encontrou Jesus, só mudou a direção dos ideais, desde que a firmeza fazia parte da sua vida.

Tomé foi outro exemplo de conversão paulatina. Questionou várias vezes, observou outras tantas, convenceu-se enfim. Mas levou mais tempo.

Nesse pequeno paralelo, traçado entre as transformações e a efetiva conversão cristã, poderemos perceber em qual nos situamos.

É importante que nos deixemos influenciar pelas ideias saudáveis de autores nobres.

Também é importante que nos deixemos envolver pelo sentimento de compaixão, ainda que fugidio.

Mas é imprescindível que pensemos nos exemplos de conversão cristã, e empreendamos esforços por conseguir nossa própria conversão, que certamente está se dando paulatinamente. Mas que seja contínua e persistente.

* * *

Maria de Magdala é um dos maiores exemplos de conversão cristã, contido no Evangelho.

É também um dos exemplos mais nobres, uma vez que a mudança foi radical, passando de uma vida dissoluta à renúncia total.

Ela doou tudo o que tinha e abraçou a causa cristã com vontade e disposição. Não foi outro o motivo pelo qual Jesus se mostrou a ela após a ressurreição.

Redação do Momento Espírita.

Eu preciso ser a mudança que desejo ver em minha vida.

Tudo começa em mim. Eu preciso ser a mudança que desejo ver em minha vida. Pois toda ação transformadora principia pela transformação de nós mesmos.
Muitos querem uma vida melhor, mas não se tornam pessoas melhores. Não adianta esperar pela mudança de fora sem a mudança de dentro. Nada muda se você não muda.
Nós temos a liberdade de escolher no que desejamos transformar nossa vida. Você pode escolher, apagar seu brilho, ou pode fazer brilhar sua luz."

Livro: Cura e Libertação – José Carlos De Lucca

Quem são os regenerados

 

“Os mundos regeneradores servem de transição entre os mundos de expiação e os mundos felizes, a alma que se arrepende neles encontra a calma e o repouso, acabando de se depurar. Sem dúvida, nesses mundos, o homem está ainda sujeito às leis que regem a matéria...” (Capítulo 3, item 17.)

Regenerados são todos aqueles que aprenderam a compartilhar deste mundo, contribuindo sempre para a sua manutenção e continuação, e que ao mesmo tempo, por perceberem que recebem à medida que doam, sustentam com êxito esse fenômeno de “trocas incessantes”. São os homens que descobriram que todos estamos ligados por inúmeras formas de vida, desde o micro ao macrocosmo, e que os ciclos da natureza é que vitalizam igualmente plantas, animais e eles próprios. Portanto, respeitam, cooperam e produzem, não pensando somente em si mesmos, mas na coletividade. Sabem que ao mesmo tempo, sozinhos ou juntos, somos todos viajantes nas estradas da vida universal, em busca de crescimento e perfeição. Voltaram-se para si mesmos e descortinaram a presença divina em sua intimidade e, em vista disso, agora não buscam somente a exterioridade da vida, mas a abundância da vida íntima, fazendo quase sempre uma jornada cósmica para dentro do seu universo interior, na intimidade da própria alma. Regenerados são os seres humanos que notaram que não podem modificar o mundo dos outros, mas apenas o seu próprio mundo. Que os indivíduos, lugares e ambientes não podem ser mudados, e que as únicas coisas que podem e devem ser alteradas são suas atitudes pessoais, reações e atos relacionados a esses mesmos indivíduos, lugares e ambientes de sua vida. Conseguiram angariar sabedoria em decorrência das vivências anteriores. Diferenciam o que lhes cabe fazer e, por conseguinte, o que são deveres dos outros. Só fazem, portanto, autojulgamento, deixando a cada um realizar sua própria avaliação. Na realidade, trazem certas competências e destrezas alicerçadas no poder de observação, por já possuírem uma considerável “coleta de dados”. São consideradas criaturas sábias, por seus constantes “insights”, isto é, compreensões súbitas diante de decisões e resoluções da vida. São homens que adquiriram a habilidade de resolver suas dificuldades com recursos novos e criativos, usando maneiras inovadoras de solucionar os acontecimentos do cotidiano. Reconhecem que a vida é uma sucessão de ocorrências interdependentes, por possuírem a capacidade de observar as relações existenciais. Sempre lançam mão dos fatos passados e os entrelaçam aos atuais, chegando à profunda compreensão das situações e de seus problemas. Descortinaram horizontes novos, porque reservaram no dia-a-dia algum tempo para se conhecer melhor, anotando ideias e sensações a fim de esclarecer para si próprios o porquê de sentimentos desconexos, emoções variáveis e ações contraditórias, visto que tal conhecimento os ajudará a viver de forma mais serena e previsível.

Obtiveram transformações íntimas, surpreendentes, pois conseguiram se ver como realmente são. Retiram máscaras, que inicialmente lhes davam um certo conforto e segurança, já que depois, eles mesmos reconheceram que elas os aprisionavam por entre grilhões e opressões. Aprenderam que não vale a pena representar inúmeros papéis, como se a vida fosse um grande teatro, mas, sobretudo assumir sua própria missão na Terra, porque constataram que cada um tem uma quota própria de contribuição perante a Criação, e que não nasce no Planeta nenhuma criatura cuja tarefa não tenha sido predeterminada. Regenerados são os reabilitados à luz das verdades eternas. Adotaram Jesus como o “Sábio dos Sábios” e, por seguirem Seus passos, fazem sempre o seu melhor. Reconheceram que o erro nunca será motivo de abatimento e paralisação e sim de estímulo ao aprendizado. Por isso, seguem adiante, pacientes consigo mesmos e com os outros, ganhando cada vez mais autonomia e discernimento ante as leis de amor que regem o Universo.

(Livro Renovando Atitudes - Francisco do Espírito Santo Neto ditado pelo Espírito Hammed cap. 3, item 17)

Caridade e Dever

Troquemos, de quando em quando, os grandes conceitos da caridade pelos atos miúdos que lhe confirmem a existência.
Não apenas os feitos de elevado alcance e os gestos heroicos dignos da imprensa. Beneficência no cotidiano, Obra assistencial de cada um.
Calar o momento indiscreto.
Não empurrar os outros na condução coletiva.
Evitar os serviços de última hora, nas instituições de qualquer espécie, aliviando companheiros que precisam do ônibus em horário certo para o retorno à família.
Reprimir o impulso de irritação e falar normalmente com as pessoas que nada têm a ver com os nossos problemas.
Aturar sem tiques de impaciência a conversação do amigo que ainda não aprendeu a sintetizar.
Ouvir, qual se fosse pela primeira vez, um caso recontado pelo vizinho em lapso de memória.
Poupar o trabalho de auxiliares e cooperadores, organizando anotações prévias de encomendas e tarefas por fazer, para que não se convertam em andarilhos por nossa conta.
Desistir de reclamações descabidas diante de colaboradores que não têm culpa das questões que nos induzem à pressa, nas organizações de cujo apoio necessitamos.
Pagar sem delonga o motorista ou a lavadeira, o armazém ou a farmácia que nos resolvem as necessidades, sem a menor obrigação de nos prestarem auxílio.
Respeitar o direito do próximo sem exigir de ninguém virtudes que não possuímos ou benefícios que não fazemos.
Todos pregamos reformas salvadoras.
Guardemos bastante prudência para não nos fixarmos inutilmente nos dísticos de fachada.
Edificação social, no fundo, é caridade e caridade vem de dentro. Façamos uns aos outros a caridade de cumprir o próprio dever.

Do livro: Sol nas Almas, Médium: Waldo Vieira- André Luiz

Indiferentes

A indiferença, em qualquer situação em que se expresse, é morte da ação que induz a criatura ao progresso.

O indiferente padece de um estado mórbido, que domina a pouco e pouco, ameaçando-lhe o equilíbrio, anulando as motivações que o capacitam para a luta.

Seja como for que se apresente, a indiferença denota ausência de vida, de ideal vitalizador.

Quem sofre de tal contingência, deambula em estado de transe, sem estímulos para liberar-se.

Guardadas as proporções, o aguerrido adversário de uma causa ou pessoa, é alguém que crê nos móveis da sua definição.

Comporta-se de tal forma porque se apóia em valores que lhe parecem legítimos, e muda de atuação quando, necessariamente esclarecido, se convence do erro em que campeia.

A pessoa indiferente, no entanto, não ouve nem quer ver, de alguma forma acomodando-se à situação mental e física em que mergulha.

Os que assim procedem estão enfermos da alma.

Anelaram por metas que não alcançaram; confiaram em excesso e sentiram-se defraudados; aguardavam da vida mais do que lograram; autovalorizaram-se em demasia e não aceitam o conceito em que são tidos.

Procuram refugiar-se na indiferença, antes de tentar mais uma vez, mesmo que do esforço resulte o despertamento para uma nova escala de valores humanos, em que voltarão a participar dos ideais que enobrecem e dignificam a vida.

Os indiferentes são arredios.

Porque perderam a fé, negam-se a confiar em alguém.

Assumem atitudes cínicas como mecanismos de defesa.

Fazem-se irônicos.

Com a vaidade pessoal ferida por motivações a que atribuíam desmedida significação, são insensíveis aos apelos do sentimento, que anestesiam, e da razão, que repelem.

Procuram realização pessoal através de conquistas a que dão excessivo conteúdo, transferindo-se das frustrações de que sentem objeto.

No campo das atividades espirituais, nestes dias, os encontrarás, em número surpreendente.

Não reagem favorável ou negativamente.

Estão em outra dimensão de interesse.

Não são neutros, sequer.

Negam-se, a si mesmos, a oportunidade de renovação.

Não te aflijas pela atitude deles.

Reencontrarão, mais tarde, o caminho correto que deverão percorrer.

A dor generosa ajudá-los-á no programa da redenção.

Também, em razão deles, não deixes de produzir com afinco e entusiasmo, no teu campo de ação, quando os defrontares.

Não foram apenas os que odiavam e temiam a soberana força do amor de Jesus, que O levaram à morte, e sim, os indiferentes: um sumo-sacerdote negligente que preferia ignorá-lO, resolvendo por silenciar-Lhe a voz e um governante frio, que lavou as mãos ante o Seu destino... Todavia, apesar deles, o Senhor escreveu, através do sacrifício pessoal, na história da Humanidade, a página mais comovedora e estoica de todos os tempos, que até hoje atrai mentes e corações para a Sua doutrina, mesmo havendo, ainda, muitos indiferentes que se recusam recebê-lO e respeitá-lO.

Joanna de Ângelis - Médium: Divaldo P. Franco - Livro: Oferenda



Caracteres da perfeição

2. Pois que Deus possui a perfeição infinita em todas as coisas, esta proposição: “Sede perfeitos, como perfeito é o vosso Pai celestial”, tomada ao pé da letra, pressuporia a possibilidade de atingir-se a perfeição absoluta. Se à criatura fosse dado ser tão perfeita quanto o Criador, tornar-se-ia ela igual a este, o que é inadmissível. Mas, os homens a quem Jesus falava não compreenderiam essa nuança, pelo que ele se limitou a lhes apresentar um modelo e a dizer-lhes que se esforçassem pelo alcançar. Aquelas palavras, portanto, devem entender-se no sentido da perfeição relativa, a de que a Humanidade é suscetível e que mais a aproxima da Divindade. Em que consiste essa perfeição? Jesus o diz: “Em amarmos os nossos inimigos, em fazermos o bem aos que nos odeiam, em orarmos pelos que nos perseguem.” Mostra ele desse modo que a essência da perfeição é a caridade na sua mais ampla acepção, porque implica a prática de todas as outras virtudes. Com efeito, se se observam os resultados de todos os vícios e, mesmo, dos simples defeitos, reconhecer-se-á nenhum haver que não altere mais ou menos o sentimento da caridade, porque todos têm seu princípio no egoísmo e no orgulho, que lhes são a negação; e isso porque tudo o que sobrexcita o sentimento da personalidade destrói, ou, pelo menos, enfraquece os elementos da verdadeira caridade, que são: a benevolência, a indulgência, a abnegação e o devotamento. Não podendo o amor do próximo, levado até ao amor dos inimigos, aliar-se a nenhum defeito contrário à caridade, aquele amor é sempre, portanto, indício de maior ou menor superioridade moral, donde decorre que o grau da perfeição está na razão direta da sua extensão. Foi por isso que 56 Jesus, depois de haver dado a seus discípulos as regras da caridade, no que tem de mais sublime, lhes disse: “Sede perfeitos, como perfeito é vosso Pai celestial.” (livro: “O Evangelho Segundo O Espiritismo” – cap. XVII, item 2)

Missão dos espíritas

4. Não escutais já o ruído da tempestade que há de arrebatar o velho mundo e abismar no nada o conjunto das iniquidades terrenas? Ah! bendizei o Senhor, vós que haveis posto a vossa fé na sua soberana justiça e que, novos apóstolos da crença revelada pelas proféticas vozes superiores, ides pregar o novo dogma da reencarnação e da elevação dos Espíritos, conforme tenham cumprido, bem ou mal, suas missões e suportado suas provas terrestres. Não mais vos assusteis! As línguas de fogo estão sobre as vossas cabeças. Ó verdadeiros adeptos do Espiritismo!... sois os escolhidos de Deus! Ide e pregai a palavra divina. É chegada a hora em que deveis sacrificar à sua propagação os vossos hábitos, os vossos trabalhos, as vossas ocupações fúteis. Ide e pregai. Convosco estão os Espíritos elevados. Certamente falareis a criaturas que não quererão escutar a voz de Deus, porque essa voz as exorta incessantemente à abnegação. Pregareis o desinteresse aos avaros, a abstinência aos dissolutos, a mansidão aos tiranos domésticos, como aos déspotas! Palavras perdidas, eu o sei; mas não importa. Faz-se mister regueis com os vossos suores o terreno onde tendes de semear, porquanto ele não frutificará e não produzirá senão sob os reiterados golpes da enxada e da charrua evangélicas. Ide e pregai! Ó todos vós, homens de boa-fé, conscientes da vossa inferioridade em face dos mundos disseminados pelo Infinito!... lançai-vos em cruzada contra a injustiça e a iniquidade. Ide e proscrevei esse culto do bezerro de ouro, que cada dia mais se alastra. Ide, Deus vos guia! Homens simples e ignorantes, vossas línguas se soltarão e falareis como nenhum orador fala. Ide e pregai, que as populações atentas recolherão ditosas as vossas palavras de consolação, de fraternidade, de esperança e de paz. Que importam as emboscadas que vos armem pelo caminho! Somente lobos caem em armadilhas para lobos, porquanto o pastor saberá defender suas ovelhas das fogueiras imoladoras. Ide, homens, que, grandes diante de Deus, mais ditosos do que Tomé, credes sem fazerdes questão de ver e aceitais os fatos da mediunidade, mesmo quando não tenhais conseguido obtê-los por vós mesmos; ide, o Espírito de Deus vos conduz. Marcha, pois, avante, falange imponente pela tua fé! Diante de ti os grandes batalhões dos incrédulos se dissiparão, como a bruma da manhã aos primeiros raios-do-Sol nascente. A fé é a virtude que desloca montanhas, disse Jesus. Todavia, mais pesados do que as maiores montanhas, jazem depositados nos corações dos homens a impureza e todos os vícios que derivam da impureza. Parti, então, cheios de coragem, para removerdes essa montanha de iniquidades que as futuras gerações só deverão conhecer como lenda, do mesmo modo que vós, que só muito imperfeitamente conheceis os tempos que antecederam a civilização pagã. Sim, em todos os pontos do Globo vão produzir-se as subversões morais e filosóficas; aproxima-se a hora em que a luz divina se espargirá sobre os dois mundos. Ide, pois, e levai a palavra divina: aos grandes que a desprezarão, aos eruditos que exigirão provas, aos pequenos e simples que a aceitarão; porque, principalmente entre os mártires do trabalho, desta provação terrena, encontrareis fervor e fé. Ide; estes receberão, com hinos de gratidão e louvores a Deus, a santa consolação que lhes levareis, e baixarão a fronte, rendendo-lhe graças pelas aflições que a Terra lhes destina. Arme-se a vossa falange de decisão e coragem! Mãos à obra! o arado está pronto; a terra espera; arai! Ide e agradecei a Deus a gloriosa tarefa que Ele vos confiou; mas, atenção! entre os chamados para o Espiritismo muitos se transviaram; reparai, pois, vosso caminho e segui a verdade. Pergunta. – Se, entre os chamados para o Espiritismo, muitos se transviaram, quais os sinais pelos quais reconheceremos os que se acham no bom caminho? Resposta. – Reconhecê-los-eis pelos princípios da verdadeira caridade que eles ensinarão e praticarão. Reconhecê-los-eis pelo número de aflitos a que levem consolo; reconhecê-los-eis pelo seu amor ao próximo, pela sua abnegação, pelo seu desinteresse pessoal; reconhecê-los-eis, finalmente, pelo triunfo de seus princípios, porque Deus quer o triunfo de Sua lei; os que seguem Sua lei, esses são os escolhidos e Ele lhes dará a vitória; mas Ele destruirá aqueles que falseiam o espírito dessa lei e fazem dela degrau para contentar sua vaidade e sua ambição. – Erasto, anjoda-guarda do médium. (Paris, 1863.) (livro: “O Evangelho Segundo O Espiritismo” – cap. XX, item 4)

Em respeito à caridade

Por mais se aborde o tema referente à virtude por excelência – a caridade! -sempre existem facetas novas e profundas que merecem análise para imediata aplicação.

A caridade é a filha predileta de que a fé se utiliza para expressar a riqueza de que se constitui. Enquanto a fé é qual uma chama flamejante que ilumina interiormente, oferecendo vigor e alegria àquele que a cultiva, a caridade são-lhe as mãos laboriosas que lhe concretizam os sentimentos.

Graças ao combustível que a sustenta – a esperança – é que não se lhe entibia a vitalidade, que lhe faculta mover montanhas, prosseguindo na sublime saga de libertar o ser humano da ignorância em que estorcega.

Anjos protetores que se unem desvelam-se na caridade enriquecida de amor e de paz.

Convencionou-se, entretanto, e vem sendo mantida através dos tempos a conceituação falsa de que a caridade se constitui das ações generosas e compassivas que se oferecem materialmente, sem dúvida valiosas, mas não únicas.

A caridade sempre se apresenta em mil facetas que engrandecem aquele que a oferece, assim como aqueloutro a quem se destina.

Para o desnudo, o vestuário é-lhe de alta importância, tanto quanto, para o esfaimado, o pão é fundamental.

Para o enfermo, o remédio é bênção que o auxilia na recuperação da saúde, assim como para o sedento, o vasilhame com água generosas é salvação da existência física.

Para o enregelado pelo frio, o agasalho é mensageiro de calor e de alegria, da mesma forma como a ajuda monetária, que soluciona a dificuldade de alguém, que recupera a alegria de viver.

Nada obstante, para o desorientado, o oferecimento de diretriz de segurança representa motivo de júbilo, de igual maneira, a palavra oportuna que esclarece e ilumina constitui indiscutível oferta de bem-estar.

Sempre existem maneiras diversas para a ação da caridade expressar-se, ademais daquelas exclusivamente materiais.

Em um estudo mais profundo em torno das necessidades humanas, constatam-se as presenças da fome, das doenças, do abandono social a que são relegados os denominados excluídos, o desvalimento moral, a falta de teto, de trabalho, de educação... No entanto, a mais terrível de todas é o egoísmo que gera tais fenômenos desditosos, mas que a caridade real pode solucionar por influência do amor.

Onde vicejam, portanto, o amor e a caridade, esses sofrimentos decorrentes da miséria não florescem.

Há grande, insofismável carência, portanto, na sociedade terrestre, de valores morais, que a caridade propicia, porquanto, encontrando-se a consciência humana iluminada pela fé no dever e nos bons frutos disso decorrentes, a esperança trabalha pela remoção do egoísmo que domina o coração das criaturas, abrindo espaço para a conquista sublime da felicidade.

Desse modo, à caridade, no seu relevante sentido moral, está reservada a missão de transformar a Terra para melhor, propiciando a conscientização dos seus habitantes, trabalhando em favor do equilíbrio e da harmonia geral.

Isto porque, não somente a miséria socioeconômica é fomentadora do desespero, dos sofrimentos, da violência, mas principalmente responsável é a espiritual, que consideramos a alma dessa e das demais ocorrências infelizes.

Em respeito à caridade, reflexiona em torno de outras desgraças, sutis umas e grosseiras outras, que podem ser evitadas ou saneadas, se essa mensagem da vida chegar a tempo.

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A conduta pessoal é sempre reflexo das construções mentais, porquanto as ocorrências que têm lugar no mundo físico originam-se no pensamento.

Nas comunidades prósperas do mundo, onde não há escassez de recursos para os seus membros, neles permanecem, no entanto, em predominância, os sentimentos de mesquinhez e de inferioridade, que os tornam tão infelizes quanto aqueles que experimentam fome e abandono.

Multiplicam-se, nesses lugares, os sequazes da aflição, em renhidos combates psíquicos e emocionais, sob a governança da inveja, da antipatia, das animosidades mal disfarçadas, criando situações deploráveis.

Ciúmes doentios perturbam incontáveis existências que se estiolam nas suas garras vigorosas; calúnias urdidas pela insensatez e com habilidade desestabilizam pessoas representativas, que se transtornam; agressões verbais e comentários perversos dividem famílias e separam afeições que lhes padecem a felonia; desconsideração social e intrigas sórdidas atingem sentimentos que se desajustam, perdendo o rumo por onde seguiam...

Nos arraiais da fé religiosa, lamentavelmente nas diversas denominações do Cristianismo, os seus adeptos traem-se uns aos outros e reciprocamente, distantes de qualquer compromisso emocional e moral com os postulados ensinados e vividos por Jesus até o momento do holocausto.

Odeiam-se os membros da mesma congregação ou entidade, fraternalmente sorrindo, disputando privilégios que se atribuem mérito, destaques, primazias, embora abraçando uma doutrina que preconiza a humildade, a renúncia, a abnegação, a compaixão... a caridade!

As lutas intestinas entre aqueles que compõem a grei alcançam, normalmente, lamentáveis índices de violência verbal, culminando, muitas vezes, em pugilato físico, quando não em crimes vergonhosos.

As atitudes comportamentais não correspondem às aparentes convicções desposadas, dando lugar a choques constantes de opinião, de realização, de vivência...

A presença da caridade no coração desses indivíduos bastaria para fazer cessar ou pelo menos não acontecer esses infelizes fenômenos, que são frutos espúrios do egoísmo, em todos os comportamentos como roteiro ético em favor dos relacionamentos humanos.

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A caridade alcança um dos seus pontos culminantes e gloriosos quando se converte em perdão ao próximo e proporciona ao indivíduo o autoperdão com a consciência lúcida em favor da necessidade de reparação das faltas, da sua própria recuperação moral.

Caridade, pois, sem cessar.

(Joanna de Ângelis - Psicografia de Divaldo Pereira Franco, dolivro Jesus e vida, cap. 19, ed. LEAL)

Exercício da Compaixão

Muitos males seriam evitados no cosmo individual e na família social, caso a compaixão fosse atitude prioritária nos relacionamentos humanos. O predomínio do egoísmo e do orgulho na conduta humana induz a pessoal à soberba, fazendo que se considere irretocável, colocada acima do bem e do mal... A si própria reservando-se direitos especiais, acredita-se credora de todo o respeito que lhe devem outorgar as demais criaturas, embora permita-se a licença de agir de maneira especial, equivocada. Em decorrência, mantêm-se inabordável, considerando que a sua invulnerabilidade credencia-a a um status superior. Quando surpreendida pelas ocorrências comuns nos relacionamentos humanos ou sentindo-se agredida por incompreensão de qualquer espécie, escuda-se no rancor e introjeta a mágoa. Não lhe ocorre a possibilidade de oferecer compaixão ao agressor, acreditando-se injustiçada, passando a cultivar sentimentos inamistosos que transforma em dardos mentais venenosos, os quais dispara contra o opositor. À medida que se sucedem os tempos, fixada na presunção, acumula o morbo do ressentimento que contamina todos quantos se lhe acercam, quando não consegue expeli-lo contra aquele a quem considera seu inimigo. Lamentavelmente, envenena-se ao largo dos dias, perturbando as organizações emocional e física. Nesse interim, manifestam-se distúrbios de vária procedência, sejam aqueles de somatização ou os de agressão aos órgãos emocionais que lhes sofrem as altas cargas vibratórias de natureza tóxica. Graças aos clichês mentais que são elaborados, abre campo mental a conexões espirituais de baixo nível moral, produzindo os graves fenômenos de obsessão de breve ou de demorado curso. Ninguém, na Terra, que não necessite de receber compaixão, e, por consequência, de perdoar. Somente quando se frui o prazer da liberação do ressentimento mediante o conceder da compaixão e do perdão, é que se pode credenciar a recebe-los. A compaixão é terapia valiosa com caráter preventivo a muitos males, tanto quanto curadora em relação a distúrbios perniciosos já instalados. À medida que o ser humano eleva-se moralmente, abandona o primarismo da vingança para adotar o comportamento afável da compaixão. Na razão direta em que a concede, mais feliz se sente, porque frui a alegria da consciência de paz. Enquanto mantém uma atitude reacionária contra aquele que agride e ofende, o seu estado interior se deteriora em razão das emoções desordenadas que o assaltam, em razão de optar pelo revide. A compaixão sempre é melhor para aquele que a oferece. A árvore acoitada pela tempestade que a vergasta, despedaçando-a com crueldade, compadece-se da sua violência, reverdecendo-se e explodindo em flores. 119 OS metais que experimentam a fornalha, compadecem-se do calor que os derreteu, tornando-se utilidades e adornos preciosos. A terra magoada pelo inverno rigoroso compadece-se da friagem terrível que lhe roubou a vegetação vestindo-se novamente de vida e de cores. A pedra despedaçada por explosivos e instrumentos que a ferem, compadece-se da agressão, tornando-se segurança na construção e em arte deslumbrante nas mãos do esteta. O barro cozido no forno ardente, compadece-se da temperatura asfixiante, tornando-se utilidade de grande valor. Tudo são lições de compaixão, conclamando à renovação. Morre uma expressão de vida ou modifica-se uma forma, a fim de darem lugar a novas modalidades na ininterrupta sucessão do processo transformador. O fluxo da vida é incessante, enriquecedor. A água que passa carregada pelo rio, por sob uma ponte, pode retornar ao mesmo lugar, no entanto, em circunstância e tempo muito diferentes. Assim também os fenômenos que ocorrem entre as criaturas. Em face da sua diversidade, cada qual vê o mundo conforme as lentes do seu amadurecimento psicológico, da sua lucidez de consciência, do seu estágio moral. Não se pode esperar, portanto, igualdade de conceituação e de conduta, salvadas as exceções naqueles que vivem níveis mais elevados de sentimentos espirituais. Nada obstante, muitos indivíduos que se sentem magoados com as ocorrências que fazem parte do seu desenvolvimento intelecto-moral, esforçam-se para preservar as lembranças do mal que lhes acontece, cultivando as paixões inferiores. Sentem dificuldades de compadecer-se, de perdoar, porque não se interessam por fazê-lo, nem se esforçam por ofertá-los. Nesse estágio primário, comprazem-se quando odeiam, quando se sentem motivados para a vingança, quando alguém os alcança com incompreensão, porque passam a dispor de material favorável ao desforço que esperam conseguir, comprazendo-se em tormentos contínuos. A compaixão é apanágio da evolução, que todos devem vivenciar a qualquer custo. Quanto mais é postergada, tanto mais difícil torna-se de ser praticada. Indispensável, portanto, cultivá-la no pensamento, não valorizando nenhum tipo de mal, não passando recibo à vingança, não aceitando ofensa, lutando por manter-se em um nível melhor do que aquele em que se encontra o outro, o infeliz que persegue e malsina. Considerando-se que as demais criaturas encontram-se em processo de desenvolvimento, ainda assinaladas pelas heranças do primitivismo, qual ocorre com quase todas, torna-se fácil conceder-lhes o direito de equivocar-se, de agir conforme os seus padrões morais, não revidando mal por mal. Quando alguém preenche os vazios existenciais com as mágoas, perde o contato com a beleza, a realidade e o amor. A amargura se lhe aloja no sentimento e o pessimismo comanda-lhe as aspirações. A liberdade interior é alcançada mediante a ruptura dos elos do ódio e do ressentimento através da compaixão. Quem utiliza da compaixão rompe o vínculo com aquele que se lhe fez algoz. Enquanto vige o sentimento negativo permanece, infelizmente, a ligação nefasta. Compadece-te portanto, sem qualquer restrição. Feliz e saudável é sempre aquele que avança em paz, sem amarras perigosas com a retaguarda. A saúde integral resulta de inúmeros fatores entre os quais a dádiva da compaixão. Disputa a honra de ser aquele que concede a paz, distendendo a mão de benevolência em solidariedade fraternal ao agressor. 120 Paradigma do Ser ideal, na cruz de ignomínia, Jesus compadeceu-se dos Seus algozes e intercedeu a Deus por eles, suplicando que fossem perdoados, porque eles não sabiam o que estavam fazendo. Todo aquele que se compraz na prática do mal, certamente não sabe o que está fazendo. Se for contra ti a quem ele atire a sua maldade, compadece-te, mantendo-te saudável e em paz. (Joanna de Angelis, in “Libertação pelo Amor” – Cap 26)

Dar e dar-se

Não te equivoques quanto ao sentido do verbo dar, à luz do Evangelho. Toda oferenda que beneficia alguém é proveitosa e cabe na aplicação do exercício da caridade. A doação, porém, mais valiosa se manifesta mediante o bem-estar que propicia ao ofertante. As expressões de ajuda material são significativas no compromisso de diminuir as aflições e necessidades do próximo mais carente do que nós. Sem embargo, os excessos que distendemos a alguém não representam o mais precioso do quanto podemos dar. Há pessoas que se martirizam por não disporem de valores para oferecer. Acreditam que, convocadas para o ministério do bem incessante, somente realizariam o cometimento exitoso se lhes abundassem tesouros que pudessem repetir e distribuir fartamente. Ante a escassez, eximem-se de maior esforço, justificando transitar pela mesma situação em que se encontram os sofredores... As mais eloquentes doações que a Humanidade conhece foram realizadas de forma diversa da distensão pura e simples de objetos e moedas. Gandhi, sem qualquer posse, deu-se à luta pela “não-violência”, tornando-se um símbolo de paz e doando a vida em holocausto pelo ideal libertador que o abrasava. Francisco de Assis, após despir a túnica que pertencia ao genitor e renunciar ao nome de família, fez as mais preciosas oferendas, dando-se a si mesmo a ponto de tornar-se o “santo da humildade”. Jesus, que não “possuía uma pedra para reclinar a cabeça, embora as aves do céu tivessem ninhos e as serpentes covis”, é o excelente exemplo da maior doação de que se tem notícia na História da Humanidade... Quantos homens e mulheres, seguindo-Lhe as pegadas, deram e doaram-se ao amor pelo próximo, vitalizando a esperança no mundo, através dos tempos?! Dá quanto possas, faze o que te seja viável, mas não te detenhas no conceito limitado das dádivas materiais. Se meditares em profundidade, descobrirás as fortunas de amor que jazem no teu mundo íntimo, aguardando que a boa vontade e a abnegação se te façam garimpeiros e descubram as gemas da caridade de maior de que podes dispor fartamente, endereçando-as a todas as criaturas do roteiro por onde transitas. Esta forma superior de dar, far-te-á bem e ditoso, porquanto perceberás que te estás dando, forma única de encontrar a felicidade. (Joanna de Angelis, in “Rumos Libertadores” – Cap 34) Estudo: ESE, Cap. XIII – Item 9

Vivência da Felicidade

Normalmente a felicidade é considerada como falta de sofrimento, ausência de problemas e de preocupações. O conceito, no entanto, é cediço, destituído de legitimidade, porque se pode experienciar bem-estar, felicidade, portanto, em situações de dor, assim como diante de problemas e de desafios. A felicidade é um estado emocional, no qual as questões externas, mesmo quando negativas, não conseguem modificar o sentimento de harmonia. Da mesma forma, acontecimentos e circunstâncias perturbadores são incapazes de alterar-lhe a magnitude, porque podem ser administrados e conduzidos a resultados edificantes. Sempre se considera a infelicidade como a má sorte, a debilidade orgânica, a presença de enfermidades, os problemas financeiros e emocionais, a solidão e a insegurança, deixando transparecer que a felicidade seria o oposto. 39 Nada obstante, podemos considerar a felicidade como resultado de pensamentos corretos, de atos honestos e de sentimentos enobrecidos. Caso as ocorrências não sejam benéficas, propiciando prazer e poder, isso, de maneira alguma pode ser considerado como desgraça ou desar, dependendo, naturalmente, da maneira como sejam encaradas. Invariavelmente, a situação deplorável de hoje, se bem administrada, transforma-se em dádiva de engrandecimento interior e de compreensão dos acontecimentos existenciais, mais tarde, favorecendo a conquista da felicidade. O asceta, o mártir, o idealista, quanto mais enfrentam dificuldades melhor sentem-se, agradecendo à vida as aflições que os elevam, que os ajudam a concretizar os objetivos que abraçam e os santificam. No entanto, para o indivíduo comum, as sensações bem-atendidas, o conforto, a conquista de valores amoedados, o experimentar de prazeres contínuos são fenômenos que se convertem em expressões de felicidade... Certamente, uma situação, a primeira postura, tem que ver com as emoções superiores da alma, enquanto que a outra diz respeito às sensações dos sentidos físicos de efêmera duração. A felicidade, portanto, desse modo, não está adstrita a determinados padrões, de maneira que seja a mesma para todos os indivíduos. Estando as pessoas em estágio com diferentes níveis de consciência e de conhecimento, as suas aspirações diversificam-se, apresentando-se em tonalidades muito especiais, representativas de cada qual. Desse modo, o conceito de felicidade na vivência normal e comum é muito diferente, em relação aos seres humanos, apresentando-se com características próprias, referentes ao estágio e qualidade da emoção de cada um. O véu que oculta o discernimento da felicidade real é colocado pelo ego, na sua feição imediatista, vinculado aos interesses pessoais e movimentando-se somente em torno deles, o que não corresponde à realidade dos valores que tipificam o estado de harmonia real, de plenitude. É provável que a felicidade para muitos não seja mais do que algumas alegrias derivadas das ambições que se fizeram palpáveis, após algum esforço para consegui-las. Para outros, podem ser as satisfações hedonistas, em que o gozo foi transformado em finalidade primordial da existência, embora fugidio e cansativo. A felicidade, porém, não se afirma como o trânsito fácil pelos altibaixos da experiência carnal, tornando-se necessário que sejam eliminados os tóxicos mentais e a ignorância em torno das leis de solidariedade e de compaixão, que devem ser vivenciadas no íntimo, de forma a melhor compreender-se o sentido psicológico do existir. O discernimento a respeito dos significados da existência terrestre proporciona uma visão ampla e sem falhas da felicidade em toda a sua magnitude, por facultar a compreensão das ocorrências durante a vilegiatura humana. É provável que uma calúnia e uma inimizade que aparecem inesperadamente tisnem o estado de paz de alguém, atirando-o ao desespero, ao desejo de desforço, à demonstração de inocência...Esse momentâneo adversário que gera revolta e estimula os sentimentos de vingança, inspira animosidade, passando a ser detestado. No entanto, em seu comportamento normal, é gentil com outras pessoas, granjeando simpatia e afeição, confirmando que a óptica pela qual é observado tem desvios de apresentação conforme cada observador. Entender a situação de outrem, suas dificuldades emocionais e seus problemas de relacionamento, especialmente em relação a si mesmo, constitui um modelo de autopreservação de decepções e de conflitos na área do comportamento social. Não se pode esperar que todas as criaturas reajam da mesma forma nos relacionamentos humanos, elegendo uns amigos em detrimento de outros, o que produz aceitação e rejeição. 40 Quando se tem a capacidade de desculpar, não se perturbando ante os acontecimentos desagradáveis do processo de convivência com os demais, triha-se com segurança o roteiro que leva à harmonia, que predispõe à felicidade. Uma das razões dominantes para a presença da infelicidade é a ambição desmedida, que confunde o ter com o ser, o poder com o realizar-se. A educação social na Terra, infelizmente, ainda tem a predominância pela exaltação do mais forte, pelo triunfo do mais rico ou mais belo, pela coragem do mais hábil na arte de projetar a imagem, estabelecendo a felicidade como a glória externa, o brilho fácil nas rodas socioeconômicas dominantes... Como efeito, quando não se conseguem esses padrões de falsa felicidade, pensa-se em desdita, em fracasso. Não é raro encontrar-se pessoas ricas e que alcançaram o topo, invejadas e copiadas, cercadas de fãs ardorosos e perseguidas pelo noticiário da frivolidade, que lamentam interiormente a fama e o alto escalão em que se deparam nos círculos em que se movimentam. Esse triunfo constitui-lhes verdadeiro suplício, enquanto um incontável número que se encontra no anonimato ama a existência e com ela se compraz, muitas vezes enfrentando carências e dificuldades. A verdadeira educação deve ter como meta formar cidadãos, criar condições dignificadoras para o indivíduo, fortalecimento dos valores ético-morais, porque os padrões exteriores mudam de situação a cada momento, enquanto os de natureza íntima permanecem como diretrizes de sabedoria geradora de paz interior. Em geral, o sofrimento apresenta-se em todos os setores humanos como desdita ou infortúnio. Considerando-se, porém, que é inevitável, que sempre surgirá momento em que se apresentará, em razão da circunstância em que o Espírito evolui, ainda apegado aos débitos de ontem como às intercorrências desequilibradoras de hoje, o recurso precioso para o enfrentamento é a constatação da sua transitoriedade, em face da maneira como deve ser encarado, dando-lhe qualidades positivas de aperfeiçoamento moral. De metodologia que leva à autorreflexão, ao aprimoramento interior. A felicidade, desse modo, não é a falta de sofrimento... Pode-se ser feliz, embora com algum sofrimento, que não descaracteriza o bem-estar e a alegria de viver propiciadores do estado pleno. A felicidade real tem muito a ver com a felicidade que produz em torno, com aquela que diz respeito aos outros. A chave para ser viabilizada está no amor a si mesmo e ao próximo, nessa deferência que deve ser dedicada ao esforço de auto aprimoramento, de elevação de qualidades morais, de significados emocionados, tendo em vista as demais criaturas. Quem apenas se ama, sem tempo de ampliar o círculo da afetividade com os outros, sofre de miopia moral e, no seu egotismo, perde o sentido existencial. Somente quando se ama aos demais caminhantes da estrada da evolução, é que se desenvolvem os sentimentos de nobreza, especialmente os de compaixão, de misericórdia, de solidariedade e caridade no seu sentido mais elevado. Nesse amor que se expande, absorvem-se a harmonia e a certeza de que após a transição do corpo pelo fenômeno da morte biológica, haverá o despertamento do Espírito em forma de consciência livre de culpa, em estado de real felicidade. (Joanna de Angelis, in “Atitudes Renovadas” – Cap 19)

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Módulo II – Família: protagonista do bem.

Objetivo específico : Estimular a família para que perceba suas competências como protagonista do bem, vivenciando os ensinamentos de Jesus.

Justificativa 1: Família – convite ao amor

A tarefa não é tão difícil quanto vos possa parecer. Não exige o saber do mundo.
Podem desempenhá-la assim o ignorante como o sábio, e o Espiritismo lhe facilita
o desempenho, dando a conhecer a causa das imperfeições da alma humana. 3
Santo Agostinho, O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIV, item 9

A importância da família para o desenvolvimento da sociedade humana é pauta constante no campo de estudo dos homens, assim como sua importância para o processo evolutivo do Espírito tem sido constantemente abordado no intercâmbio com o plano espiritual.

Conforme afirmativa do Espírito Camilo, não foi sem razão que Carlos Marx e Frederico Engels estabeleceram que a família representa o primeiro grupo histórico e a primeira forma de interação humana aos quais os indivíduos se ajustam.1

Ainda, a célebre afirmativa de Rui Barbosa (1849-1923), um dos mais brilhantes intelectuais de seu tempo, considerando a família como a célula mater. da sociedade, destaca a sua importância como embrião que se forma a partir de um pequeno núcleo de pessoas, e se desenvolve tomando a grandiosa dimensão da organização de toda uma sociedade.

De todas as associações existentes na Terra – excetuando naturalmente a Humanidade – nenhuma talvez mais importante em sua função educadora e regenerativa: a constituição da família , afirma o Espírito Emmanuel.2

Ante tais colocações, que ressaltam a grandiosidade da formação familiar para o desenvolvimento da sociedade humana, assim como para a educação do Espírito imortal, convém refletir sobre os princípios que regem a vida, de onde parte o ser, da simplicidade e da ignorância, para a sublimidade da angelitude, utilizando-se das diversas oportunidades reencarnatórias para tal conquista.

Baseados no entendimento do amor como sendo Lei Maior, emanada do Criador, que rege todo o Universo, faz-se mister observar com muita atenção que é o próprio amor o ingrediente fundamental que deve nortear toda a ação dentro do núcleo familiar, assim como o seu desenvolvimento em plenitude é o produto final que se almeja alcançar.

Recordando o convite do Mestre Nazareno, que ecoa em nossos ouvidos, através dos séculos, para que amemos ao nosso próximo como a nós mesmos, reconhece-se a família como a associação terrena que foi concedida por Deus como oportunidade desse aprendizado em ambiente seguro e protegido.

Ambiente propício para exercitarmos, ainda de forma incipiente, a prática do respeito, do perdão, da compreensão, do carinho e da compaixão, como forma de amar verdadeiramente.

A família,na qual dois seres se conjugam, atendendo aos vínculos do afeto, 2 possibilita, por intermédio da paternidade e da maternidade, o despertamento das centelhas do amor do Pai Maior, latentes em cada criatura. Amor até então ignorado pelo homem, que percebe, a partir do exercício desses papéis, sentimentos antes não conhecidos, que o leva a abrir mão de si mesmo em nome de seus rebentos, a encontrar forças para lutar ante as adversidades, as quais não acreditava possuir. São as sementes do verdadeiro amor desabrochando no ser humano, que passa a enxergar o próximo antes de enxergar a si mesmo. É a verdadeira caridade que se manifesta no homem, convidando-o a rasgar a cortina do eu para ver o próximo mais próximo se apresentando, inicialmente, no papel de filhos, solicitando todo o cuidado que lhes possa ser dispensado.

Sem fórmulas preconcebidas para dar certo, a relação familiar deve contar com o componente essencial do amor. Amor puro que vai construir a relação do casal, que servirá de exemplo fundamental aos filhos, que ecoará no respeito entre irmãos, na construção de relações saudáveis entre os demais familiares, entre amigos e, por fim, em toda a sociedade.

Dessa maneira, o lar se constituirá no porto seguro, onde todos estarão sempre ansiosos para chegar. O local de aconchego e confiança, onde se diluirão mágoas, se confiarão segredos, se revelarão sentimentos, na certeza do respeito à individualidade de cada um e do amor que será o conforto às almas doridas que buscam redenção no plano terreno.

Viver harmoniosamente em família não exigirá de ninguém elevados requisitos de conhecimento, pois, consoante a afirmativa de Santo Agostinho a tarefa não é tão difícil quanto vos possa parecer. Não exige o saber do mundo. Podem desempenhá-la assim o ignorante como o sábio .3

Não exige de nós senão a busca sincera da simplicidade e da humildade, reconhecendo-nos como seres imperfeitos, colocados lado a lado, no ambiente doméstico, para o crescimento conjunto.

A família é o convite do Criador ao exercício do amor. O amor maternal, paternal, filial que, em breve, se tornará o tão almejado amor universal.

(Mundo Espírita- Órgão de divulgação da Federação Espírita do Paraná)

Bibliografia:

1 TEIXEIRA, José Raul. Desafios da vida familiar. Pelo Espírito Camilo. Niterói: Fráter, 2003. pt. I, pg. 18.
2 XAVIER, Francisco Cândido. Vida e sexo. Pelo Espírito Emmanuel. 7. ed. Rio de Janeiro: FEB. cap. 2.
3 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 131. ed. Rio de Janeiro: FEB. cap. XIV, item 9.

 

 

Justificativa 2: Laços de família

774. Há pessoas que, do fato de os animais ao cabo de certo tempo abandonarem suas crias, deduzem não serem os laços de família, entre os homens, mais do que resultado dos costumes sociais e não efeito de uma lei da Natureza. Que devemos pensar a esse respeito?

“Diverso do dos animais é o destino do homem. Por que, então, quererem identifica-lo com estes? Há no homem alguma coisa mais, além das necessidades físicas: há a necessidade de progredir. Os laços sociais são necessários ao progresso e os de família mais apertados tornam os primeiros. Eis por que os segundos constituem uma lei da Natureza. Quis Deus que, por essa forma, os homens aprendessem a amar-se como irmãos.” (205)

 

775. Qual seria, para a sociedade, o resultado do relaxamento dos laços de família?

“Uma recrudescência do egoísmo.”

(Livro dos Espíritos – cap. VII – Da lei de sociedade)

Textos de apoio

Surge a Era Nova.

O sol da esperança desbasta as trevas da ignorância.

Pequenos grupos de servidores verdadeiros do Evangelho, no silêncio da renúncia, estão levantando os pilotis sobre os quais será erguida a Era Nova.

Sem alarde, em luta ingente, esses corações convidados constituem segurança para o mundo melhor de amanhã.

Não obstante o vendaval, as ameaças do desequilíbrio e o predomínio aparente das forças da violência, o bem, corno fluido de libertação, penetra todo o organismo terrestre preparando o mundo novo.

Não engrossam as fileiras dos desanimados, nem aplaudem a insensatez dos perversos ou apoiam a estultícia dos vitoriosos da ilusão.

Quem aprendeu a confiar em Jesus põe as suas raízes na verdade. São minoria, não, porém, grupo ao abandono.

Todos os grandes ideais da humanidade surgem em pequeninos núcleos, que se alargam em gerações após gerações.

O Cristianismo restaurado, por sua vez, é a doutrina do amanhã, no enfoque espírita, porque, enquanto a mensagem de Jesus teve de destruir as bases do paganismo para erguer o santuário do amor, o Espiritismo deve apenas erigir, sobre o Cristianismo, o templo luminoso da caridade.

Chamados para este ministério, não duvidam, alegrando-se por ter seus nomes inscritos, como diz o Evangelho, no livro do reino dos céus e serem conhecidos do Senhor.

 

Nossa Casa tem ação. É hoje reduto festivo, santuário que alberga Espíritos mensageiros da luz, oficina onde se trabalha, escola de educação e hospital de recuperação de vidas.

Com outros Obreiros aqui temos estado, mantendo a chama da verdade acesa – como ocorria com os antigos faróis com a flama ardente, apontando a entrada dos portos e mais tarde dando notícias dos recifes e perigos do mar.

 

Filhos da alma, nunca desistam de fazer o bem, face ao aparente triunfo do mal em desgoverno, em torno de suas vidas.

Passada a tempestade, a luz volta a fulgir.

A sombra é somente ausência da claridade. Não é real.

Só Deus é Vida; somente o Bem é meta.

 

(Franco, Divaldo Pereira. Da obra: Momentos Enriquecedores - Ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador, BA: LEAL, 1994)

A família em plenitude

...No lar, sem dúvida, multiplicam-se as lições credenciadoras para a aplicação do conhecimento e do sentimento voltados para o BEM geral, em detrimento, em certas circunstâncias, do prazer pessoal, que sempre virá depois da decisão de servir e impulsionar para diante aqueles com os quais se convive.

Todo esse processo de edificação pessoal renovador, que diz respeito aos parceiros, é impositivo existencial, parte fundamental do programa de iluminação da consciência e de vitalização dos anseios íntimos dos sentimentos enobrecidos.

À medida, portanto, que a prole cresce e adquire as próprias experiências, firmando-se no contexto social, a família penetra na fase de plenitude, se o resultado do labor desenvolvido expressar-se em equilíbrio e saúde real daqueles que avançarão por si mesmos no rumo do progresso.

Em caso contrário, a família pode ser considerada enferma, necessitando de terapêutica urgente, antes que as consequências da irresponsabilidade dos pais se transformem em prejuízo e desorganização no conjunto social.

O êxito não deve ser considerado com a soma dos resultados felizes em totalidade, porquanto, muitos espíritos renascem em famílias equilibradas com finalidades expiatórias, permanecendo em situação afligente, sem que isso constitua fracasso do grupo doméstico. Antes, pelo contrário, a sustentação do enfermo espiritual, cercado por BONDADE E AMOR, igualmente significa plenitude do programa estabelecido.

Assim sendo, não se pode descartar a ausência de uma conduta espiritual no lar, de um nobre comportamento religioso, sem fanatismo, libertador, tolerante, entre os seus diversos membros, que sempre terão a quê recorrer, quando nos momentos difíceis ou nas situações penosas da vida terrestre.

Atingindo, desse modo, a situação de harmonia e de entrega dos filhos à sociedade, a família, alcançando, a plenitude, torna-se modelo que servirá de estímulo para outros grupos humanos que se atormentam nas lutas diárias do lar, explodindo nos conflitos sociais das ruas e das comunidades, por falta de harmonia que a educação moral e intelectual bem conduzida consegue realizar.

Bem aventurado o arquipélago familiar onde Deus reúne os espíritos para a construção do amor universal, partindo do grupo consanguíneo, no qual predominam os impositivos da carne, para a expansão da solidariedade, do respeito, da harmonia e da verdadeira fraternidade entre todos os seres humanos!

(“Constelação familiar” – Divaldo Franco pelo espírito de Joanna de Ângelis- Cap. 28)

A ingratidão e os laços de família.

(...) Ó espíritas! Compreendei agora o grande papel da Humanidade; compreendei que, quando produzis um corpo, a alma que nele encarna vem do espaço para progredir; inteirai-vos dos vossos deveres e ponde todo o vosso amor em aproximar de Deus essa alma; tal a missão que vos está confiada e cuja recompensa recebereis, se fielmente a cumprirdes. Os vossos cuidados e a educação que lhe dareis auxiliarão o seu aperfeiçoamento e o seu bem-estar futuro. Lembrai-vos de que a cada pai e a cada mãe perguntará Deus: Que fizestes do filho confiado à vossa guarda? Se por culpa vossa ele se conservou atrasado, tereis como castigo vê-lo entre os Espíritos sofredores, quando de vós dependia que fosse ditoso. Então, vós mesmos, assediados de remorsos, pedireis vos seja concedido reparar a vossa falta; solicitareis, para vós e para ele, outra encarnação em que o cerqueis de melhores cuidados e em que ele, cheio de reconhecimento, vos retribuirá com o seu amor.

Não escorraceis, pois, a criancinha que repele sua mãe, nem a que vos paga com a ingratidão; não foi o acaso que a fez assim e que vo-la deu. Imperfeita intuição do passado se revela, do qual podeis deduzir que um ou outro já odiou muito, ou foi muito ofendido; que um ou outro veio para perdoar ou para expiar. Mães! Abraçai o filho que vos dá desgostos e dizei convosco mesmas: Um de nós dois é culpado. Fazei-vos merecedoras dos gozos divinos que Deus conjugou à maternidade, ensinando aos vossos filhos que eles estão na Terra para se aperfeiçoar, amar e bendizer. Mas, oh! muitas dentre vós, em vez de eliminar por meio da educação os maus princípios inatos de existências anteriores, entretêm e desenvolvem esses princípios, por uma culposa fraqueza, ou por descuido, e, mais tarde, o vosso coração, ulcerado pela ingratidão dos vossos filhos, será para vós, já nesta vida, um começo de expiação.

A tarefa não é tão difícil quanto vos possa parecer. Não exige o saber do mundo. Podem desempenhá-la assim o ignorante como o sábio, e o Espiritismo lhe facilita o desempenho, dando a conhecer a causa das imperfeições da alma humana.

Desde pequenina, a criança manifesta os instintos bons ou maus que traz da sua existência anterior. A estudá-los devem os pais aplicar-se. Todos os males se originam do egoísmo e do orgulho. Espreitem, pois, os pais os menores indícios reveladores do gérmen de tais vícios e cuidem de combatê-los, sem esperar que lancem raízes profundas. Façam como o bom jardineiro, que corta os rebentos defeituosos à medida que os vê apontar na árvore. Se deixarem se desenvolvam o egoísmo e o orgulho, não se espantem de serem mais tarde pagos com a ingratidão. Quando os pais hão feito tudo o que devem pelo adiantamento moral de seus filhos, se não alcançam êxito, não têm de que se inculpar a si mesmos e podem conservar tranquila a consciência. À amargura muito natural que então lhes advém da improdutividade de seus esforços, Deus reserva grande e imensa consolação, na certeza de que se trata apenas de um retardamento, que concedido lhes será concluir noutra existência a obra agora começada e que um dia o filho ingrato os recompensará com seu amor. (Cap. XIII, nº 19.)

Deus não dá prova superior às forças daquele que a pede; só permite as que podem ser cumpridas. Se tal não sucede, não é que falte possibilidade: falta a vontade. Com efeito, quantos há que, em vez de resistirem aos maus pendores, se comprazem neles. A esses ficam reservados o pranto e os gemidos em existências posteriores. Admirai, no entanto, a bondade de Deus, que nunca fecha a porta ao arrependimento. Vem um dia em que ao culpado, cansado de sofrer, com o orgulho afinal abatido, Deus abre os braços para receber o filho pródigo que se lhe lança aos pés. As provas rudes, ouvi-me bem, são quase sempre indício de um fim de sofrimento e de um aperfeiçoamento do Espírito, quando aceitas com o pensamento em Deus. É um momento supremo, no qual, sobretudo, cumpre ao Espírito não falir murmurando, se não quiser perder o fruto de tais provas e ter de recomeçar. Em vez de vos queixardes, agradecei a Deus o ensejo que vos proporciona de vencerdes, a fim de vos deferir o prêmio da vitória. Então, saindo do turbilhão do mundo terrestre, quando entrardes no mundo dos Espíritos, sereis aí aclamados como o soldado que sai triunfante da refrega.

De todas as provas, as mais duras são as que afetam o coração. Um, que suporta com coragem a miséria e as privações materiais, sucumbe ao peso das amarguras domésticas, pungido da ingratidão dos seus. Oh! que pungente angústia essa! Mas, em tais circunstâncias, que mais pode, eficazmente, restabelecer a coragem moral, do que o conhecimento das causas do mal e a certeza de que, se bem haja prolongados despedaçamentos d’alma, não há desesperos eternos, porque não é possível seja da vontade de Deus que a sua criatura sofra indefinidamente? Que de mais reconfortante, de mais animador do que a ideia que de cada um dos seus esforços é que depende abreviar o sofrimento, mediante a destruição, em si, das causas do mal? Para isso, porém, preciso se faz que o homem não retenha na Terra o olhar e só veja uma existência; que se eleve, a pairar no infinito do passado e do futuro. Então, a justiça infinita de Deus se vos patenteia, e esperais com paciência, porque explicável se vos torna o que na Terra vos parecia verdadeiras monstruosidades. As feridas que aí se vos abrem, passais a considerá-las simples arranhaduras. Nesse golpe de vista lançado sobre o conjunto, os laços de família se vos apresentam sob seu aspecto real. Já não vedes, a ligar-lhes os membros, apenas os frágeis laços da matéria; vedes, sim, os laços duradouros do Espírito, que se perpetuam e consolidam com o depurarem-se, em vez de se quebrarem por efeito da reencarnação.

Formam famílias os Espíritos que a analogia dos gostos, a identidade do progresso moral e a afeição induzem a reunir-se. Esses mesmos Espíritos, em suas migrações terrenas, se buscam, para se gruparem, como o fazem no espaço, originando-se daí as famílias unidas e homogêneas. Se, nas suas peregrinações, acontece ficarem temporariamente separados, mais tarde tornam a encontrar-se, venturosos pelos novos progressos que realizaram. Mas, como não lhes cumpre trabalhar apenas para si, permite Deus que Espíritos menos adiantados encarnem entre eles, a fim de receberem conselhos e bons exemplos, a bem de seu progresso. Esses Espíritos se tornam, por vezes, causa de perturbação no meio daqueles outros, o que constitui para estes a prova e a tarefa a desempenhar.

Acolhei-os, portanto, como irmãos; auxiliai-os, e depois, no mundo dos Espíritos, a família se felicitará por haver salvo alguns náufragos que, a seu turno, poderão salvar outros. – Santo Agostinho. (Paris, 1862.) (ESE – cap. XIV)

Comportamento e Consciência

Estudos cuidadosos a respeito do comportamento humano demonstraram que há três biótipos representativos de criaturas na sociedade. O primeiro pode ser denominado como co-dependente, constituído por pessoas condicionadas, aquelas que estabelecem as suas metas através de circunstâncias alheias à sua vontade, não adquirindo uma consciência pessoal de satisfação como esforço individual auto realizador. As suas aspirações estão fundamentadas nas possibilidades de outrem, nos fatores ocasionais, e afirmam que somente serão felizes se amadas, se realizarem tal viagem ou qual negócio, etc. A falta de confiança em si mesmas proporciona-lhes o desequilíbrio desagregador da saúde e, mais facilmente, em média, são acessíveis ao câncer, atingindo um obituário maior do que aqueles que se demoram nas outras áreas. O segundo é constituído por indivíduos insatisfeitos: os que têm raiva da vida, que estão contra: instáveis e irritadiços por natureza são autodestrutivos, vivendo sob a constrição permanente da irascibilidade. Afirmam que se sentem incompletos, que nada lhes sai bem, portanto, agridem-se e agridem todos e tudo. Facilmente se tornam presa de distúrbios nervosos que mais os desgastam e infelicitam, atirando-se aos porões da exaltação, da depressão, do autocídio, direto ou não... Entre eles surgem os déspotas, os guerreiros, os criminosos... O terceiro grupo é formado por criaturas ajustadas, auto- realizadas, tranquilas, confiantes. Certamente, o seu é um número reduzido, diferindo grandemente dos membros que se encontram nas faixas comportamentais anteriores. Essas pessoas ajustadas são candidatas ao triunfo nas atividades às quais se dedicam, tornando-se agradáveis, sociáveis, estimuladoras. Os seus empenhos são positivos, visando sempre o bem-estar geral, o progresso de todos. As suas lideranças são enriquecedoras, criativas e dignas. Desse grupo saem os fomentadores do desenvolvimento da sociedade, os exemplos de sacrifício, os gênios criadores, os buscadores da verdade. As investigações aprofundam as suas sondas nas causas próximas desses comportamentos e encontraram, na raiz deles, o grupo familiar como responsável. Com ligeiras variações daqueles que superam os fatores negativos e se ajustam, bem como outros que apesar da sustentação dignificadora derrapam para as áreas de inquietação, o lar responde pela felicidade ou desdita futura da prole, gerando criaturas de bem, assim como servos da perturbação. Quem não recebe amor, não sabe dar amor e não o possui para repartir. Na infância do corpo, o espírito encarnado plasma na consciência a escala de valores que lhe orientará a existência. Conforme seja tratado criará estímulo naquela direção, retribuindo-os na mesma ordem. A auto estima aí se desenvolve, quando orientado ao descobrimento apreciável da vida, das próprias possibilidades, dos valores latentes que lhe cumpre desenvolver. Os desafios tornam-se-lhe convites ao esforço, à luta pelo progresso, à conquista de metas. O insucesso não o aturde nem o desestimula, pois que o conscientiza de como não fazer o que deseja. O carinho na infância, o amor e a ternura, ao lado do respeito à criança, são fundamentais para uma vida saudável, plenificadora. Todos têm necessidade de segurança na jornada carnal de instabilidades e transitoriedades. E os pais, os educadores, os adultos em geral, são os modelos para a criança, que os amará, copiando- os, ou os detestará, incorporando-os inconscientemente. É verdade que cada espírito reencarna no lar de que tem necessidade para evoluir, o que não credencia os genitores ao uso e abuso das arbitrariedades que pratiquem, de que terão, por sua vez, de dar conta à própria e à consciência cósmica. O espírito reencarna para progredir, desdobrando e aprimorando as aptidões que lhe dormem na consciência profunda. A educação na infância desempenha um papel de fundamental importância para o seu comportamento durante a existência. Os estímulos ao amor ajudam-no a lapidar as arestas que lhe remanescem do passado, mediante as ações de enobrecimento, de solidariedade, de abnegação, de caridade. Com raras exceções, os grandes vultos da Humanidade possuíram uma superior consciência de comportamento e apoiavam-na nas reminiscências do lar, no carinho dos pais, dos avós, dos mestres, que lhes constituíram exemplo digno de ser imitados. As suas reminiscências foram ricas de beleza, de bondade, de amor, com que se equiparam para os grandes lances da existência, e, aqueles que foram vítimas de holocaustos, possuíam pacificada a consciência por sacrificaram-se em favor da posteridade. Respondendo a Allan Kardec, à indagação de número 918, de “O Livro dos Espíritos”, asseveraram os condutores da terra: O espírito prova a sua elevação quando todos os atos de sua vida corporal representam a prática da lei de Deus e quando, antecipadamente, compreende a vida espiritual. O comportamento é, pois, resultado do nível individual de consciência de cada ser. (Livro Momentos de Consciência - Divaldo P. Franco, Pelo Espírito De Joana De Angelis)

Perto de ti

Ouves expressivos comunicados do Plano Espiritual, quanto ao trabalho que te espera no mundo.

Comumente, depois disso, deixas que o próprio pensamento divague ao longe, pesquisando notícias dos males enormes que assolam a Terra.

Sabes que as grandes necessidades reclamam as grandes intervenções, e refletes, para logo, nas missões gigantescas, como sejam:

  • a extinção da guerra,
  • supressão dos preconceitos raciais que prejudicam povos inteiros,
  • a cura de doenças que vergastam a Humanidade
  • Ou a decifração dos enigmas da ciência.

Em verdade, tudo isso demanda a presença de missionários especializados; entretanto, urge atendas aos Desígnios Divinos, na execução dos serviços menos importantes que se amontoam, junto de ti.

Talvez não haja, até agora, qualquer chamamento que te peça atuar nos conflitos armados, em outras terras, mas o Senhor te solicita apaziguar os corações que te rodeiam para que a serenidade e a paz te presidam o campo doméstico; é possível que ninguém te aguarde, por enquanto, qualquer contribuição no banimento definitivo das moléstias consideradas insanáveis, no entanto, o Senhor te roga socorro, em favor dos irmãos doentes que choram e sofrem na área de tua influência pessoal e direta:

  • Provavelmente, não tens ainda a palavra convidada para traçar diretrizes, à frente das multidões; todavia, o Senhor conta com o teu verbo compreensivo e brando, nos círculos de tua convivência, garantindo tranquilidade e elevação naqueles que te partilham a vida.
  • Não se sabe se trazes alguma incumbência do Alto para responder aos desafios da Natureza com essa ou aquela descoberta de valor fundamental para a Humanidade, porém é certo que o Senhor te espera a colaboração para que se resolvam pequeninos problemas, no quadro das provações de quantas renteiam contigo na trilha cotidiana.

Todo serviço no bem dos outros tem grande importância perante o Divino Mestre.

Justo, assim, te interesses por todos os assuntos graves do Planeta e forçoso faças quanto possas, a benefício dos companheiros do mundo que se vejam a longa distância da estrada em que transitas, mas é imperioso entendas que o Senhor te aguarda a cooperação decidida, em todas as tarefas de:

  • amor,
  • compreensão,
  • tolerância,
  • apoio fraterno
  • e serviço incessante, em auxílio de todos aqueles que se encontrem perto de ti.

(livro Alma e coração ditado por Emmanuel a Francisco C. Xavier)

A reencarnação fortalece os laços de família, ao passo que a unicidade da existência os rompe .

18. Os laços de família não sofrem destruição alguma com a reencarnação, como o pensam certas pessoas. Ao contrário, tornam-se mais fortalecidos e apertados. O princípio oposto, sim, os destrói.

No espaço, os Espíritos formam grupos ou famílias entrelaçados pela afeição, pela simpatia e pela semelhança das inclinações. Ditosos por se encontrarem juntos, esses Espíritos se buscam uns aos outros. A encarnação apenas momentaneamente os separa, porquanto, ao regressarem à erraticidade, novamente se reúnem como amigos que voltam de uma viagem. Muitas vezes, até, uns seguem a outros na encarnação, vindo aqui reunir-se numa mesma família, ou num mesmo círculo, a fim de trabalharem juntos pelo seu mútuo adiantamento. Se uns encarnam e outros não, nem por isso deixam de estar unidos pelo pensamento. Os que se conservam livres velam pelos que se acham em cativeiro. Os mais adiantados se esforçam por fazer que os retardatários progridam. Após cada existência, todos têm avançado um passo na senda do aperfeiçoamento.

Cada vez menos presos à matéria, mais viva se lhes torna a afeição recíproca, pela razão mesma de que, mais depurada, não tem a perturbá-la o egoísmo, nem as sombras das paixões. Podem, portanto, percorrer, assim, ilimitado número de existências corpóreas, sem que nenhum golpe receba a mútua estima que os liga.

Está bem visto que aqui se trata de afeição real, de alma a alma, única que sobrevive à destruição do corpo, porquanto os seres que neste mundo se unem apenas pelos sentidos nenhum motivo têm para se procurarem no mundo dos Espíritos. Duráveis somente o são as afeições espirituais; as de natureza carnal se extinguem com a causa que lhes deu origem. Ora, semelhante causa não subsiste no mundo dos Espíritos, enquanto a alma existe sempre. No que concerne às pessoas que se unem exclusivamente por motivo de interesse, essas nada realmente são umas para as outras: a morte as separa na Terra e no céu. (O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO- cap. IV- item 18)

A afabilidade e a doçura

6. A benevolência para com os seus semelhantes, fruto do amor ao próximo, produz a afabilidade e a doçura, que lhe são as formas de manifestar-se. Entretanto, nem sempre há que fiar nas aparências. A educação e a frequentação do mundo podem dar ao homem o verniz dessas qualidades. Quantos há cuja tingida bonomia não passa de máscara para o exterior, de uma roupagem cujo talhe primoroso dissimula as deformidades interiores! O mundo está cheio dessas criaturas que têm nos lábios o sorriso e no coração o veneno; que são brandas, desde que nada as agaste, mas que mordem à menor contrariedade; cuja língua, de ouro quando falam pela frente, se muda em dardo peçonhento, quando estão por detrás.

A essa classe também pertencem esses homens, de exterior benigno, que, tiranos domésticos, fazem que suas famílias e seus subordinados lhes sofram o peso do orgulho e do despotismo, como a quererem desforrar-se do constrangimento que, fora de casa, se impõem a si mesmos. Não se atrevendo a usar de autoridade para com os estranhos, que os chamariam à ordem, acham que pelo menos devem fazer-se temidos daqueles que lhes não podem resistir. Envaidecem-se de poderem dizer: “Aqui mando e sou obedecido”, sem lhes ocorrer que poderiam acrescentar: “E sou detestado.”

Não basta que dos lábios manem leite e mel. Se o coração de modo algum lhes está associado, só há hipocrisia. Aquele cuja afabilidade e doçura não são tingidas nunca se desmente: é o mesmo, tanto em sociedade, como na intimidade. Esse, ao demais, sabe que se, pelas aparências, se consegue enganar os homens, a Deus ninguém engana. – Lázaro. (Paris, 1861.) (ESE- cap. IX – Bem aventurados os que são brandos e pacíficos)

Parentela

Está no Evangelho de Mateus (12:46-50) que Jesus pregava a pequena multidão, em uma residência, quando foi informado de que sua mãe e seus irmãos o procuravam e desejavam falar-lhe. Perguntou o Mestre: - Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E, indicando seus discípulos: - Eis aí minha mãe e meus irmãos! Pois quem cumpre a vontade do meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe. Estranha essa reação de Jesus. Uma desconsideração para com sua família, particularmente sua mãe, por quem, em outras oportunidades, sempre demonstrou solicitude. Sua primeira aparição na vida pública, nas Bodas de Caná, deu-se ao lado de Maria. Sua última preocupação, na cruz, foi com Maria, que confiou aos cuidados do apóstolo João. Melhor que ninguém Jesus conhecia e cumpria o dever de honrar pai e mãe, consoante o princípio divino enunciado na Tábua da Lei, o que, obviamente, implica dar-lhes atenção e deles cuidar. Por que, então, essa aparente contradição? Não é difícil definir o que ocorreu. Suponhamos que eu estivesse em casa de amigos espíritas, falando a respeito da pluralidade dos mundos habitados. Alguém avisa: - Richard, sua mãe e seus irmãos estão aí fora e querem falar-lhe. 1 Publicado em O Reformador, fevereiro de 1997. Soaria mal. Mas se estivesse falando sobre os valores da fraternidade, considerando a existência da família universal, filhos de Deus que somos todos, então a observação surgiria como uma ilustração, sem causar estranheza. É provável que assim tenha ocorrido com Jesus. Como o episódio foi registrado fragmentariamente, a observação pode sugerir uma desconsideração com sua família. Há várias passagens evangélicas em que temos dificuldade para compreender seu pensamento, que nos parece enigmático e obscuro justamente porque houve um registro precário, sem que saibamos das circunstâncias que ensejaram a lição das explicações posteriores que ofereceu aos ouvintes. Consideremos também o problema da afinidade. Explica Kardec, em "O Evangelho segundo o Espiritismo", que as palavras de Jesus sugerem que há uma parentela carnal e uma parentela espiritual. Os parentes pela carne são aqueles que tem o mesmo sangue. Pais e filhos, irmãos e irmãs... Não raro, embora vivendo sob o mesmo teto, atendendo a variados compromissos, estão separados pela diferença de aptidões, de tendências, de estágio evolutivo... As ligações pela carne podem ser constrangedoras e atritantes, porquanto envolvem pessoas que devem caminhar juntas, mas não entram em acordo quanto aos caminhos ideais. Se não conseguem ajustar-se, exercitando entendimento, podem resvalar para a frustração e a rebeldia, transformando o lar em palco de lamentáveis dramas, onde se fazem presentes a traição, a agressão, a deserção... Já a parentela espiritual é diferente. São Espíritos que se identificam nos mesmos ideais, nas mesmas tendências, nos mesmos desejos de realização superior, estabelecendo preciosos elos de simpatia e afetividade. As ligações humanas podem romper-se com a morte, se determinadas apenas pelo sangue; mas as ligações espirituais, sustentadas pela afinidade, prolongam-se além-túmulo. Formam famílias ajustadas e felizes, cujos membros ajudam-se sempre, cada vez mais unidos, embora atendendo, eventualmente, a compromissos distintos. Pode ocorrer que um membro de nossa família espiritual não esteja reencarnado ao nosso lado, mas poderá ter assumido a posição de nosso mentor, o chamado anjo de guarda, que nos acompanha, estendendo sobre nós sua proteção e nos estimulando ao cumprimento de nossos deveres. Quem melhor que o membro qualificado da família espiritual poderia desempenhar com maior dedicação e eficiência semelhante tarefa? Imagino a esposa pensando: Agora sei por que é tão difícil conviver com aquela besta que se intitula meu marido. Certamente é um inimigo do passado que devo aturar para ver-me livre dele um dia. O marido: Ainda bem que aquela megera que se faz mãe de meus filhos pertence apenas à família humana. Não precisarei me preocupar com ela quando o diabo a levar. O filho:Desconfio não existir nenhuma ligação maior com meus pais. São uns quadrados que só complicam minha vida. Logo que puder darei no pé. Quero distância... Gente que pensa assim não entendeu bem o espírito da lição. A convivência com a parentela carnal não é um mero exercício de forçada tolerância para que nos livremos dela um dia. A finalidade maior é a harmonização. Trata-se de aprendermos a conviver bem com os familiares, criando elos de simpatia e afeto, ainda que sejamos diferentes. Se apenas toleramos aquele que está a nosso lado, guardando mágoas e ressentimentos, estaremos perdendo o nosso tempo e semeando dificuldades para o futuro. Certamente todos gostaríamos de pertencer à família de Jesus. Para tanto, segundo suas palavras, é preciso cumprir a vontade de Deus. Parece meio complexo, não é mesmo, amigo leitor? Saber o que Deus espera de nós... É assunto de uma vida para os filósofos. É desafio de muitas bibliotecas para os pesquisadores. Aqui entra a incomparável sabedoria do Mestre. Em breve enunciado ao alcance de todas as inteligências, explica que cumprir a vontade de Deus é fazer pelo semelhante todo o bem que gostaríamos de receber. Simples, não é mesmo? Simples e eficiente, principalmente no lar. Quando alguém se torna irmão de Jesus a família humana é invariavelmente beneficiada. Ninguém consegue ficar indiferente a exemplos diários de abnegação e sacrifício, compreensão e renúncia, bondade e discernimento. Quando, observando o Evangelho, deixamos de ver nos familiares a besta, a megera, o quadrado, e os enxergamos como a nossa oportunidade de colaborar com Deus na edificação de seus filhos, operam-se prodígios de entendimento em favor da mais gloriosa das realizações: Integrar-nos todos na família universal. (Publicado em O Reformador, fevereiro de 1997 - Richard Simonetti)

Receita contra o egoísmo

Procure esquecer o lado escuro da personalidade do próximo. Aprenda a ouvir com calma os longos apontamentos do seu irmão, sem o impulso de interromper-lhe a palavra.
Olvide a ilusão de que seus parentes são as melhores pessoas do mundo e de que a sua casa deve merecer privilégios especiais.

Não dispute a paternidade das ideias proveitosas, ainda mesmo que hajam atravessado o seu pensamento, de vez que a autoria de todos os serviços de elevação pertence, em seus alicerces, a Jesus, nosso Mestre e Senhor.

Não cultive referências à sua própria pessoa, para que a vaidade não faça ninho em seu coração.

Escute com serenidade e silêncio as observações ásperas ou amargas dos seus superiores hierárquicos e auxilie, com calma e bondade, aos companheiros ou subalternos, quando estiverem tocados pela nuvem da perturbação.

Receba com carinho as pessoas neurastênicas ou desarvoradas, vacinando o seu fígado e a sua cabeça contra a intemperança mental.

Abandone a toda espécie de crítica, compreendendo que você poderia estar no banco da reprovação.

Habitue-se a respeitar as criaturas que adotem pontos de vista diferentes dos seus e que elegeram um gênero de felicidade diversa da sua, para viverem na Terra com o necessário equilíbrio.

Honre a caridade em sua própria casa, ajudando, em primeiro lugar, aos seus próprios familiares, através do rigoroso desempenho de suas obrigações, para que você esteja realmente habilitado a servir ao Mundo e à Humanidade, hoje e sempre. (Mensagem de André Luiz, psicografada por Chico Xavier,
extraída do livro “Marcas do Caminho”, Editora IDEAL)

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Módulo III Sociedade: caridade, trabalho e amor.

Objetivo específico : Promover a prática da caridade na família, na sua mais ampla expressão, para que a transformação moral desta se reflita na sociedade como parâmetro de amor e trabalho.

Justificativa 1: Conclusão do Livro dos Espíritos

(...) Dizeis que desejais curar o vosso século de uma mania que ameaça invadir o mundo. Preferiríeis que o mundo fosse invadido pela incredulidade que procurais propagar? A que se deve atribuir o relaxamento dos laços de família e a maior parte das desordens que minam a sociedade, senão à ausência de toda crença? Demonstrando a existência e a imortalidade da alma, o Espiritismo reaviva a fé no futuro, levanta os ânimos abatidos, faz suportar com resignação as vicissitudes da vida. Ousaríeis chamar a isto um mal? Duas doutrinas se defrontam: uma, que nega o futuro; outra, que lhe proclama e prova a existência; uma, que nada explica, outra, que explica tudo e que, por isso mesmo, se dirige à razão; uma, que é a sanção do egoísmo; outra, que oferece base à justiça, à caridade e ao amor do próximo. A primeira somente mostra o presente e aniquila toda esperança; a segunda consola e desvenda o vasto campo do futuro. Qual a mais preciosa?.... (L.E – Conclusão, cap. I – Santo Agostinho - os grifos são nossos)

O progresso da Humanidade tem seu princípio na aplicação da lei de justiça, de amor e de caridade, lei que se funda na certeza do futuro. Tirai-lhe essa certeza e lhe tirareis a pedra fundamental. Dessa lei derivam todas as outras, porque ela encerra todas as condições da felicidade do homem. Só ela pode curar as chagas da sociedade. Comparando as idades e os povos, pode ele avaliar quanto a sua condição melhora, à medida que essa lei vai sendo mais bem compreendida e praticada. Ora, se, aplicando-a parcial e incompletamente, aufere o homem tanto bem, que não conseguirá quando fizer dela a base de todas as suas instituições sociais! Será isso possível? Certo, porquanto, desde que ele já deu dez passos, possível lhe é dar vinte e assim por diante.... (L.E – Conclusão, cap. IV – Santo Agostinho)

Justificativa 2: Caridade na Família

A caridade é uma virtude, deixada por Jesus para ser praticada por todos nós.
Mas na maioria das vezes nos perdemos e não sabemos praticá-la da forma que Jesus espera.

Temos que compreender que a caridade deve ser praticada sem interesses, devemos doar ao outro sem esperar nada em troca, nem mesmo o reconhecimento ou agradecimento
Desta maneira, quando formos ajudar alguém, procuremos ajudar sem esperar o retorno. Apenas ajude!

Lembremos que a Caridade praticada sem interesse eleva nosso espírito e deixa em nossos corações somente o Amor.

A melhor forma de começarmos a prática da caridade é em nosso lar, através da compreensão, paciência e muito Amor.

Porque o nosso Lar é a melhor escola para aprendermos a virtude da caridade.
Comece a praticar a caridade em seu lar, dialogando com seus familiares, compreendendo suas atitudes e principalmente, aceitando seu familiar do jeito que ele é, e não como você gostaria que ele fosse.

Desta forma a harmonia em seu lar estará estabelecida, e você estará colocando em prática a virtude da Caridade.

(Fonte: Informativo “A Caminho da Luz”)

Justificativa 3: Parentesco, filiação

205. A algumas pessoas a doutrina da reencarnação se afigura destruidora dos laços de família, com o fazê-los anteriores à existência atual.

“Ela os distende; não os destrói. Fundando-se o parentesco em afeições anteriores, menos precários são os laços existentes entre os membros de uma mesma família. Essa doutrina amplia os deveres da fraternidade, porquanto, no vosso vizinho, ou no vosso servo, pode achar-se um Espírito a quem tenhais estado presos pelos laços da consanguinidade.” (Livro dos Espíritos - Cap. IV, Da pluralidade das existências)

 

Textos de apoio

Relacionamentos sociais

Vivendo-se em sociedade, os relacionamentos entre as pessoas, em especial, e genericamente entre as famílias, constitui um desafio necessário à construção da harmonia do conjunto.

Quando apenas uma nota se encontra desafinada em um instrumento musical, o todo sinfônico padece as consequências perturbadoras da ocorrência.

Da mesma forma, quando alguém se desestrutura emocionalmente, ocorrem efeitos no grupo familiar, que, por sua vez, influenciam a sociedade como um todo.

... A vida em sociedade é necessária para o desenvolvimento ético e moral dos indivíduos responsáveis pelo grupo familiar, ensaiando passos para ampliar os relacionamentos com outros segmentos humanos.

Os relacionamentos, portanto, devem iniciar-se no próprio meio familiar, no interesse pelo que ocorre em relação ao grupo sanguíneo, no qual se renasceu, participando das atividades domésticas e das preocupações, procurando solucionar os problemas e as dificuldades, enfim, movimentando-se de maneira edificante na constelação do lar.

Mais facilmente se torna partir do simples para o complexo, da família para o vizinho, do grupo de interesses comuns para as aspirações da sociedade, oferecendo-se da maneira ativa para tornar melhores os dias da existência, em relação à própria como às que se referem às demais pessoas.

Nunca houve tanta necessidade de relacionamentos otimistas e fraternais entre as famílias terrestres como na atualidade.

Em face dos distúrbios que vigem em toda parte, impõe-se socialmente o objetivo de relações saudáveis, de forma que sejam modificados os fatores de risco entre os indivíduos, revivendo os interesses benéficos, ao invés da indiferença que se observa em todo lugar.

O que ocorre com o próximo, com o vizinho, é anúncio do que irá acontecer mais tarde com aquele que fica insensível à sua aflição, que evita ajudar, para não se comprometer, tornando-se antissocial, antifraterno, egoísta...

A vida é resultado do AMOR, e este TRABALHA em favor da SOLIDARIEDADE com todas as formas existentes: minerais, vegetais e animais.

Através, portanto, dos relacionamentos familiares, que facultam solidariedade e compreensão, instala-se o Reino de Deus nos corações, proporcionando real motivo para uma família ditosa, uma existência individual e grupal feliz. (Livro “Constelação familiar” – Divaldo Franco pelo espírito de Joanna de Ângelis - Cap. 16)

Caridade Entre Nós

A Doutrina espírita no amparo do Cristo de Deus é o campo de serviço, a que somos chamados para agir em Seu Nome.
Compreendemos que todos comparecemos ao engajamento, tais quais somos e como estamos: - em dívida ou em luta, carregando o fardo de nossas imperfeições e conflitos.
E, unicamente trabalhando, encontraremos o desgaste das forças que nos compete alijar de modo a servir com segurança.
Por isto mesmo, não nos esqueçamos:
Se a dificuldade aparece, sejamos o ponto que favoreça a supressão dos obstáculos, sem agravá-los;
Se a discórdia nos impele a tumulto, recorramos à paz sem menosprezo da verdade, colocando a verdade em amor, a fim de que o amor nos reúna acima de quaisquer circunstancias, procurando os objetivos que nos cabe atingir;
Se a sombra nos envolve, acendamos a luz da oração, por dentro de nós, com a certeza de que se a prece nem sempre modifica o ambiente externo de nossas realizações, sempre nos rearmonizará no íntimo da alma, induzindo-nos a ver com clareza e entendimento as questões do caminho;
Se a aprovação nos visita, usemos a paciência que o conhecimento da realidade nos infunde, reconhecendo que não bastará medir o sofrimento para extingui-lo e sim trabalhar incessantemente no auxílio aos outros, porque através dos outros, o Senhor nos estenderá o socorro necessário;
Se incompreensões nos examinam a capacidade de amar, convertamo-nos em companheiros mais dedicados ao bem daqueles irmãos que, por ventura, se nos façam instrumentos de melhoria espiritual;
Se a crítica surge à frente, busquemos anatomizá-la, a fim de assimilar-lhe as lições justas, desfazendo enganos ou refazendo tarefas, sinceramente dispostos a contribuir no sustento da harmonia geral;
Se recursos escasseiam a hora em nossas mãos, doemos um tanto mais de nós mesmos, em serviço e compreensão, no socorro às necessidades alheias, convencidos de que pelo idioma inarticulado do dever cumprido, Deus suscitará novos cooperadores e companheiros que nos reforçarão as possibilidades nas tarefas que nos reclamam presença e atividade, no dia a dia;
Se óbices, reparações, desuniões, fracassos, sofrimentos, desistências, desafios, lágrimas, deserções, conflitos e tribulações, sejam quais sejam, aparecerem juntos de nós, que a luz de nossa fé se transforme em nós no recurso preciso a fim de que os esquemas do Cristo se façam realizados por nós, com o esquecimento de nós mesmos.
Nesse caminho da caridade, devemos seguir todos, porque se fora dela não há recuperação para ninguém, fora do serviço que a expressa nenhum de nossos problemas encontrará solução.

(Francisco Cândido Xavier – Bezerra de Menezes – Caridade e ajuda)

Viver com naturalidade

“... Vivei com os homens de vossa época, como devem viver os homens...”

“... Fostes chamados a entrar em contato com espíritos de natureza diferente, de caracteres opostos; não choqueis nenhum daqueles com os quais vos encontrardes. Sede alegres, sede felizes, mas da alegria que dá uma boa consciência...” (Capítulo 17, item 10.)

Viver “felizes segundo as necessidades da Humanidade” (1) é viver com naturalidade, ou seja, participar efetivamente na sociedade usando nosso jeito natural de ser. Todos nós fomos abençoados com determinadas vocações, e o mundo em que vivemos precisa de nossa cooperação individual, para que possamos, ao mesmo tempo, desenvolver nossas faculdades inatas na prática social e aumentar nossa parcela de contribuição junto à comunidade em que vivemos, no aperfeiçoamento da humanidade. Possuímos talentos que precisam ser exercitados para que possam florescer, mas poucos de nós damos o real valor a essa tarefa. Esses mesmos talentos estão esperando nosso empenho de “se dar força”, a fim de colocá-los em plena ação no intercâmbio das relações com as pessoas e com as coisas. Não podemos então olvidar que viver no mundo é “entrar em contato com espíritos de natureza diferente, de caracteres opostos”, (2) reconhecendo que cada um dá o que tem, vive do jeito que pode, percebe da maneira que vê, admitindo que, por se tratar de tendências, talentos e vocações, todos nós temos a peculiar necessidade de “ser como somos” e “estar onde quisermos” na vida social. Talentos são impulsos naturais da alma adquiridos pela repetição de fatos semelhantes, através das vidas sucessivas. Vocação é a “voz que chama”, palavra oriunda do latim “vocatus”, que quer dizer chamado ou convocação. Pelo fato de a Natureza ser uma verdadeira “vitrina” de biodiversidade ou multiplicidade de seres, é que cada indivíduo tem suas próprias ferramentas, úteis para laborar na lida social. Todas as árvores são árvores, mas o pessegueiro não tem as mesmas peculiaridades do limoeiro, nem o abacateiro as da mangueira. Por isso, cada pessoa também se exprime em níveis diversos segundo as múltiplas formas com que a Sabedoria Divina nos plasmou na criação universal. Assim, todos somos convocados a “agir no social”, não com “um aspecto severo e lúgubre, repelindo os prazeres que as condições humanas permitem”, (3) mas felizes, fazendo uso de nossos potenciais e faculdades prazerosamente. Jesus de Nazaré vivia, à sua época, uma vida mística e distante da sociedade? O Cristo de Deus se integrava intensamente no social, “participando das festas de casamento”, (4) “do relacionamento fraterno, amando intensamente os amigos” (5) “Sem preconceito algum fazia visitas e tomava refeições em companhia de variadas criaturas”, (6) percorrendo cidades, campos e estradas sempre acompanhado dos amigos queridos e das multidões que O cercavam. Em vista disso, devemos entender que as leis do Criador deram às criaturas inclinações e aptidões íntimas e originais, para que elas pudessem conviver entre si, oferecendo a cada uma participação também original na vida comunitária de maneira “sui generis”. Devemos, sim, viver no mundo com a consciência de que somos espíritos eternos em crescimento e progresso, e de que o nosso ânimo de viver” em sociedade depende de colocarmos em prática as nossas verdadeiras capacidades e vocações da alma. Lembremo-nos, contudo, de que a palavra “ânimo” quer dizer “alma”, do latim “animus”, e de que devemos, cada um de nós, “viver com alma” no círculo social do mundo. (Livro Renovando Atitudes - Francisco do Espírito Santo Neto ditado pelo Espírito Hammed)

(1), (2) e (3) O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 17º, item 10. (4) João 2:1 e 2. (5) João 15:13. (6) Mateus 9:10.

Misérias Ocultas:

Pedimos aos que desejam dar esmolas, que o façam com benevolência, amando ao sofredor, pois ele espera algum gesto de fraternidade, que o rosto pode manifestar. Sejam gestos de alegria e vejam naquele que pede um irmão, que pode estar ocupando um lugar pelo qual já passaram, colhendo experiências. Dá a quem pede, sem especular o que ele foi ou o que está fazendo no mundo, para que a tua caridade não fique desmerecida diante da vida.

Alinhemo-nos na verdadeira caridade, que é sempre bondosa .e benévola, mansa e prestativa, cheia de cordialidade e, acima de tudo, é amor. Lembremo-nos que a ostentação estraga as vibrações de carinho da caridade. Esmola não é somente o ato de doar, é distribuir com alegria e sentir-se feliz no ato de ofertar. Recordemo-nos do ato de caridade do óbulo da viúva no Evangelho, para aprendermos a doar com benevolência.

Devemos ir ao encontro das misérias ocultas, esses infortúnios que fazem alguém sofrer calado, e ofertar no silêncio, dando com uma mão para que a outra não perceba, por não sabermos o que pode acontecer no amanhã em nossos caminhos.

Não devemos reprovar a esmola, devido à transição da humanidade de hoje, mas peçamos a Deus que nos dê forças para que o Evangelho cresça nos corações, no sentido de educar, instruindo a humanidade, e o pedir nas ruas cessará, com as oportunidades de trabalho para todas as criaturas, sem que haja orgulho e egoísmo. (O Livro dos Espíritos comentado pelo Espírito Miramez, Q.888, Que se deve pensar da esmola?)

 

 

A caridade material e a caridade moral

9. “Amemo-nos uns aos outros e façamos aos outros o que quereríamos nos fizessem eles.” Toda a religião, toda a moral se acham encerradas nestes dois preceitos. Se fossem observados nesse mundo, todos seríeis felizes: não mais aí ódios, nem ressentimentos. Direi ainda: não mais pobreza, porquanto, do supérfluo da mesa de cada rico, muitos pobres se alimentariam e não mais veríeis, nos quarteirões sombrios onde habitei durante a minha última encarnação, pobres mulheres arrastando consigo miseráveis crianças a quem tudo faltava. Ricos! pensai nisto um pouco. Auxiliai os infelizes o melhor que puderdes. Dai, para que Deus, um dia, vos retribua o bem que houverdes feito, para que tenhais, ao sairdes do vosso invólucro terreno, um cortejo de Espíritos agradecidos, a receber-vos no limiar de um mundo mais ditoso. Se pudésseis saber da alegria que experimentei ao encontrar no Além aqueles a quem, na minha última existência, me fora dado servir!... Amai, portanto, o vosso próximo; amai-o como a vós mesmos, pois já sabeis, agora, que, repelindo um desgraçado, estareis, quiçá, afastando de vós um irmão, um pai, um amigo vosso de outrora. Se assim for, de que desespero não vos sentireis presa, ao reconhecê-lo no mundo dos Espíritos! Desejo compreendais bem o que seja a caridade moral, que todos podem praticar, que nada custa, materialmente falando, porém, que é a mais difícil de exercer-se. A caridade moral consiste em se suportarem umas às outras as criaturas e é o que menos fazeis nesse mundo inferior, onde vos achais, por agora, encarnados. Grande mérito há, crede-me, em um homem saber calar-se, deixando fale outro mais tolo do que ele. É um gênero de caridade isso. Saber ser surdo quando uma palavra zombeteira se escapa de uma boca habituada a escarnecer; não ver o sorriso de desdém com que vos recebem pessoas que, muitas vezes erradamente, se supõem acima de vós, quando na vida espírita, a única real, estão, não raro, muito abaixo, constitui merecimento, não do ponto de vista da humildade, mas do da caridade, porquanto não dar atenção ao mau proceder de outrem é caridade moral. Essa caridade, no entanto, não deve obstar à outra. Tende, porém, cuidado, principalmente em não tratar com desprezo o vosso semelhante. Lembrai-vos de tudo o que já vos tenho dito: Tende presente sempre que, repelindo um pobre, talvez repilais um Espírito que vos foi caro e que, no momento, se encontra em posição inferior à vossa. Encontrei aqui um dos pobres da Terra, a quem, por felicidade, eu pudera auxiliar algumas vezes, e ao qual, a meu turno, tenho agora de implorar auxílio. Lembrai-vos de que Jesus disse que todos somos irmãos e pensai sempre nisso, antes de repelirdes o leproso ou o mendigo. Adeus: pensai nos que sofrem e orai. – Irmã Rosália. (Paris, 1860.) A beneficência (livro: “O Evangelho Segundo O Espiritismo” – cap. XIII, item 11) 11. A beneficência, meus amigos, dar-vos-á nesse mundo os mais puros e suaves deleites, as alegrias do coração, que nem o remorso, nem a indiferença perturbam. Oh! Pudésseis compreender tudo o que de grande e de agradável encerra a generosidade das almas belas, sentimento 55 que faz olhe a criatura as outras como olha a si mesma, e se dispa, jubilosa, para vestir o seu irmão! Pudésseis, meus amigos, ter por única ocupação tornar felizes os outros! Quais as festas mundanas que podereis comparar às que celebrais quando, como representantes da Divindade, levais a alegria a essas famílias que da vida apenas conhecem as vicissitudes e as amarguras, quando vedes nelas os semblantes macerados refulgirem subitamente de esperança, porque, faltos de pão, os desgraçados ouviam seus filhinhos, ignorantes de que viver é sofrer, gritando repetidamente, a chorar, estas palavras, que, como agudo punhal, se lhes enterravam nos corações maternos: “Estou com fome!...” Oh! Compreendei quão deliciosas são as impressões que recebe aquele que vê renascer a alegria onde, um momento antes, só havia desespero! Compreendei as obrigações que tendes para com os vossos irmãos! Ide, ide ao encontro do infortúnio; ide em socorro, sobretudo, das misérias ocultas, por serem as mais dolorosas! Ide, meus bem-amados, e tende em mente estas palavras do Salvador: “Quando vestirdes a um destes pequeninos, lembraivos de que é a mim que o fazeis!” Caridade! Sublime palavra que sintetiza todas as virtudes, és tu que hás de conduzir os povos à felicidade. Praticando-te, criarão eles para si infinitos gozos no futuro e, enquanto se acharem exilados na Terra, tu lhes serás a consolação, o prelibar das alegrias de que fruirão mais tarde, quando se encontrarem reunidos no seio do Deus de amor. Foste tu, virtude divina, que me proporcionaste os únicos momentos de satisfação de que gozei na Terra. Que os meus irmãos encarnados creiam na palavra do amigo que lhes fala, dizendo-lhes: É na caridade que deveis procurar a paz do coração, o contentamento da alma, o remédio para as aflições da vida. Oh! quando estiverdes a ponto de acusar a Deus, lançai um olhar para baixo de vós; vede que de misérias a aliviar, que de pobres crianças sem família, que de velhos sem qualquer mão amiga que os ampare e lhes feche os olhos quando a morte os reclame! Quanto bem a fazer! Oh! não vos queixeis; ao contrário, agradecei a Deus e prodigalizai a mancheias a vossa simpatia, o vosso amor, o vosso dinheiro por todos os que, deserdados dos bens desse mundo, enlanguescem na dor e no insulamento! Colhereis nesse mundo bem doces alegrias e, mais tarde... só Deus o sabe!... – Adolfo, bispo de Argel. (Bordéus, 1861.) livro: “O Evangelho Segundo O Espiritismo” – cap. XIII, item 9)

Diferentes maneiras de fazer a caridade
(Sociedade Espírita de Lyon.)

____ Nota. A comunicação seguinte foi obtida em nossa presença, no grupo de Perrache:

____ Sim, meus amigos, virei sempre ao vosso meio, cada vez que aí for chamado. Ontem, estive muito feliz por vós, quando ouvi o autor dos livros que vos abriram os olhos testemunhar o desejo de vos ver reunidos, para vos dirigir benevolentes palavras. Foi para todos, ao mesmo tempo, um grande ensinamento e uma poderosa lembrança. Somente quando vos falou de amor e caridade, ouvi vários dentre vós dizerem a si mesmos:

  • Como fazer a caridade? Frequentemente, não tenho mesmo o necessário.

A caridade, meus amigos, se faz de muitas maneiras; podeis fazer a caridade em pensamentos, em palavras, e em ações.

  • Em pensamento:
    Orando pelos pobres abandonados, que morreram sem mesmo terem visto a luz; uma prece de coração os alivia.
  • Em palavras: dirigindo aos vossos companheiros de todos os dias alguns bons conselhos;

o dizei aos homens amargurados pelo desespero, as privações, e que blasfemam o nome do Altíssimo: "Eu era como vós; eu sofria, era infeliz, mas acreditei no Espiritismo, e vede, estou radiante agora."

o Aos velhos que vos dirão: "É inútil; estou no fim de minha carreira; morrerei como vivi." Dizei a esses: "Deus tem, por todos vós, uma igual justiça; lembrai-vos dos obreiros da décima hora."

o Às criancinhas que, já viciadas pelo seu ambiente, vão vagar pelos caminhos, prestes a sucumbirem às más tentações, dizei-lhes: "Deus vos vê, minhas queridas crianças," e não temais repetir-lhes, frequentemente, esta doce palavra; ela acabará por germinar em sua jovem inteligência, e em lugar de pequenos vagabundos, tereis feito homens. Está ainda aí uma caridade.

§ Vários dentre vós também dizem: "Ora, somos tão numerosos sobre a Terra, Deus não pode nos ver a todos." Escutai bem isto, meus amigos: quando estais sobre o cume de uma montanha, é que o vosso olhar não abarca milhões de grãos de areia que formam essa montanha? Pois bem! Deus vos vê do mesmo modo; deixa-vos o vosso livre arbítrio, como deixais esses grãos de areia livres de ir ao sabor do vento que os dispersa; somente Deus, em sua misericórdia infinita, colocou no fundo do vosso coração uma sentinela vigilante, que se chama a consciência. Escutai-a; ela não vos dará senão bons conselhos. Por vezes a entorpeceis opondo-lhe o Espírito do mal; ela então se cala; mas ficai seguros de que a pobre abandonada se fará ouvir logo que tiverdes deixado perceber a sombra do remorso. Escutai-a; interrogai-a e, frequentemente, vos achareis consolados com os conselhos que dela recebestes.

Meus amigos, a cada regimento novo o general remete uma bandeira; eu vos dou, eu, esta máxima do Cristo: "Amai-vos uns aos outros." Praticai esta máxima; reuni-vos todos ao redor deste estandarte, e dele recebereis a felicidade e a consolação."

Vosso Espírito protetor

Uma realeza terrestre

8. Quem melhor do que eu pode compreender a verdade destas palavras de Nosso Senhor: “O meu reino não é deste mundo”? O orgulho me perdeu na Terra. Quem, pois, compreenderia o nenhum valor dos reinos da Terra, se eu o não compreendia? Que trouxe eu comigo da minha realeza terrena? Nada, absolutamente nada. E, como que para tornar mais terrível a lição, ela nem sequer me acompanhou até o túmulo! Rainha entre os homens, como rainha julguei que penetrasse no reino dos céus! Que desilusão! Que humilhação, quando, em vez de ser recebida aqui qual soberana, vi acima de mim, mas muito acima, homens que eu julgava insignificantes e aos quais desprezava, por não terem sangue nobre! Oh! como então compreendi a esterilidade das honras e grandezas que com tanta avidez se requestam na Terra!

Para se granjear um lugar neste reino, são necessárias a abnegação, a humildade, a caridade em toda a sua celeste prática, a benevolência para com todos. Não se vos pergunta o que fostes, nem que posição ocupastes, mas que bem fizestes, quantas lágrimas enxugastes.

Oh! Jesus, tu o disseste, teu reino não é deste mundo, porque é preciso sofrer para chegar ao céu, de onde os degraus de um trono a ninguém aproximam. A ele só conduzem as veredas mais penosas da vida. Procurai-lhe, pois, o caminho, através das urzes e dos espinhos, não por entre as flores.

Correm os homens por alcançar os bens terrestres, como se os houvessem de guardar para sempre. Aqui, porém, todas as ilusões se somem. Cedo se apercebem eles de que apenas apanharam uma sombra e desprezaram os únicos bens reais e duradouros, os únicos que lhes aproveitam na morada celeste, os únicos que lhes podem facultar acesso a esta.

Compadecei-vos dos que não ganharam o reino dos céus; ajudai-os com as vossas preces, porquanto a prece aproxima do Altíssimo o homem; é o traço de união entre o céu e a Terra: não o esqueçais. – Uma Rainha de França. (Havre, 1863.) (ESE - Meu reino não é deste mundo)

A Beneficência

[…]Caridade! Sublime palavra que sintetiza todas as virtudes, és tu que hás de conduzir os povos à felicidade. Praticando-te, criarão eles para si infinitos gozos no futuro e, quando se acharem exilados na Terra, tu lhes serás a consolação, o prelibar das alegrias de que fruirão mais tarde, quando se encontrarem reunidos no seio do Deus de amor. Foste tu, virtude divina, que me proporcionaste os únicos momentos de satisfação de que gozei na Terra. Que os meus irmãos encarnados creiam na palavra do amigo que lhes fala, dizendo-lhes: “É na caridade que deveis procurar a paz do coração, o contentamento da alma, o remédio para as aflições da vida.” Oh! quando estiverdes a ponto de acusar a Deus, lançai um olhar para baixo de vós; vede que de misérias a aliviar, que de pobres crianças sem família, que de velhos sem qualquer mão amiga que os ampare e lhes feche os olhos quando a morte os reclame! Quanto bem a fazer! Oh! não vos queixeis; ao contrário, agradecei a Deus e prodigalizai a mancheias a vossa simpatia, o vosso amor, o vosso dinheiro por todos os que, deserdados dos bens desse mundo, enlanguescem na dor e no insulamento! Colhereis nesse mundo bem doces alegrias e, mais tarde… só Deus o sabe!… – Adolfo, bispo de Argel. (Bordeaux, 1861.) (Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap.XIII , item 11)

Os olhos do Amor

“Ainda quando eu falasse todas as línguas dos homens, e mesmo a língua dos anjos, se não tivesse caridade não seria senão como um bronze sonante...” “... A caridade é paciente; é doce e benfazeja; a caridade não é invejosa; não é temerária e precipitada; não se enche de orgulho; não é desdenhosa; não procura seus próprios interesses; não se melindra e não se irrita com nada...” (Capítulo 15, item 6.)

Quando Paulo de Tarso definiu a verdadeira caridade, deixando implícito ser a “reunião de todas as qualidades do coração”, isto é, o “amor”, diferenciou-a completamente da prestação de serviços aos outros, da distribuição de esmolas, da assistência social, da ajuda patológica aos dependentes afetivos, de compensações de baixa estima, ou de tudo que se referia a atitudes exteriores, sem qualquer envolvimento do amor verdadeiro. Reforçou seu conceito acrescentando que: “E quando tivesse distribuído meus bens para alimentar os pobres, e tivesse entregue meu corpo para ser queimado, se não tivesse caridade, tudo isso não me serviria de nada”. Muitas vezes, “doamos coisas” ou “favorecemos pessoas”, a fim de proporcionar a nós mesmos, temporariamente, uma sensação de bem-estar, de poder íntimo ou de vaidade pessoal, como que compensamos nossos desajustes emocionais e complexos de inferioridade. São sentimentos transitórios e artificiais que persistem entre as criaturas, que, por não se encontrarem satisfeitas consigo mesmas, trazem profunda desconsideração e desgosto, e supervalorizou-se fazendo “algo para o próximo”, para provar aos outros que são boas, importantes e merecedoras de atenção. Na realidade, caridade é amor, e amor é a divina presença de Deus em nós. Raio com que Ele modela tudo, o amor é considerado a real estrutura da vida e a base de toda a Lei Universal. É imprescindível esclarecermos que há inúmeras formas de focalizar a caridade, e nós nos reportaremos a ela como o “amor-essência” - energias que emergem de nossa natureza mais profunda: a Onipresença Divina que habita em tudo. Minerais, vegetais, animais e seres humanos, ao mesmo tempo que vibram também recebem essa “vitalidade amorosa”, num fenômeno de trocas incessantes. Um mineral de rocha permanecera como tal, enquanto a “atração” e a “tendência” de seus átomos e moléculas se mantiverem atraídos e integrados uns aos outros. Tais “atrações” constituem os primeiros estágios dessa energia do amor nos seres primitivos. Semelhante “poder atrativo” prospera e se movimenta em cada fase da vida, de conformidade com o grau evolutivo em que se encontram os elementos e as criaturas em ascensão. Observemos a Natureza: propensões, gostos e identificações com as quais se particularizam cada ser do Universo, inclusive a própria criatura humana, são movimentações dessa “força de predileção”, nomeada comumente por “aspiração amorosa”.

Segundo o apóstolo João, “Deus é Amor: aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele”. (1) Consequentemente, nós, herdeiros e filhos Dele, somos Amor, criados por esse plasma divino; portanto, somos oriundos do “Amor Incomensurável”, que sustenta e dirige suas criaturas e criações universais. Todos nós estamos nos descobrindo no processo dinâmico da evolução, que se assemelha a um gradativo despetalar de camadas e mais camadas; inicia-se pelas mais densificadas até atingir “o cerne” - nosso âmago amoroso. “Deus fez os homens à sua imagem e semelhança” (2) e, dessa forma, somente conheceremos o verdadeiro sentido da caridade como amor criativo, integrador e generoso, quando tivermos uma clara consciência de nós mesmos. No momento em que passamos a identificar nos outros a mesma essência de amor da qual eles e nós somos feitos, seremos capazes de discernir o que é o sentimento de caridade. Seja jovens, velhos, crianças, sadios ou doentes, seja homens ou mulheres, se passarmos a amá-los incondicionalmente, como nos exemplificou Jesus, Nosso Mestre e Senhor, aí estaremos completamente integrados na caridade. Caridade não consiste em assumir e comandar sentimentos, decisões, bem-estar, problemas, evolução e destino das pessoas, aquilo, enfim, que elas podem e devem fazer por si mesmas, porque quando tentamos reduzir as dificuldades delas, responsabilizando-nos por seus atos, estamos também impedindo seu real crescimento e amadurecimento, somente alcançados através das experiências que precisam enfrentar. Assim, distorcemos a genuína mensagem da caridade, do amor ou da doação verdadeira. Encontramos ainda na 1a Epístola de João: “Não escrevo um novo mandamento, mas sim aquele que tivemos desde o princípio: que amemos uns aos outros”. (3) Quanto mais limitada e particularizada for a maneira de viver o amor, menor será nossa consciência de que todos os seres humanos têm uma capacidade ilimitada de amar ao mesmo tempo muitas pessoas. Quanto mais o amor for compartilhado com os outros, mais nos desenvolveremos e nos plenificaremos na vida. Olhar os outros com os olhos do amor é a grande proposta da caridade. O verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus, era: “Benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias, perdão das ofensas”. (4) Caridade é amor, e não há amor onde não houver “profundo respeito” aos seres humanos. Se substituirmos na conceituação de perdão” por Jesus as palavras “benevolência”, “indulgência e “amor-respeito”, compreenderemos realmente esse sentimento incondicional do Mestre por todas as criaturas. “Amor-respeito para com todos”, “Amor-respeito para com as imperfeições alheias”, “Amor-respeito aos ofensores”: aqui estão as regras básicas da conduta do Cristo. Não olvidemos, porém, que respeitar os outros não quer dizer “ser conivente” ou “manter cumplicidade”. Concluímos ajustando o texto de Paulo ao nosso melhor entendimento: “Ainda que eu falasse a língua dos homens e também a dos anjos; ainda que eu tivesse o dom da profecia e penetrasse todos os mistérios; ainda que eu dominasse a ciência e tivesse uma fé tão grande que removesse montanhas, tudo isso não me serviria de nada se não tivesse amor-respeito aos seres humanos”. (Livro Renovando Atitudes - Francisco do Espírito Santo Neto ditado pelo Espírito Hammed)

(1) 1º João 4:16. (2) Gênesis 1:26. (3) 1º João 3:11. (4) Questão 886, O Livro dos Espíritos.

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Páginas de mensagens sobre caridade

Com caridade

Todas as vossas coisas sejam feitas com caridade. – Paulo. (1ª Epístola aos Coríntios, 16:14.)

Ainda existe muita gente que não entende outra caridade, além daquela que se veste de trajes humildes aos sábados ou domingos para repartir algum pão com os desfavorecidos da sorte, que aguarda calamidades públicas para manifestar-se ou que lança apelos comovedores nos cartazes da imprensa.

Não podemos discutir as intenções louváveis desse ou daquele grupo de pessoas; contudo, cabe-nos reconhecer que o dom sublime é de sublime extensão.

Paulo indica que a caridade, expressando amor cristão, deve abranger todas as manifestações de nossa vida.

Estender a mão e distribuir reconforto é iniciar a execução da virtude excelsa. Todas as potências do espírito, no entanto, devem ajustar-se ao preceito divino, porque há caridade em falar e ouvir, impedir e favorecer, esquecer e recordar. Tempo virá em que a boca, os ouvidos e os pés serão aliados das mãos fraternas nos serviços do bem supremo.

Cada pessoa, como cada coisa, necessita da contribuição da bondade, de modo particular.

Homens que dirigem ou que obedecem reclamam-lhe o concurso santo, a fim de que sejam esclarecidos no departamento da Casa de Deus, em que se encontram. Sem amor sublimado, haverá sempre obscuridade, gerando complicações.

Desempenha tuas mínimas tarefas com caridade, desde agora. Se não encontras retribuição espiritual, no domínio do entendimento, em sentido imediato, sabes que o Pai acompanha todos os filhos devotadamente.

Há pedras e espinheiros? Fixa-te em Jesus e passa.

(Livro PÃO NOSSO – EMMANUEL / Chico Xavier – 31 – Com caridade)

 

 

Caridade
Caridade é, sobretudo, amizade.
Para o faminto - é o prato de sopa fraterna.
Para o triste - é a palavra consoladora.
Para o mau - é a paciência com que nos compete auxiliá-lo.
Para o desesperado - é o auxílio do coração.
Para o ignorante - é o ensino despretensioso.
Para o ingrato - é o esquecimento.
Para o enfermo - é a visita pessoal.
Para o estudante - é o concurso no aprendizado.
Para a criança - é a proteção construtiva.
Para o velho - é o braço irmão.
Para o inimigo - é o silêncio.
Para o amigo - é o estímulo.
Para o transviado - é o entendimento.
Para o orgulhoso - é a humildade.
Para o colérico - é a calma.
Para o preguiçoso - é o trabalho.
Para o impulsivo - é a serenidade.
Para o leviano - é a tolerância.
Para o deserdado da Terra - é a expressão de carinho.
Caridade é o Amor, em manifestação incessante e crescente.
É o sol de mil faces, brilhando para todos, e o gênio de mil mãos, amparando, indistintamente, na obra do bem, onde quer que se encontre, entre justos e injustos, bons e maus, felizes e infelizes, porque, onde estiver o Espírito do Senhor aí se derrama a claridade constante dela, a benefício do mundo inteiro.
(Pelo Espírito Emmanuel. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Livro Viajor. Lição nº 16)

Caridade essencial

“Nisto consiste o amor: em viver conforme seus mandamentos. E o primeiro mandamento, como aprendestes desde o início, é o que vivais no amor”

(II João 1:6)

Em todos os lugares e situações da vida, a caridade será sempre a fonte divina das bênçãos do Senhor.

Quem dá o pão ao faminto e água ao sedento, remédio ao enfermo e luz ao ignorante, está colaborando na edificação do Reino divino, em qualquer setor da existência ou da fé religiosa a que foi chamado.

A voz compassiva e fraternal que ilumina o espírito é irmã das mãos que alimentam o corpo.

Assistência, medicação e ensinamento constituem modalidades santas da caridade generosa que executa os programas do bem. São vestiduras diferentes de uma virtude única. Conjugam-se e completam-se num todo nobre e digno.

Ninguém pode assistir a outrem, com eficiência, se não procurou a edificação de si mesmo; ninguém medicará, com proveito, se não adquiriu o espírito de boa vontade para com os que necessitam, e ninguém ensinará, com segurança, se não possui a seu favor os atos de amor ao próximo, no que se refira à compreensão e ao auxílio fraternais.

Em razão disso, as menores manifestações de caridade, nascidas da sincera disposição de servir com Jesus, são atividades sagradas e indiscutíveis. Em todos os lugares, serão sempre sublimes luzes da fraternidade, disseminando alegria, esperança, gratidão, conforto e intercessões benditas.

Antes, porém, da caridade que se manifesta exteriormente nos variados setores da vida, pratiquemos a caridade essencial, sem o que não poderemos efetuar a edificação e a redenção de nós mesmos. Trata-se da caridade de pensarmos, falarmos e agirmos, segundo os ensinamentos do divino Mestre, no Evangelho. É a caridade de vivermos verdadeiramente nele para que Ele viva em nós. Sem esta, poderemos levar a efeito grandes serviços externos, alcançar intercessões valiosas, em nosso benefício, espalhar notáveis obras de pedra, mas, dentro de nós mesmos, nos instantes de supremo testemunho na fé, estaremos vazios e desolados, na condição de mendigos de luz. (Livro Vinha de luz. Cap. 110 – ditado por Emmanuel a Francisco C. Xavier)

N a hora da caridade

Não te furtarás ao serviço de emenda e nem recusarás a constrangedora obrigação de restaurar a realidade, mas unge o coração de brandura para corrigir abençoando e orientar construindo!…
A dificuldade do próximo é intimação à beneficência, entanto, assim, como é preciso condimentar de amor o pão que se dá para que ele não amargue a boca que o recebe, é indispensável também temperar de misericórdia o ensinamento que se ministra para que a palavra esclarecedora não perturbe o ouvido que o recolhe.
Na hora da caridade, não reflitas apenas naquilo que os irmãos necessitados devem fazer!…
Considera igualmente aquilo que não lhes foi possível fazer ainda!…
Coteja as tuas oportunidades com as deles.
Quantos atravessaram a infância sem a refeição de horário certo e quantos se desenvolveram, carregando moléstias ocultas!
Quantos suspiraram em vão pela riqueza do alfabeto, desde cedo escravizados a tarefas de sacrifício e quantos outros cresceram em antros de sombra, sob as hipnoses da viciação e do crime!…
Quantos desejaram ser bons e foram arrastados à delinquência no instante justo em que o anseio de retidão lhes aflorava na consciência e quantos foram colhidos de chofre nos processos obsessivos que os impeliram a resvaladouros fatais!
Soma as tuas facilidades, revisa as bênçãos que usufruis, enumera as vantagens e os tesouros de afeto que te coroam os dias e socorre aos companheiros desfalecentes da estrada, buscando soerguê-los ao teu nível de entendimento e conforto.
Na hora da caridade, emudece as humanas contradições e auxilia sempre, mas sempre clareando a razão com a luz do amor fraterno, ainda mesmo quando a verdade te exija duros encargos, semelhantes às dolorosas tarefas da cirurgia.

(Pelo Espírito Emmanuel. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Livro: Coragem. Lição nº 09. Página 31)

 

 

Fé e caridade

Fé sem caridade é a lâmpada sem o reservatório da força.
Caridade sem fé representa a usina sem a lâmpada.
Quem confia em Deus e não ajuda aos semelhantes recolhe-se na contemplação improdutiva à maneira de peça valiosa, mumificada em museu brilhante.
Quem pretende ajudar ao próximo, sem confiança em Deus, condena-se à secura, perdendo o contato com o suprimento da energia divina.
A fé constitui nosso patrimônio intimo de bênçãos.
A caridade é o canal que as espalha, enriquecendo-nos o caminho.
Uma confere-nos visão, a outra intensifica-nos o crescimento espiritual para a Eternidade.
Sem a primeira, caminharíamos nas sombras.
Sem a segunda, permaneceríamos relegados ao poço escuro do nosso egoísmo destruidor.
Jesus foi o protótipo da fé, quando afirmou: – Eu e meu Pai somos Um. E o nosso Divino Mestre foi ainda o
paradigma da caridade quando nos ensinou: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.
Desse modo, se somos efetivamente os aprendizes do Evangelho Redivivo, unamos o ideal superior e a ação edificante, em nossos sentimentos e atos de cada dia, e busquemos fundir numa só luz renovadora a fé e a caridade, em nossos corações, desde hoje.

(Espírito: EMMANUEL, médium: Francisco Cândido Xavier- Livro: Escrínio de Luz)

Em Torno da Caridade

Não olvides que a caridade, é o coração no teu gesto.

Espalharás o ouro a mancheias, entretanto, se não sabes emoldurar de carinho a tua manifestação de bondade, as moedas de tua bolsa serão, muitas vezes, escárnio e humilhação, sobre a dor dos infortunados.

Ensinarás a verdade, com segurança, contudo, se a tua palavra não estiver temperada com a brandura da paciência, quase sempre, o teu verbo, apesar de nobre e culto, não passará de azorrague no semblante ferido de teus irmãos.

Recorda que a Providência Infinita nos estende o socorro do Céu de mil modos, em cada instante do dia, e descerrando tua alma à Grande Compreensão, não admitas que a sombra te avilte o culto da gentileza.

Muitos dão, mas raros sabem dar.

O pão, misturado de reprimendas, amarga mais que o fel e a lição, que se ajusta a críticas e reproches, pode ser comparada à tela preciosa que a ironia apedreja.

A beneficência não se levanta por bandeira de superfície.

Vale mais a tua frase, vasada em solidariedade e entendimento, para o companheiro que jaz sob o gelo de desanimo, que todos os tesouros amoedados da Terra.

Vale mais teu braço amigo ao irmão caído no precipício do sofrimento, que a mais ampla biblioteca do mundo em cintilações verbalistas na tua boca.

Lembra-te de que só o amor pode curar as chagas da penúria e da ignorância e aprende a doá-lo aos que te rodeiam, nas maneiras em que te exprimes, porque a caridade não é uma voz que fala, mas um poder que irradia.

Abraça a fé que te enobrece a existência e segue o valioso roteiro que as sua revelações te traçam à luta, mas não te esqueças de içar o coração, na marcha cotidiana, para que a tua vida seja, realmente, um poema de luz e fraternidade, consoante a lição do poema de luz e fraternidade, consoante a lição do Mestre Divino que, ainda mesmo na cruz, foi o amor generoso e triunfante, atravessando o vale escuro da morte, para convertê-la em eterna ressurreição.

(Pelo Espírito Emmanuel- XAVIER, Francisco Cândido. Caridade. Espíritos Diversos. IDE. Capítulo 24)

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Textos sobre caridade no evangelho

CARIDADE E CONSOLAÇÃO - O JUGO LEVE

1. Vinde a mim, todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, que eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei comigo que sou brando e humilde de coração e achareis repouso para vossas almas, pois é suave o meu jugo e leve o meu fardo. (S. MATEUS, 11:28 a 30.)

2. Todos os sofrimentos: misérias, decepções, dores físicas, perda de seres amados, encontram consolação em a fé no futuro, em a confiança na justiça de Deus, que o Cristo veio ensinar aos homens. Sobre aquele que, ao contrário, nada espera após esta vida, ou que simplesmente duvida, as aflições caem com todo o seu peso e nenhuma esperança lhe mitiga o amargor. Foi isso que levou Jesus a dizer:

“Vinde a mim todos vós que estais fatigados, que eu vos aliviarei.”

Entretanto, faz depender de uma condição a sua assistência e a felicidade que promete aos aflitos. Essa condição está na lei por ele ensinada. Seu jugo é a observância dessa lei; mas, esse jugo é leve e a lei é suave, pois que apenas impõe, como dever, o amor e a caridade. (ESE – cap. VI O Cristo Consolador)

CARIDADE E BRANDURA - INJÚRIAS E VIOLÊNCIAS

1. Bem-aventurados os que são brandos, porque possuirão a Terra. (S. MATEUS, 5:5.)

2. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. (S. MATEUS, 5:9.)

3. Sabeis que foi dito aos antigos: Não matareis e quem quer que mate merecerá condenação pelo juízo. – Eu, porém, vos digo que quem quer que se puser em cólera contra seu irmão merecerá condenação no juízo; que aquele que disser a seu irmão: Raca, merecerá condenado pelo conselho; e que aquele que lhe disser: És louco, merecerá condenado ao fogo do inferno. (S. MATEUS, 5:21 e 22.)

4. Por estas máximas, Jesus faz da brandura, da moderação, da mansuetude, da afabilidade e da paciência, uma lei. Condena, por conseguinte, a violência, a cólera e até toda expressão descortês de que alguém possa usar para com seus semelhantes. Raca, entre os hebreus, era um termo desdenhoso que significava – homem que não vale nada, e se pronunciava cuspindo e virando para o lado a cabeça. Vai mesmo mais longe, pois que ameaça com o fogo do inferno aquele que disser a seu irmão: És louco.

Evidente se torna que aqui, como em todas as circunstâncias, a intenção agrava ou atenua a falta; mas, em que pode uma simples palavra revestir-se de tanta gravidade que mereça tão severa reprovação? É que toda palavra ofensiva exprime um sentimento contrário à lei do amor e da caridade que deve presidir às relações entre os homens e manter entre eles a concórdia e a união; é que constitui um golpe desferido na benevolência recíproca e na fraternidade; é que entretém o ódio e a animosidade; é, enfim, que, depois da humildade para com Deus, a caridade para com o próximo é a lei primeira de todo cristão. (ESE – cap. IX – Bem aventurados os que são brandos e pacíficos)

CARIDADE E PERDÃO - PERDOAI, PARA QUE DEUS VOS PERDOE

1. Bem-aventurados os que são misericordiosos, porque obterão misericórdia. (S. MATEUS, 5:7.)

2. Se perdoardes aos homens as faltas que cometerem contra vós, também vosso Pai celestial vos perdoará os pecados; – mas, se não perdoardes aos homens quando vos tenham ofendido, vosso Pai celestial também não vos perdoará os pecados. (S. MATEUS, 6:14 e 15.)

3. Se contra vós pecou vosso irmão, ide fazer-lhe sentir a falta em particular, a sós com ele; se vos atender, tereis ganho o vosso irmão. – Então, aproximando-se dele, disse-lhe Pedro: “Senhor, quantas vezes perdoarei a meu irmão, quando houver pecado contra mim? Até sete vezes?” – Respondeu-lhe Jesus: “Não vos digo que perdoeis até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes.” (S. MATEUS, 18:15, 21 e 22.)

4. A misericórdia é o complemento da brandura, porquanto aquele que não for misericordioso não poderá ser brando e pacífico. Ela consiste no esquecimento e no perdão das ofensas. O ódio e o rancor denotam alma sem elevação, nem grandeza. O esquecimento das ofensas é próprio da alma elevada, que paira acima dos golpes que lhe possam desferir. Uma é sempre ansiosa, de sombria suscetibilidade e cheia de fel; a outra é calma, toda mansidão e caridade.

Ai daquele que diz: nunca perdoarei. Esse, se não for condenado pelos homens, sê-lo-á por Deus. Com que direito reclamaria ele o perdão de suas próprias faltas, se não perdoa as dos outros? Jesus nos ensina que a misericórdia não deve ter limites, quando diz que cada um perdoe ao seu irmão, não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes.

Há, porém, duas maneiras bem diferentes de perdoar: uma, grande, nobre, verdadeiramente generosa, sem pensamento oculto, que evita, com delicadeza, ferir o amor-próprio e a suscetibilidade do adversário, ainda quando este último nenhuma justificativa possa ter; a segunda é a em que o ofendido, ou aquele que tal se julga, impõe ao outro condições humilhantes e lhe faz sentir o peso de um perdão que irrita, em vez de acalmar; se estende a mão ao ofensor, não o faz com benevolência, mas com ostentação, a fim de poder dizer a toda gente: vede como sou generoso! Nessas circunstâncias, é impossível uma reconciliação sincera de parte a parte. Não, não há aí generosidade; há apenas uma forma de satisfazer ao orgulho. Em toda contenda, aquele que se mostra mais conciliador, que demonstra mais desinteresse, caridade e verdadeira grandeza d’alma granjeará sempre a simpatia das pessoas imparciais. (ESE- cap.X – Bem aventurados os que são misericordiosos)

CARIDADE E INDULGÊNCIA - A I NDULGÊNCIA

16. Espíritas, queremos falar-vos hoje da indulgência, sentimento doce e fraternal que todo homem deve alimentar para com seus irmãos, mas do qual bem poucos fazem uso.

A indulgência não vê os defeitos de outrem, ou, se os vê, evita falar deles, divulgá-los. Ao contrário, oculta-os, a fim de que se não tornem conhecidos senão dela unicamente, e, se a malevolência os descobre, tem sempre pronta uma escusa para eles, escusa plausível, séria, não das que, com aparência de atenuar a falta, mais a evidenciam com pérfida intenção.

A indulgência jamais se ocupa com os maus atos de outrem, a menos que seja para prestar um serviço; mas, mesmo neste caso, tem o cuidado de os atenuar tanto quanto possível. Não faz observações chocantes, não tem nos lábios censuras; apenas conselhos e, as mais das vezes, velados. Quando criticais, que consequência se há de tirar das vossas palavras? A de que não tereis feito o que reprovais, visto que, estais a censurar; que valeis mais do que o culpado. Ó homens! quando será que julgareis os vossos próprios corações, os vossos próprios pensamentos, os vossos próprios atos, sem vos ocupardes com o que fazem vossos irmãos? Quando só tereis olhares severos sobre vós mesmos?

Sede, pois, severos para convosco, indulgentes para com os outros. Lembrai-vos daquele que julga em última instância, que vê os pensamentos íntimos de cada coração e que, por conseguinte, desculpa muitas vezes as faltas que censurais, ou condena o que relevais, porque conhece o móvel de todos os atos. Lembrai-vos de que vós, que clamais em altas vozes: anátema! tereis, quiçá, cometido faltas mais graves.

Sede indulgente, meus amigos, porquanto a indulgência atrai, acalma, ergue, ao passo que o rigor desanima, afasta e irrita. – José, Espírito protetor. (Bordéus, 1863.) (ESE – Cap. X ´Bem aventurados os que são misericordiosos)

CARIDADE E HUMILDADE

5. Caridade e humildade, tal a senda única da salvação. Egoísmo e orgulho, tal a da perdição. Este princípio se acha formulado nos seguintes precisos termos: “Amarás a Deus de toda a tua alma e a teu próximo como a ti mesmo; toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos.” E, para que não haja equívoco sobre a interpretação do amor de Deus e do próximo, acrescenta: “E aqui está o segundo mandamento que é semelhante ao primeiro”, isto é, que não se pode verdadeiramente amar a Deus sem amar o próximo, nem amar o próximo sem amar a Deus. Logo, tudo o que se faça contra o próximo o mesmo é que fazê-lo contra Deus. Não podendo amar a Deus sem praticar a caridade para com o próximo, todos os deveres do homem se resumem nesta máxima: FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO. (ESE cap. XV)

CARIDADE E MISERICÓRDIA

18. Caros amigos, sede severos convosco, indulgentes para as fraquezas dos outros. É esta uma prática da santa caridade, que bem poucas pessoas observam. Todos vós tendes maus pendores a vencer, defeitos a corrigir, hábitos a modificar; todos tendes um fardo mais ou menos pesado a alijar, para poderdes galgar o cume da montanha do progresso. Por que, então, haveis de mostrar-vos tão clarividentes com relação ao próximos e tão cegos com relação a vós mesmos? Quando deixareis de perceber, nos olhos de vossos irmãos, o pequenino argueiro que os incomoda, sem atentardes na trave que, nos vossos olhos, vos cega, fazendo-vos ir de queda em queda? Crede nos vossos irmãos, os Espíritos. Todo homem, bastante orgulhoso para se julgar superior, em virtude e mérito, aos seus irmãos encarnados, é insensato e culpado: Deus o castigará no dia da sua justiça. O verdadeiro caráter da caridade é a modéstia e a humildade, que consistem em ver cada um apenas superficialmente os defeitos de outrem e esforçar-se por fazer que prevaleça o que há nele de bom e virtuoso, porquanto, embora o coração humano seja um abismo de corrupção, sempre há, nalgumas de suas dobras mais ocultas, o gérmen de bons sentimentos, centelha vivaz da essência espiritual.

Espiritismo! doutrina consoladora e bendita! felizes dos que te conhecem e tiram proveito dos salutares ensinamentos dos Espíritos do Senhor! Para esses, iluminado está o caminho, ao longo do qual podem ler estas palavras que lhes indicam o meio de chegarem ao termo da jornada: caridade prática, caridade do coração, caridade para com o próximo, como para si mesmo; numa palavra: caridade para com todos e amor a Deus acima de todas as coisas, porque o amor a Deus resume todos os deveres e porque impossível é amar realmente a Deus, sem praticar a caridade, da qual fez ele uma lei para todas as criaturas. Dufêtre, bispo de Nevers. (Bordéus.) (ESSE – cap. X item 18)

CARIDADE E PERFEIÇÃO

1. Amai os vossos inimigos; fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam. – Porque, se somente amardes os que vos amam, que recompensa tereis disso? Não fazem assim também os publicanos? – Se unicamente saudardes os vossos irmãos, que fazeis com isso mais do que outros? Não fazem o mesmo os pagãos? – Sede, pois, vós outros, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai celestial. (S. MATEUS, 5:44, 46 a 48.)

2. Pois que Deus possui a perfeição infinita em todas as coisas, esta proposição: “Sede perfeitos, como perfeito é o vosso Pai celestial”, tomada ao pé da letra, pressuporia a possibilidade de atingir-se a perfeição absoluta. Se à criatura fosse dado ser tão perfeita quanto o Criador, tornar-se-ia ela igual a este, o que é inadmissível. Mas, os homens a quem Jesus falava não compreenderiam essa nuança, pelo que ele se limitou a lhes apresentar um modelo e a dizer-lhes que se esforçassem pelo alcançar.

Aquelas palavras, portanto, devem entender-se no sentido da perfeição relativa, a de que a Humanidade é suscetível e que mais a aproxima da Divindade. Em que consiste essa perfeição? Jesus o diz: “Em amarmos os nossos inimigos, em fazermos o bem aos que nos odeiam, em orarmos pelos que nos perseguem.” Mostra ele desse modo que a essência da perfeição é a caridade na sua mais ampla acepção, porque implica a prática de todas as outras virtudes.

Com efeito, se se observam os resultados de todos os vícios e, mesmo, dos simples defeitos, reconhecer-se-á nenhum haver que não altere mais ou menos o sentimento da caridade, porque todos têm seu princípio no egoísmo e no orgulho, que lhes são a negação; e isso porque tudo o que sobre-excita o sentimento da personalidade destrói, ou, pelo menos, enfraquece os elementos da verdadeira caridade, que são: a benevolência, a indulgência, a abnegação e o devotamento. Não podendo o amor do próximo, levado até ao amor dos inimigos, aliar-se a nenhum defeito contrário à caridade, aquele amor é sempre, portanto, indício de maior ou menor superioridade moral, donde decorre que o grau da perfeição está na razão direta da sua extensão. Foi por isso que Jesus, depois de haver dado a seus discípulos as regras da caridade, no que tem de mais sublime, lhes disse: “Sede perfeitos, como perfeito é vosso Pai celestial.”

CARIDADE E SACRIFÍCIO

26. Perguntais se é lícito ao homem abrandar suas próprias provas. Essa questão equivale a esta outra: É lícito, àquele que se afoga, cuidar de salvar-se? Àquele em quem um espinho entrou, retirá-lo? Ao que está doente, chamar o médico? As provas têm por fim exercitar a inteligência, tanto quanto a paciência e a resignação. Pode dar-se que um homem nasça em posição penosa e difícil, precisamente para se ver obrigado a procurar meios de vencer as dificuldades. O mérito consiste em sofrer, sem murmurar, as consequências dos males que lhe não seja possível evitar, em perseverar na luta, em se não desesperar, se não é bem-sucedido; nunca, porém, numa negligência, que seria mais preguiça do que virtude.

Essa questão dá lugar naturalmente a outra. Pois, se Jesus disse: “Bem-aventurados os aflitos”, haverá mérito em procurar, alguém, aflições que lhe agravem as provas, por meio de sofrimentos voluntários? A isso responderei muito positivamente: sim, há grande mérito quando os sofrimentos e as privações objetivam o bem do próximo, porquanto é a caridade pelo sacrifício; não, quando os sofrimentos e as privações somente objetivam o bem daquele que a si mesmo as inflige, porque aí só há egoísmo por fanatismo.

Grande distinção cumpre aqui se faça: pelo que vos respeita pessoalmente, contentai-vos com as provas que Deus vos manda e não lhes aumenteis o volume, já de si por vezes tão pesado; aceitá-las sem queixumes e com fé, eis tudo o que de vós exige ele. Não enfraqueçais o vosso corpo com privações inúteis e macerações sem objetivo, pois que necessitais de todas as vossas forças para cumprirdes a vossa missão de trabalhar na Terra. Torturar e martirizar voluntariamente o vosso corpo é contravir a lei de Deus, que vos dá meios de o sustentar e fortalecer. Enfraquecê-lo sem necessidade é um verdadeiro suicídio. Usai, mas não abuseis, tal a lei. O abuso das melhores coisas tem a sua punição nas inevitáveis consequências que acarreta.

Muito diverso é o que ocorre, quando o homem impõe a si próprio sofrimentos para o alívio do seu próximo. Se suportardes o frio e a fome para aquecer e alimentar alguém que precise ser aquecido e alimentado e se o vosso corpo disso se ressente, fazeis um sacrifício que Deus abençoa. Vós que deixais os vossos aposentos perfumados para irdes à mansarda infecta levar a consolação; vós que sujais as mãos delicadas pensando chagas; vós que vos privais do sono para velar à cabeceira de um doente que apenas é vosso irmão em Deus; vós, enfim, que despendeis a vossa saúde na prática das boas obras, tendes em tudo isso o vosso cilício, verdadeiro e abençoado cilício, visto que os gozos do mundo não vos secaram o coração, que não adormecestes no seio das volúpias enervantes da riqueza, antes vos constituístes anjos consoladores dos pobres deserdados.

Vós, porém, que vos retirais do mundo, para lhe evitar as seduções e viver no insulamento, que utilidade tendes na Terra? Onde a vossa coragem nas provações, uma vez que fugis à luta e desertais do combate? Se quereis um cilício, aplicai-o às vossas almas e não aos vossos corpos; mortificai o vosso Espírito e não a vossa carne; fustigai o vosso orgulho, recebei sem murmurar as humilhações; flagiciai o vosso amor-próprio; enrijai-vos contra a dor da injúria e da calúnia, mais pungente do que a dor física. Aí tendes o verdadeiro cilício cujas feridas vos serão contadas, porque atestarão a vossa coragem e a vossa submissão à vontade de Deus. – Um anjo guardião. (Paris, 1863.) (ESSE – Cap. V – Bem - aventurados os aflitos) PROVAS VOLUNTÁRIAS. O VERDADEIRO CILÍCIO

CARIDADE E PACIÊNCIA

7. A dor é uma bênção que Deus envia a seus eleitos; não vos aflijais, pois, quando sofrerdes; antes, bendizei de Deus onipotente que, pela dor, neste mundo, vos marcou para a glória no céu.

Sede pacientes. A paciência também é uma caridade e deveis praticar a lei de caridade ensinada pelo Cristo, enviado de Deus. A caridade que consiste na esmola dada aos pobres é a mais fácil de todas. Outra há, porém, muito mais penosa e, conseguintemente, muito mais meritória: a de perdoarmos aos que Deus colocou em nosso caminho para serem instrumentos do nosso sofrer e para nos porem à prova a paciência.

A vida é difícil, bem o sei. Compõe-se de mil nadas, que são outras tantas picadas de alfinetes, mas que acabam por ferir. Se, porém, atentarmos nos deveres que nos são impostos, nas consolações e compensações que, por outro lado, recebemos, havemos de reconhecer que são as bênçãos muito mais numerosas do que as dores. O fardo parece menos pesado, quando se olha para o alto, do que quando se curva para a terra a fronte.

Coragem, amigos! Tendes no Cristo o vosso modelo. Mais sofreu ele do que qualquer de vós e nada tinha de que se penitenciar, ao passo que vós tendes de expiar o vosso passado e de vos fortalecer para o futuro. Sede, pois, pacientes, sede cristãos. Essa palavra resume tudo. – Um Espírito amigo. (Havre, 1862.) (ESE – cap. IX , item 7)

CARIDADE COM OS CRIMINOSOS

ELIZABETH DE FRANÇA

Havre, 1862

14 – A verdadeira caridade é um dos mais sublimes ensinamentos de Deus para o mundo. Entre os verdadeiros discípulos da sua doutrina deve reinar perfeita fraternidade. Devem amar os infelizes, os criminosos, como criaturas de Deus, para as quais, desde que se arrependam, serão concedidos o perdão e a misericórdia, como para vós mesmos, pelas faltas que cometeis contra a sua lei. Pensai que sois mais repreensíveis, mais culpados que aqueles aos quais recusais o perdão e a comiseração, porque eles quase sempre não conhecem a Deus, como o conheceis, e lhes será pedido menos do que a vós.

Não julgueis, oh! Não julgueis, meus queridos amigos, porque o juízo com que julgardes vos será aplicado ainda mais severamente, e tendes necessidade de indulgência para os pecados que cometeis sem cessar. Não sabeis que há muitas ações que são crimes aos olhos do Deus de pureza, mas que o mundo não considera sequer como faltas leves?

A verdadeira caridade não consiste apenas na esmola que dais, nem mesmo nas palavras de consolação com que as acompanhais. Não , não é isso apenas que Deus exige de vós! A caridade sublime, ensinada por Jesus, consiste também na benevolência constante, e em todas as coisas, para com o vosso próximo. Podeis também praticar esta sublime virtude para muitas criaturas que não necessitam de esmolas, e que palavras de amor, de consolação e de encorajamento conduzirão ao Senhor.

Aproximam-se os tempos, ainda uma vez vos digo, em que a grande fraternidade reinará sobre o globo. Será a lei de Cristo a que regerá os homens: somente ela será freio e esperança, e conduzirá as almas às moradas dos bem-aventurados. Amai-vos, pois, como os filhos de um mesmo pai; não façais diferenças entre vós e os infelizes, porque Deus deseja que todos sejam iguais; não desprezeis a ninguém. Deus permite que os grandes criminosos estejam entre vós, para vos servirem de ensinamento. Brevemente, quando os homens forem levados à prática das verdadeiras leis de Deus, esses ensinamentos não serão mais necessários, e todos os Espíritos impuros serão dispersados pelos mundos inferiores, de acordo com as suas tendências.

Deveis a esses de que vos falo o socorro de vossas preces: eis a verdadeira caridade. Não deveis dizer de um criminoso: “É um miserável; deve ser extirpado da Terra; a morte que se lhe inflige é muito branda para uma criatura dessa espécie”. Não, não é assim que deveis falar! Pensai no vosso modelo, que é Jesus. Que diria ele, se visse esse infeliz ao seu lado? Havia de lastimá-lo, considerá-lo como um doente muito necessitado, e lhe estenderia a mão. Não podeis, na verdade, fazer o mesmo, mas pelo menos podeis orar por ele, dar-lhe assistência espiritual durante os instantes que ainda deve permanecer na Terra. O arrependimento pode tocar-lhe o coração, se orardes com fé. É vosso próximo, como o melhor dentre os homens. Sua alma, transviada e revoltada, foi criada, como a vossa, para se aperfeiçoar. Ajudai-o, pois, a sair do lamaçal, e orai por ele.

CARIDADE SEM OSTENTAÇÃO

1. Tende cuidado em não praticar as boas obras diante dos homens, para serem vistas, pois, do contrário, não recebereis recompensa de vosso Pai que está nos céus. – Assim, quando derdes esmola, não trombeteeis, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Digo-vos, em verdade, que eles já receberam sua recompensa. – Quando derdes esmola, não saiba a vossa mão esquerda o que faz a vossa mão direita; – a fim de que a esmola fique em segredo, e vosso Pai, que vê o que se passa em segredo, vos recompensará. (S. MATEUS, 6:1 a 4.)

2. Tendo Jesus descido do monte, grande multidão o seguiu. – Ao mesmo tempo, um leproso veio ao seu encontro e o adorou, dizendo: Senhor, se quiseres, poderás curar-me. – Jesus, estendendo a mão, o tocou e disse: Quero-o, fica curado; no mesmo instante desapareceu a lepra. – Disse-lhe então Jesus: abstém-te de falar disto a quem quer que seja; mas, vai mostrar-te aos sacerdotes e oferece o dom prescrito por Moisés, a fim de que lhes sirva de prova. (S. MATEUS, 8:1 a 4.)

3. Em fazer o bem sem ostentação há grande mérito; ainda mais meritório é ocultar a mão que dá; constitui marca incontestável de grande superioridade moral, porquanto, para encarar as coisas de mais alto do que o faz o vulgo, mister se torna abstrair da vida presente e identificar-se com a vida futura; numa palavra, colocar-se acima da Humanidade, para renunciar à satisfação que advém do testemunho dos homens e esperar a aprovação de Deus. Aquele que prefere ao de Deus o sufrágio dos homens prova que mais fé deposita nestes do que na Divindade e que mais valor dá à vida presente do que à futura. Se diz o contrário, procede como se não cresse no que diz. Quantos há que só dão na esperança de que o que recebe irá bradar por toda a parte o benefício recebido! Quantos os que, de público, dão grandes somas e que, entretanto, às ocultas, não dariam uma só moeda! Foi por isso que Jesus declarou: “Os que fazem o bem ostentosamente já receberam sua recompensa.” Com efeito, aquele que procura a sua própria glorificação na Terra, pelo bem que pratica, já se pagou a si mesmo; Deus nada mais lhe deve; só lhe resta receber a punição do seu orgulho.

Não saber a mão esquerda o que dá a mão direita é uma imagem que caracteriza admiravelmente a beneficência modesta. Mas, se há a modéstia real, também há a falsa modéstia, o simulacro da modéstia. Há pessoas que ocultam a mão que dá, tendo, porém, o cuidado de deixar aparecer um pedacinho, olhando em volta para verificar se alguém não o terá visto ocultá-la. Indigna paródia das máximas do Cristo! Se os benfeitores orgulhosos são depreciados entre os homens, que não será perante Deus? Também esses já receberam na Terra sua recompensa. Foram vistos; estão satisfeitos por terem sido vistos. É tudo o que terão.

E qual poderá ser a recompensa do que faz pesar os seus benefícios sobre aquele que os recebe, que lhe impõe, de certo modo, testemunhos de reconhecimento, que lhe faz sentir a sua posição, exaltando o preço dos sacrifícios a que se vota para beneficiá-lo? Oh! para esse, nem mesmo a recompensa terrestre existe, porquanto ele se vê privado da grata satisfação de ouvir bendizer-lhe do nome e é esse o primeiro castigo do seu orgulho. As lágrimas que seca por vaidade, em vez de subirem ao Céu, recaíram sobre o coração do aflito e o ulceraram. Do bem que praticou nenhum proveito lhe resulta, pois que ele o deplora, e todo benefício deplorado é moeda falsa e sem valor.

A beneficência praticada sem ostentação tem duplo mérito. Além de ser caridade material, é caridade moral, visto que resguarda a suscetibilidade do beneficiado, faz-lhe aceitar o benefício, sem que seu amor-próprio se ressinta e salvaguardando-lhe a dignidade de homem, porquanto aceitar um serviço é coisa bem diversa de receber uma esmola. Ora, converter em esmola o serviço, pela maneira de prestá-lo, é humilhar o que o recebe, e, em humilhar a outrem, há sempre orgulho e maldade. A verdadeira caridade, ao contrário, é delicada e engenhosa no dissimular o benefício, no evitar até as simples aparências capazes de melindrar, dado que todo atrito moral aumenta o sofrimento que se origina da necessidade. Ela sabe encontrar palavras brandas e afáveis que colocam o beneficiado à vontade em presença do benfeitor, ao passo que a caridade orgulhosa o esmaga. A verdadeira generosidade adquire toda a sublimidade, quando o benfeitor, invertendo os papéis, acha meios de figurar como beneficiado diante daquele a quem presta serviço. Eis o que significam estas palavras: “Não saiba a mão esquerda o que dá a direita.” (ESE – cap. XIII – Não saiba a vossa mão esquerda o que de a vossa mão direita)

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Alguns contos sobre a caridade

 

O anjo solitário

Enquanto o Mestre agonizava na cruz, rasgou-se o céu em Jerusalém e entidades angélicas, em grupos extensos, desceram sobre o Calvário doloroso... Na poeira escura do chão, a maldade e a ignorância expeliam trevas demasiadamente compactas para que alguém pudesse divisar as manifestações sublimes. Fios de claridade indefinível passaram a ligar o madeiro ao firmamento, embora a tempestade se anunciasse a distância... O Cristo, de alma sedenta e opressa, contemplava a celeste paisagem, aureolado pela glória que lhe bafejava a fronte de herói, e os emissários do Paraíso chegavam, em bandos, a entoaram cânticos de amor e reconhecimento que os tímpanos humanos jamais poderiam perceber. Os Anjos da Ternura rodearam-lhe o peito ferido como a lhe insufladores energias novas. Os portadores da Consolação ungiram-lhe os pés sangrentos com suave bálsamo. Os Embaixadores da Harmonia, sobraçando instrumentos delicados, formaram coroa viva, ao redor de sua atribulada cabeça, desferindo comovedoras melodias a se espalharem por bênçãos de perdão sobre a turba amotinada. Os Emissários da Beleza teceram guirlandas de rosas e lírios sutis, adornando a cruz ingrata. Os Distribuidores de Justiça, depois de lhe oscularem as mãos quase hirtas, iniciaram a catalogação dos culpados para chamá-los a esclarecimento a reajuste em tempo devido. Os Doadores de Carinho, em assembléia encantadora, postaram-se à frente dele e acariciavam-lhe os cabelos empastados de sangue. 105 Os Enviados da Luz acenderam focos brilhantes nas chagas doloridas, fazendo-lhe olvidar o sofrimento. Trabalhavam os mensageiros do Céu, em torno do Sublime Condutor dos Homens, aliviando-o e exaltando-o, como a lhe prepararem o banquete da ressurreição, quando um anjo aureolado de intraduzível esplendor apareceu, solitário, descendo do império magnificente da Altura. Não trazia seguidores e, em se abeirando do Senhor, beijou-lhe os pés, entre respeitoso e enternecido. Não se deteve na ociosa contemplação da tarefa que, naturalmente, cabia aos companheiros, mas procurou os olhos de Jesus, dentro de uma ansiedade que não se observara em nenhum dos outros. Dir-se-ia que o novo representante do Pai Compassivo desejava conhecer a vontade do Mestre, antes de tudo. E, em êxtase, elevou-se do solo em que pousara, aos braços do madeiro afrontoso. Enlaçou o busto do Inesquecível Supliciado, com inexcedível carinho, e colocou, por um instante, o ouvido atento em seus lábios que balbuciavam de leve. Jesus pronunciou algo que os demais não escutaram distintamente. O mensageiro solitário desprendeu-se, então, do lenho duro, revelando olhos serenos e úmidos e, de imediato, desceu do monte ensolarado para as sombras que começavam a invadir Jerusalém, procurando Judas, a fim de socorrê-lo e ampará-lo. Se os homens lhe não viram a expressão de grandeza e misericórdia, os querubins em serviço também lhe não notaram a ausência. Mas, suspenso no martírio, Jesus contemplava-o, confiante, acompanhando-lhe a excelsa missão, em silêncio. Esse, era o anjo divino da Caridade. (Humberto de Campos, psicografia de Chico Xavier – do livro: “Estante da Vida”, cap. 34)

História do Frei Bonaventura: uma lição de caridade.

Em uma pequena comunidade medieval na Europa, vivia um monge que possuía um coração generoso. Ele auxiliava a todas as pessoas de seu povoado. Nas primeira horas do dia, o Frei Bonaventura já se encontrava às portas de seu mosteiro para auxiliar, dentro de suas possibilidades, as pessoas carentes do corpo e do espírito.

O caridoso Frei atendia desde problemas materiais, como a necessidade de alimento e vestuário, até complexos problemas existenciais. Ele era um grande psicólogo dos dilemas humanos. Muitos casamentos e relações familiares foram salvas pelas palavras meigas e sábias do generoso servo de Cristo.

O seu trabalho era dedicar-se ao próximo sem distinguir o rico do pobre, o suserano do vassalo ou a classe real da plebe. Bonaventura compreendia que a verdadeira caridade não espera nada em troca e não escolhe os beneficiados. Ela simplesmente age por agir!

As pessoas do seu povoado diziam ser Bonaventura um anjo ou um santo de Deus em missão na Terra, porque ele nada fazia para si, somente para os outros. E quando lhe perguntavam o que ele gostaria de receber em contrapartida por toda a sua generosidade, ele respondia que já possuía tudo o que desejava através das bênçãos de Jesus.

Mas, na verdade, o amigo dos necessitados tinha um desejo que guardava oculto em seu coração. Ele desejava que Jesus lhe aparecesse em espírito para que ambos pudessem conversar. Bonaventura sonhava com a oportunidade de esclarecer, junto ao Mestre, as suas dúvidas sobre os ensinamentos do Evangelho e poder confraternizar com aquele que era o seu exemplo de vida e meta a atingir em sua dedicada existência.

Os anos se passavam e o bom frade trabalhava incessantemente, acalentando em seu coração a realização de seu sonho, sempre colocando em primeiro lugar, o amor e o espírito de caridade aos seus semelhantes.

Até que, certo dia, após acordar e preparar-se para atender aos necessitados, ele dirigiu-se ao quarto para pegar seus óculos e teve uma adorável surpresa: Lá, encontrou o governador espiritual da Terra, Jesus.

Em profunda emoção, o Frei Bonaventura disse:
- Mestre, tu atendeste ao meu pedido!
Os olhos do abnegado monge estavam marejados de lágrimas, fruto da forte emoção, quando ele ouviu algumas batidas agitadas em sua porta.

O monge ficou confuso sem saber o que fazer, enquanto Jesus o fitava com um olhar misterioso. Passados alguns poucos segundos, o monge colocou as mãos no rosto e disse:
- Mestre, me desculpa, mas não posso deixar de atender minha gente!

Bonaventura girou sobre os calcanhares e correu até a porta sem olhar para atrás. E naquele dia, estendeu-se em sua porta uma longa fila de necessitados que reclamavam o seu auxílio para assuntos urgentes que somente o bom padre poderia solucionar.

As pessoas estranhavam o abatimento de Bonaventura e lhe perguntavam sobre o que havia ocorrido. Ele apenas respondia que tudo estava bem e que estava apenas com um pequeno resfriado.

O dia passou rápido. E quando a última pessoa foi atendida, a noite já ia alta. Cansado e triste, ele retornou ao quarto para repousar. Ao trespassar a soleira da porta, ele teve uma divina surpresa. Jesus estava lá, em seu quarto, sentado aos pés da cama. O Frei, irradiante de alegria perguntou ao sublime rabi da Galiléia:
- Mestre, o Senhor me esperou?
E Jesus, com seus vivos olhos cor de amêndoa, respondeu irradiando sabedoria e amor: - -Se tu tivesses ficado, eu teria ido embora.

 

O Maior Servidor

Presente à reunião familiar, Filipe, em dado instante, perguntou ao Divino Mestre:

- Senhor, qual é o maior servidor do Pai entre os homens na Terra?

Jesus refletiu alguns minutos e contou:

- Grande multidão se congregava em extenso campo, quando aí estacionou famoso guerreiro carregado de espadas e medalhas, que passou a dar lições de tática militar, concitando os circunstantes ao aprendizado da defesa. O povo começou a fazer exercícios laboriosos, dando saltos e entregando-se a perigosas corridas, sem proveito real; todavia, continuou como dantes, sem rumo e sem júbilo, perdendo muitos jovens nas atividades preparatórias de guerra provável. Logo depois, apareceu na mesma região um grande político, com pesada bagagem de códigos, e dividiu a massa em vários partidos, declarando-se os moços contra os velhos, os lares pobres contra os ricos, os servos contra os mordomos, e, não obstante a sementeira de benefícios materiais, introduzidos na zona pela competição dos grupos entre si, o político seguiu adiante, deixando escuros espinheiros de ódio, desengano e discórdia entre os seus colaboradores. Depois dele, surgiu um filosofo, sobraçando volumosos alfarrábios e dividiu o povo em variadas escolas de crença que, em breve, propagavam infrutíferas discussões nos círculos de toda gente; a multidão duvidou de tudo, até mesmo da existência de si própria. A filosofia, sem dúvida, apresentava singulares vantagens, destacando-se as do estímulo ao pensamento, mas as perturbações de que se fazia acompanhar eram das mais lastimáveis, legando o filosofo muitas indagações inúteis aos cérebros menos aptos ao esforço de elevação. Em seguida, com, pareceu um sacerdote, munido de roupagens e símbolos, que forneceu muitas regras de adoração ao Pai. O povo aprendeu a dobrar os joelhos, a lavar-se e a suplicar a proteção divina, em horas certas. Entretanto, todos os problemas fundamentais da comunidade permaneceram se alteração.

No extenso domínio, não havia diretrizes ao trabalho, nem ânimo consciente, nem valor, nem alegria. A doença e a morte, a necessidade e a ignorância eram fantasmas de toda a gente.

Certo dia, porém, apareceu ali um homem simples. Não trazia armas, nem escrituras, nem discussões e nem imagens, mas pelo sorriso espontâneo revelava um coração cheio de boa vontade, guiando as mãos operosas. Não pregava doutrinas espetacularmente; todavia, nos gestos de bondade pura e constante, rendia culto sincero ao Todo-Poderoso. Começou a evidenciar-se, lavrando uma nesga do campo e adornando-a de flores e fritos preciosos. Conversava com os seus companheiros de luta, aproveitando as horas no ensinamento fraterno e edificante e transmitia suas experiências a todos os que se propusessem ouvi-lo. Aperfeiçoou a madeira, plantou árvores benfeitoras, construiu casas e instalou uma escola modesta. Em breve, ao redor dele, viçavam a saúde e a paz, a fraternidade e as bênçãos do serviço, a prosperidade e o contentamento de viver. Com o espírito de trabalho e educação que ele difundia, a defesa era boa, a política ajudava, a filosofia era preciosa e o sacerdócio era útil, porque todas as ações, no campo, permaneciam agora presididas pelo santo imperativo da execução do dever pessoal no bem de todos.

Calou-se o Cristo, mas a assistência reduzida não ousou qualquer indagação.

Após contemplar o horizonte longínquo, em longos instantes de pensamento mudo, o Mestre terminou:

- Em verdade, há muitos trabalhadores no mundo que merecem a bênção do Céu pelo bem que proporcionam ao corpo e à mente das criaturas, mas aquele que educa o espírito eterno, ensinando e servindo, paira acima de todos.

(Chico Xavier (médium) - Neio Lúcio (espírito) Fonte: Livro: Jesus no Lar)

 

O auxílio mútuo

Diante dos companheiros, André leu expressivo trecho de Isaías e falou, comovido, quanto às necessidades da salvação.

Comentou Mateus os aspectos menos agradáveis do trabalho e Felipe opinou que é sempre muito difícil atender à própria situação, quando nos consagramos ao socorro dos outros.

Jesus ouviu os apóstolos em silêncio e, quando as discussões, em derredor, se enfraqueceram, comentou, muito simples:

- Em zona montanhosa, através de região deserta, caminhavam dois velhos amigos, ambos enfermos, cada qual a defender-se, quanto possível, contra os golpes do ar gelado, quando foram surpreendidos por uma criança semimorta, na estrada, ao sabor da ventania de inverno.

Um deles fixou o singular achado e clamou, irritadiço: - “Não perderei tempo. A hora exige cuidado para comigo mesmo. Sigamos à frente”.

O outro, porém, mais piedoso, considerou:

- “Amigo, salvemos o pequenino. É nosso irmão em humanidade”.

- “Não posso – disse o companheiro, endurecido -, sinto-me cansado e doente. Este desconhecido seria um peso insuportável. Temos frio e tempestade. Precisamos ganhar a aldeia próxima sem perda de minutos”.

E avançou para diante em largas passadas.

O viajor de bom sentimento, contudo, inclinou-se para o menino estendido, demorou-se alguns minutos colocando-o paternalmente ao próprio peito e, aconchegando-o ainda mais, marchou adiante, embora menos rápido.

A chuva gelada caiu, metódica, pela note adentro, mas ele, sobraçando o valioso fardo, depois de muito tempo atingiu a hospedaria do povoado que buscava. Com enorme surpresa, porém, não encontrou aí o colega que o precedera. Somente no dia imediato, depois de minuciosa procura, foi o infeliz viajante encontrado sem vida, num desvão do caminho alagado.

Seguindo à pressa e a sós, com a ideia egoística de preservar-se, não resistiu a onde de frio que se fizera violenta e tombou encharcado, sem recursos com que pudesse fazer face ao congelamento, enquanto que o companheiro, recebendo, em troca, o suave calor da criança que sustentava junto ao próprio coração, superou os obstáculos da noite frigida, guardando-se indene de semelhante desastre. Descobrira a sublimidade do auxílio mútuo... Ajudando ao menino abandonado, ajudara a si mesmo. Avançando com sacrifício para ser útil a outrem, conseguira triunfar dos percalços da senda, alcançando as bênçãos da salvação recíproca.

A historia singela deixara os discípulos surpreendidos e sensibilizados.

Terna admiração transparecia nos olhos úmidos das mulheres humildes que acompanhavam a reunião, ao passo que os homens se entreolhavam, espantados.

Foi então que Jesus, depois de curto silêncio, concluiu expressivamente.

- As mais eloquentes e exatas testemunhas de um homem, perante o Pai Supremo, são as suas próprias obras. Aqueles que amparamos constituem nosso sustentáculo. O coração que socorremos converter-se-á agora ou mais tarde em recurso a nosso favor. Ninguém duvide. Um homem sozinho é simplesmente um adorno vivo da solidão, mas aquele que coopera em beneficio do próximo é credor do auxilio comum. Ajudando, seremos ajudados. Dando, receberemos: esta é a Lei Divina.

(Chico Xavier (médium) Fonte:Livro: Jesus no Lar- Neio Lúcio (espírito))

 

A caridade desconhecida

A conversação em casa de Pedro versava, nessa noite, sobre a prática do bem, com a viva colaboração verbal de todos.

Como expressar a compaixão, sem dinheiro? Por que meios incentivar a beneficência, sem recursos monetários?

Com essas interrogativas, grandes nomes da fortuna material eram invocados e a maioria inclinava-se a admitir que somente os poderosos da Terra se encontravam à altura de estimular a piedade ativa, quando o Mestre interferiu, opinando, bondoso:

- Um sincero devoto da Lei foi exortado por determinações do Céu ao exercício da beneficência; entretanto, vivia em pobreza extrema e não podia, de modo algum, retirar a mínima parcela de seu salário para o socorro aos semelhantes. Em verdade, dava de si mesmo, quanto possível, em boas palavras e gestos pessoais de conforto e estímulo a quantos se achavam em sofrimento e dificuldade; porém, magoava-lhe o coração a impossibilidade de distribuir agasalho e pão com os andrajosos e famintos à margem de sua estrada.

Rodeado de filhinhos pequeninos, era escravo do lar que lhe absorvia o suor.

Reconheceu, todavia, que se lhe era vedado o esforço na caridade pública, podia perfeitamente guerrear o mal, em todas as circunstâncias de sua marcha pela Terra.

Assim é que passou a extinguir, com incessante atenção, todos os pensamentos inferiores que lhe eram sugeridos; quando em contato com pessoas interessadas na maledicência, retraía-se, cortês, e, em respondendo a alguma interpelação direta, recordava essa ou aquela pequena virtude da vítima ausente; se alguém, diante dele, dava pasto à cólera fácil, considerava a ira como enfermidade digna de tratamento e recolhia-se à quietude; insultos alheios batiam-lhe no espírito à maneira de calhaus em barril de mel, porquanto, além de não reagir, prosseguia tratando o ofensor com a fraternidade habitual; a calúnia não encontrava acesso em sua alma, de vez que toda denúncia torpe se perdia, inútil, em seu grande silêncio; anotando ameaças sobre a tranquilidade de alguém, tentava desfazer as nuvens da incompreensão, sem alarde, antes que assumissem feição tempestuosa; se alguma sentença condenatória bailava em torno do próximo, mobilizava, espontâneo, todas as possibilidades ao seu alcance na defesa delicada e imperceptível; seu zelo contra a incursão e a extensão do mal era tão fortemente minucioso que chegava a retirar detritos e pedras da via pública, para que não oferecessem perigo aos transeuntes.

Adotando essas diretrizes, chegou ao termo da jornada humana, incapaz de atender às sugestões de beneficência que o mundo conhece. Jamais pudera estender uma tigela de sopa ou ofertar uma pele de carneiro aos irmãos necessitados.

Nessa posição, a morte buscou-o ao tribunal divino, onde o servidor humilde compareceu receoso e desalentado. Temia o julgamento das autoridades celestes, quando, de improviso, foi aureolado por brilhante diadema, e, porque indagasse, em lágrimas, a razão do inesperado PRÊMIO, foi informado de que a sublime recompensa se referia à sua triunfante posição na guerra contra o mal, em que se fizera valoroso empreiteiro.

Fixou o Mestre nos aprendizes o olhar percuciente e calmo e concluiu, em tom amigo:

- Distribuamos o pão e a cobertura, acendamos luz para a ignorância e intensifiquemos a fraternidade, aniquilando a discórdia, mas não nos esqueçamos do combate metódico e sereno contra o mal, em esforço diário, convictos de que, nessa batalha santificante, conquistaremos a divina coroa da caridade desconhecida.

( A Caridade Desconhecida - Chico Xavier (médium)Neio Lúcio (espírito) Livro: Ideias e Ilustrações)

 

A Caridade

Há um apólogo em que o Diabo compra a alma de um boêmio, cuja carteira enche diariamente de cédulas, para que ele as gaste, até a última. No dia em que ficar uma cédula sem ser consumida, está concluída a transação, e a alma tem de ser entregue ao comprador.

O boêmio gasta, cada dia, centenas de contos com o luxo, com o amor, com o jogo, com as bebidas, com as várias formas de dissipação. Até que, uma noite, resolve capitular. Não tem em que empregue o dinheiro do Diabo. E vai entregar-lhe a alma.

- Aqui me tens – diz. Não encontrei mais em que despender dinheiro na Terra.

O Diabo sorri, toma-lhe a alma, e depois de tomá-la diz: - Há, no entanto, no mundo alguma coisa em que um homem pode consumir, diariamente, e até ao fim dos séculos, todo o dinheiro que tenha nas mãos. E olhando o homem nos olhos: - Nunca ouviste falar na Caridade?

(A Caridade - Antônio F. Rodrigues (médium) Humberto de Campos (espírito) Livro: Mensagens dos Mestres)

 

O Anjo e o Malfeitor

O Mensageiro do Céu volveu do Alto a sombrio vale do mundo, em apoio de
centenas de criaturas mergulhadas na enfermidade e no crime, na, miséria e na ignorância, e, necessitando de concurso alheio para estender socorro urgente, começou por recorrer a publicação de apelos do Próprio Evangelho, induzindo corações, em nome do Cristo, à compaixão e a caridade.

Entretanto, porque tardasse qualquer resultado concreto, de vez que todos os habitantes do vale se comoviam com as legendas, mas não se encorajavam à menor manifestação de amparo ao próximo, o Enviado Celestial, convicto de que fora recomendado pelo Senhor a servir e não a questionar, julgou mais acertado assumir a forma de um homem e solicitar sem delongas o apoio de alguém que lhe pudesse prestar auxílio.

Materializado a preceito, procurou pela colaboração dos homens considerados mais responsáveis. Humilde e resoluto, repetia sempre o mesmo convite à prática evangélica, registrando respostas que o surpreendiam pela diferença.

O VIRTUOSO - Não posso manchar meu nome em contato com os viciosos e transviados.

O SÁBIO - Cada qual está na colheita daquilo que semeou. Falta-me tempo para ajudar vagabundos, voluntariamente distanciados da própria restauração.

O PRUDENTE - Não posso arriscar minha posição dificilmente conquistada, na intimidade de pessoas que me prejudicariam a estima publica.

O FILANTROPO - Dou o dinheiro que seja necessário, mas de modo algum me animaria a lavar feridas de quem quer que seja.

O PREGADOR - Que diriam de mim se me vissem na companhia de criminosos?

O FILÓSOFO - Nunca desceria a semelhante infantilidade... Aspiro a alcançar as mais altas revelações do Universo. Devo estudar infinitamente... Além disso, estou cansado de saber que, se não houvesse sofrimento, ninguém se livraria do mal...

O PESQUISADOR DA VERDADE - Não sou a pessoa indicada. Caridade é capa de muitas dobras, que tanto acolhe o altruísmo quanto a fraude. Não me incomode... Procuro tão somente as realidades essenciais.

Desencantado, o Mensageiro bateu à porta de conhecido malfeitor, aliás, a pessoa menos categorizada para a tarefa, e reformulou a solicitação. O convidado, embora os desajustes íntimos, considerou, de imediato, a honra
que o Senhor lhe fazia, propiciando-lhe o ensejo de operar no levantamento do bem geral, e meditou, agradecido, na Infinita Bondade que o arrancava da condenação para o favor do serviço. Não vacilou. Seguiu aquele desconhecido de maneiras fraternais que lhe pedia cooperação e entregou-se decididamente ao trabalho. Em pouco tempo, conheceu a fundo o martírio das mães desamparadas, entre a doença e a penúria, carregando órfãos de pais vivos; o pranto das viúvas relegadas à solidão; as aflições dos enfermos que esperavam a morte nas arcas de ninguém; a tragédia das crianças abandonadas; o suplício dos caluniados sem defesa; os problemas terríveis dos obsidiados sem assistência; a mágoa das vítimas dos preconceitos levados ao exagero pelo orgulho social; a angústia dos sofredores caídos em desespero pela ausência de fé...

Modificado nos mais profundos sentimentos, o ex-malfeitor consagrou-se ao alívio e à felicidade dos outros, e, percebendo necessidades e provações que não conhecia, procurou instruir-se e aperfeiçoar-se. Com quarenta anos de abnegação, adquiriu as qualidades básicas do Virtuoso, os recursos primordiais do Sábio, o equilíbrio do Prudente, as facilidades econômicas do Filantropo, a competência do Pregador, a acuidade mental do Filósofo e os altos pensamentos do Pesquisador da Verdade...

Quando largou o corpo físico, pela desencarnação - Espírito lucificado no cadinho da própria regeneração, ao calor do devotamento ao próximo -, entrou vitoriosamente no Céu, para a ascensão a outros Céus...

Um dia, chegaram ao limiar da Esfera Superior o Virtuoso, o Sábio, o Prudente, o Filantropo, o Pregador, o Filósofo e o Pesquisador da Verdade...

Examinados na Justiça Divina, foram considerados dignos perante as Leis do Senhor; entretanto, para o mérito de seguirem adiante, luzes acima, faltava-lhes trabalhar na seara do amor aos semelhantes... Enquanto na Terra não haviam desentranhado os tesouros que Deus lhes havia conferido em benefício dos outros cabia-lhes, assim, o dever de regressar às lides da reencarnação, mas, porque haviam abraçado conduta respeitável no mundo, o Virtuoso receberia, na existência vindoura, mais veneração, o Sábio mais apreço, o Prudente mais serenidade, o Filantropo mais dinheiro, o Pregador mais inspiração, o Filósofo mais discernimento e o Pesquisador da Verdade mais luz...

Observando, porém, que o malfeitor, sobejamente conhecido deles todos, vestia alva túnica resplendente, funcionando entre os agentes da Divina Justiça, começaram a discutir entre si, incapazes de reconhecer que na obra do amor qualquer filho de Deus encontra os instrumentos e caminhos da própria renovação. Desalentados, passaram a reclamar... Em nome dos companheiros, o Virtuoso aproximou-se do orientador maior que lhes revisava os interesses no Plano Espiritual e indagou:

-Venerável Juiz, por que motivo um malfeitor atravessou antes de nós, as fronteiras do Céu?!...

O magistrado, porém, abençoou-lhe a inquietação com um sorriso e informou, simplesmente.

- Serviu.

(O Anjo e o Malfeitor - Chico Xavier ( médium ) Irmão X ( espírito )Livro: Estante da Vida)

 

A Bomba d’agua

Contam que um certo homem estava perdido no deserto, prestes a morrer de sede.

Foi quando ele chegou a uma casinha velha, uma cabana desmoronando - sem janelas, sem teto, batida pelo tempo. O homem perambulou por ali e encontrou uma pequena sombra onde se acomodou, fugindo do calor do sol desértico.

Olhando ao redor, viu uma bomba a alguns metros de distância, bem velha e enferrujada. Ele se arrastou até ali, agarrou a manivela, e começou a bombear sem parar. Nada aconteceu. Desapontado, caiu prostrado para trás e notou que ao lado da bomba havia uma garrafa. Olhou-a, limpou-a, removendo a sujeira e o pó, e leu o seguinte recado:
"Você precisa primeiro preparar a bomba com toda a água desta garrafa, meu amigo.
PS.: Faça o favor de encher a garrafa outra vez antes de partir."

O homem arrancou a rolha da garrafa e, de fato, lá estava a água. A garrafa estava quase cheia de água! De repente, ele se viu em um dilema:
Se bebesse aquela água poderia sobreviver, mas se despejasse toda a água na velha bomba enferrujada, talvez obtivesse água fresca, bem fria, lá no fundo do poço, toda a água que quisesse e poderia deixar a garrafa cheia pra próxima pessoa... mas talvez isso não desse certo.

Que deveria fazer? Despejar a água na velha bomba e esperar a água fresca e fria ou beber a água velha e salvar sua vida? Deveria perder toda a água que tinha na esperança daquelas instruções pouco confiáveis, escritas não se sabia quando?

Com relutância, o homem despejou toda a água na bomba. Em seguida, agarrou a manivela e começou a bombear... e a bomba começou a chiar. E nada aconteceu!

E a bomba foi rangendo e chiando. Então surgiu um fiozinho de água; depois um pequeno fluxo, e finalmente a água jorrou com abundância! A bomba velha e enferrujada fez jorrar muita, mas muita água fresca e cristalina.

Ele encheu a garrafa e bebeu dela até se fartar. Encheu-a outra vez para o próximo que por ali poderia passar, arrolhou-a e acrescentou uma pequena nota ao bilhete preso nela:
"Creia-me, funciona! Você precisa dar toda a água antes de poder obtê-la
de volta!"

Podemos aprender coisas importantes a partir dessa breve história:
1. Nenhum esforço que você faça será válido, se ele for feito da forma errada. Você pode passar sua vida toda tentando bombear algo quando alguém já tem reservado a solução para você. Preste atenção a sua volta! Deus está sempre pronto a suprir sua necessidade!

2. Ouça atentamente o que Deus tem a te dizer, através de alguém, de um livro, de uma mensagem de rádio ou TV, de um jornal ou revista, através da INTERNET ou de um e-mail, etc. e confie. Como esse homem, nós temos as instruções por escrito à nossa disposição. Basta usar.

3. Saiba olhar adiante e compartilhar! Aquele homem poderia ter se fartado e ter se esquecido de que outras pessoas que precisassem da água pudessem passar por ali. Ele não se esqueceu de encher a garrafa e ainda por cima soube dar uma palavra de incentivo. Se preocupe com quem está próximo de você, lembre-se: você só poderá obter água se a der antes.
Cultive seus relacionamentos, dê o melhor de si! (Autor anônimo)

 

A Lenda da Caridade

Diz interessante lenda do Plano Espiritual que, a princípio, no mundo se espalham milhares de grupos humanos, nas extensas povoações da Terra.
O Senhor endereçava incessantes mensagens de paz e bondade às criaturas, entretanto, a maioria se desgarrou no egoísmo e no orgulho.
A crueldade agravava-se, o ódio explodia...
Diligenciando solução ao problema, o Celeste Amigo chamou o Anjo Justiça que entrou, em campo e, de imediato, inventou o sofrimento.
Os culpados passaram a resgatar, os próprios delitos, a preço de enormes padecimentos.
O Senhor aprovou os métodos da Justiça que reconheceu indispensáveis ao equilíbrio da Lei, no entanto, desejava encontrar um caminho menos espinhoso para a transformação dos espíritos sediados na Terra, já que a dor deixava comumente um rescaldo de angústia a gerar novos e pesados conflitos.
O Divino Companheiro solicitou concurso ao Anjo Verdade que estabeleceu, para logo, os princípios da advertência.
Tribunas foram erguidas, por toda parte, e os estudiosos do relacionamento humano começaram a pregar sobre os efeitos doma ledo bem, compelindo os ouvintes à aceitação da realidade.
Ainda assim, conquanto a excelência das lições propagadas repontavam dúvidas em torno dos ensinamentos de virtude, suscitando atrasos altamente prejudiciais aos mecanismos da elevação espiritual.
O Senhor apoiou a execução dos planos ideados pelo Anjo da Verdade, observando que as multidões terrestres não deveriam viver ignorando o próprio destino.
No entanto, a compadecer-se dos homens que necessitavam reforma íntima sem saberem disso, solicitou cooperação do Anjo do Amor, à busca de algum recurso que facilitasse a jornada dos seus tutelados para os Cimos da Vida.
O novo emissário criou a caridade e iniciou-se profunda transubstanciação de valores.
Nem todas as criaturas lhe admitiam o convite e permaneciam, na retaguarda, matriculados nas tarefas da Justiça e da Verdade, das quais hauriam a mudança benemérita, em mais longo prazo, mas todas aquelas criaturas que lhe atenderam as petições, passaram a ver e auxiliar doentes p obsessos, paralíticos e mutilados, cegos e infelizes, os largados à rua e os sem ninguém.
O contato recíproco gerou precioso câmbio espiritual.
Quantos conduziam alimento e agasalho, carinho e remédio para os companheiros infortunados recebiam deles, em troca, os dons da paciência e da compreensão, da tolerância e da humildade e, sem maiores obstáculos, descobriram a estrada para a convivência com os Céus.
O Senhor louvou a caridade, nela reconhecendo o mais importante processo de orientação e sublimação, a benefício de quantos usufruem a escola da Terra.
Desde então, funcionam, no mundo, o sofrimento, podando as arestas dos companheiros revoltados: a doutrinação informando aos espíritos indecisos quanto às melhores sendas de ascensão às Bênçãos Divinas; e a caridade iluminando a quantos consagram ao amor pelos semelhantes, redimindo sentimentos e elevando almas, porque, acima de todas as forças que renovam os rumos da criatura, nos caminhos, humanos, a caridade é a mais vigorosa, perante Deus, porque é a única que atravessa as barreiras da inteligência e alcança os domínios do coração.

(Do livro: Seara de Fé, Médium: Francisco Cândido Xavier ditado por Memei)

 

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Sugestão de alguns vídeos:

1. https://www.mensagemespirita.com.br/mensagem-em-video/1297/um-pai-nunca-abandona-seu-filho-assista-video-emocionante

2. https://www.youtube.com/watch?v=vzanYuJmoLg

3. https://www.youtube.com/watch?v=yyCfacB0yL4

4. https://www.youtube.com/watch?v=Eh5lDQXIBBo

5. https://www.youtube.com/watch?v=hxvCnWLoVNs

6. https://www.youtube.com/watch?v=Be99A_w2kts

7. https://www.youtube.com/watch?v=WaFrGxmHV0A

8. https://www.youtube.com/watch?v=V7cjo_bZ4ew

9. http://liravideos.blogspot.com/2013/10/momentos-mendigo-reencontra-sua-familia.html

10. https://www.youtube.com/watch?v=0f2yQ1k4Uvg

11. https://www.youtube.com/watch?v=Be99A_w2kts&t=23s

12. https://www.youtube.com/watch?v=LnL5J3TtcL8

13. https://www.youtube.com/watch?v=pxpp2OYTYUA

 

 

 

 


Bom trabalho para todos!